“O Espelho” é um dos quatro filmes do projeto Tela Brilhadora.

Um projeto fomentado com co-produção do Canal Brasil, para a realização de quatro longas-metragens de baixo orçamento em poucos meses. Os outros três longas foram dirigidos por Julio Bressane, Bruno Safadi e Moa Batsow.

Trata-se de uma adaptação do conto homônimo de Machado de Assis repleta de toques pessoais e biográficos do diretor-estreante.

Todo o filme se passa em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Mais precisamente em uma casa grande e antiga. Na primeira imagem projetada, vemos o alto pico das montanhas da cidade chamado de “Dedo de Deus”. Em seguida, na mesma posição da rocha, estão os dedos do protagonista em primeiro plano, estabelecendo algo como uma busca de conexão com o divino, sobrenatural.

Segundo o próprio Rodrigo Lima, em debate após a exibição, “O Espelho” é um filme de muitas faces e interpretações, e ele mesmo, enquanto diretor, ainda o está descobrindo. É um cinema de processo inverso. O cineasta descobre sua obra a partir do olhar do outro.

O que esta colunista pode afirmar, é que estamos diante de de um filme tão verdadeiramente pessoal, que é impossível não se sentir tocado por ele. Seja com qual interpretação for.

Num olhar pessoal, a camada que mais me atravessa é a da dimensão humana em busca de algo espiritual e interior. É a camada do enfrentamento do homem diante de si mesmo, ou seja, de seu reflexo no espelho.

Muitas são as imagens de rostos ou partes do corpo refletidas em superfícies: vidros, espelhos d’água… E em cada um deles um enfrentamento diferente era exaltado. Todos de tom íntimo em busca de uma espiritualidade ou um contato com a alma humana.

espelho

Em muitos momentos (a começar pelo título), me lembrei de “O Espelho” (1975) de Andrei Tarkovsky. O filme mais autobiográfico do cineasta russo, que assim como o de Rodrigo Lima, traz memórias da infância do diretor, uma casa com um significado pessoal, a natureza presente o tempo todo como algo místico e muita, muita água.

Além de todas essas camadas e conexões o filme ainda tem espaço para abrigar elementos como: um misticismo tipicamente brasileiro, certo tom expressionista com toques de horror, referências ao artista Bill Viola e uma linda sequência em que a atriz Ana Abbott dança e sua imagem vai se desfocando lentamente até se tornar um espectro, uma sombra, uma forma não definida que se movimenta como se voasse ou estivesse embaixo d’água. Uma poesia imagética.

“O Espelho” é um filme para ser visto e revisto muitas vezes, em diferentes fases da vida, para que ele, com suas infinitas significações, possa trazer a cada nova projeção uma mensagem diferente.

 

Quer receber mais conteúdo? Cadastre-se no nosso Clube de Cultura

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

DÊ SUA OPINIÃO