Foto: Reprodução/Universo Produção

Na noite do dia 22 de janeiro, foi dada a largada para o calendário do audiovisual do cinema brasileiro em 2016.

O cineasta ítalo-brasileiro Andrea Tonacci é o homenageado da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes. E o filme escolhido para a abertura foi “Serras da Desordem”, que completa dez anos desde sua primeira exibição no Brasil durante a mesma Mostra em 2006.

Pra quem não conhece: A Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada pela Universo Produção, é um dos principais eventos anuais do cinema brasileiro. Uma mostra exclusiva para cinema contemporâneo que se consolidou como uma plataforma de lançamento de filmes independentes.

“Serras da Desordem” não foi escolhido para a abertura da Mostra só em comemoração à sua década de exibição na tela mineira, mas também, por se relacionar diretamente com o tema deste ano: “Espaços em Conflito”, que vem pautando a cena do cinema brasileiro das últimas décadas.

“Serras da Desordem” acompanha e recria partes da vida de Carapiru, um índio brasileiro que quase não fala português, mas cuja história está profundamente entrelaçada com a construção da civilização latino-americana e brasileira.

A tribo de Carapiru foi massacrada por criminosos em 1978. Homens brancos, mineradores, que chegavam ao interior brasileiro para trabalhar. Como único sobrevivente, Carapiru passa a vagar pelas serras do Brasil Central até ser capturado e levado a Brasília, dez anos depois.

Na época, o índio foi manchete de jornais. Um índio genuíno, sem a influência do homem branco e que não entendia a nossa linguagem. Um verdadeiro centro para uma polêmica entre antropólogos e linguistas. Carapiru viveu uma verdadeira jornada.

O filme, traz o próprio índio, já bem mais velho, para interpretar a si mesmo em cenas que recriam seus dias com sua tribo e pela mata, quando já caminhava solitário. Ultrapassando o tempo todo a linha tênue que separa a ficção do documentário, Andrea Tonacci coloca em cena outros personagens da história de Carapiru, ora para atuar, ora para relatar os fatos da época.

As cenas de reconstituição são realmente intrigantes: como fazer índios se portarem cotidianamente como se a câmera não estivesse ali? Além deles, há sertanistas, os que abrigaram Carapiru em sua comunidade, que contam sua história e também participam de reconstituições.

Com trechos de imagens de arquivo submetidas a uma montagem dialética, o filme discute a aceleração do “progresso” contemporâneo e como isso afeta os diferentes espaços e as mais diferentes culturas. É a partir da extraordinária história de um índio (um homem considerado tão simples e diferente de nós), que conseguimos ver em perspectiva esse processo evolutivo (ou seria “involutivo”?) do homem branco.

“Serras da Desordem” não é um filme comum. É um olhar amplo sobre a vida em um determinado espaço, tempo e cultura, e que ainda é capaz de se expandir para muitas vidas, espaços, tempos e culturas, logo, se torna universal, e deve ser celebrado!

 

 

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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