Desvio para o Vermelho: Impregnação, Entorno, Desvio, 1967-1984 técnica mista
Desvio para o Vermelho: Impregnação, Entorno, Desvio, 1967-1984
técnica mista

A instalação de arte “Desvio para o vermelho” de Cildo Meireles está guardada em Inhotim, na cidade de Brumadinho, estado de Minas Gerais. A crônica de hoje vem cheia de saudosismos – dos bons ares mineiros, das cores vibrantes em contraste com o verde de Inhotim, com a brancura-rosada de Camila Reis, as cervejas, cachas e risadas no sereno em que três jovens riam da vida e do carnaval que se anunciava longe, bem longe dali. Em um trabalho de campo que mais se deu como uma experiência de vida, Camila falou “Ninguém pode morrer sem antes vir aqui, sem conhecer este lugar.” Com brilho e lágrimas nos olhos, Camila conheceu Inhotim, se emocionando muito ao percorrer “Desvio para o vermelho”.

Para entrarmos no trabalho de Cildo, somos convidados a deixar os calçados no lado de fora da sala. A percepção do vermelho que nos cerca se dá até mesmo através de nossos pés. A sala é branca, mas toda a mobília é vermelha. Todos os utensílios, todos os alimentos, quadros, molduras, sofá, roupa e ventilador – de um vermelho existencial. O tapete sobre o qual pisávamos o chão se desenhou na memória de meus pés como uma espécie de grama sintética vermelha que abraçava meus pés. A impressão era a de que estávamos em uma casa de bonecas em meio a uma grande brincadeira liderada por uma criança obcecada por vermelho. Às vezes, parecia-nos também que, ao adentrarmos aquela sala, nossa visão teria sido alterada para um padrão vermelho/branco.

As brincadeiras, a interação com a mobília (pelo menos antes que os monitores do museu pudessem nos repreender), nos conduziu à escuridão. Um outro cômodo daquela casa de bonecas nos desloca daquela zona de conforto da brincadeira e altera a percepção de nossa retina ao nos impor o negro como delimitador do ambiente que não se vê. É um negro que desenha o espaço, nos absorve e faz parecer que estamos enclausurados em uma prisão na qual não sabemos onde nossos pés irão pisar e que o risco de cair em um fosso ou de ser tragada pela escuridão espreita nossa experiência.

Eis que, de repente, percebemos uma luz. E aquele espaço que antes parecia ser desenhado pela escuridão do ambiente começou a ganhar contornos outros a partir do som de uma de uma torneira que jorrava vermelho-escarlate sob uma luz que iluminava um ponto nascente naquela escuridão. O vermelho-líquido escorria pelo chão e nos fazia perceber que já tínhamos caminhado sobre todo aquele vermelho caído no chão sem nos darmos conta daquilo sobre o qual pisávamos. Não somente o vermelho no chão daquele ambiente preto, mas todo aquele vermelho que havíamos vivido com olhos de brincadeira.
Todo aquele vermelho-brincadeira-bonito ganhou sentidos outros. No início desta sala negra, uma garrafa aberta, jogada no chão parecia tentar conter aquele vermelho-sangue; quase uma metáfora da caixa de Pandora. Algo que não deveria ter sido aberto, mas foi. Camila pensou – “ditadura, sangue de inocentes. Pisamos e brincamos com coisas que foram pintadas com sangue de inocentes. Como pode?” me perguntava ela com os olhos cheios de lágrimas. Camila havia sido deslocada de uma realidade em pleno século XXI a tempos pretéritos nos quais ela nem mesmo viveu (ou viveu?). Camila estava vivendo plenamente seu século XXI, pensando em todo o sangue que é derramado, em todos os movimentos de tortura que são camuflados em formatos de brincadeira e que, por mais que sua cor grite um silêncio que nos afiança que aquilo com o qual brincamos, de alguma forma, por algum motivo embaçado, não está em ordem.

Precisávamos sair daquele galpão encarnado. Outras pessoas deveriam passar por ali. Nossos pés deveriam pisar outros lugares. Nossa sensação deveria ser deslocada de outras maneiras. Vivemos muitas coisas naquele dia, naquela antiga fazenda do Inhô Tim. Mas nada, sem dúvida alguma, desviara tanto Camila de seu lugar comum para um vermelho de tantas conotações. Deixamos o lugar com o cair da tarde. Ficamos de voltar alguns meses depois, durante esse momento, o céu e as constelações de Brumadinho, em sua imensidão e plenitude guardariam as obras contemporâneas até nossa volta, no outono seguinte. Um outono com ventos tortuosos que ao novamente conduzir os passos de Camila àquele “Desvio para o vermelho” estavam se despedindo da moça de cachos loiros. Aqueles pés não mais seriam tingidos pelo vermelho-escarlate de Cildo Meireles. No inverno do ano seguinte, Camila passaria a fazer parte das constelações daquele céu, não só de Brumadinho, mas o da vida, porque lugar de estrela é no firmamento, ao lado de seus iguais.

Antes que o outono termine
Caroline Alciones

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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