Uma vez na escola ouvi uma história de um rapaz que tinha sido atropelado e sobreviveu. Super normal pensar que ele fora para o hospital e tinha sobrevivido a batida, mas não foi o que aconteceu… A cena que devemos imaginar é diferente do que descrevi anteriormente. O rapaz nem chegou a ser atropelado, ele desviou do carro com um pulo. Isso mesmo, ele pulou por cima do carro. Algo surpreendente para um garoto no ensino médio, mas verdadeiro.

Quando ouvi essa história achei um feito surpreendente. Parecia-me algo que não podia conceber totalmente. Algo que eu só veria nos filmes do Jackie Chan. Logo o que aconteceu foi meio óbvio, ele se tornou uma lenda. O que esse rapaz tinha feito era algo surreal e o causo se alastrou rapidamente pelo colégio. Ele virou uma lenda e quase um ninja adolescente. O engraçado que para falar a verdade eu nunca vi o rosto dele, mas eu sabia o que ele tinha feito.

Nisso, o nascimento de um herói tinha se criado dentro da escola. Muito se falava dele igual como deviam falar de Perseu ou Hércules. Seu feito era comparado a de um deus grego e com razão. Por sinal, os gregos eram bons nisso, em criar histórias e a representá-las através da arte. Vasos e esculturas representavam seus feitos em imagens vermelhas ou pretas.

O povo podia não conhecer Hércules pessoalmente, mas ao olhar um vaso com azeite dentro entendia através dos desenhos a história do herói. A vida de um herói grego era passada muito similar a do rapaz ninja do carro. Era oral e através de imagens que somente as pessoas que viviam no grupo entenderiam. No mundo contemporâneo nosso entendimento de herói mudou e não vemos muitos exemplos épicos e histórias maravilhosas.

23-p161top-medium

Com exceção de uma história, a do garoto que sobreviveu. Não estou voltando a falar do rapaz do carro, mas de Harry James Potter. Seu feito perdurou gerações e tendeu a influenciar quem leu seus livros. Essa minha frase pode parecer estranha como se eu estivesse escrevendo que Harry Potter existe e que ele escreveu o que aconteceu em sua vida. Vamos pensar através de Homero, autor grego que viveu em meados do século VIII a.C. Homero foi responsável por escrever dois poemas épicos que conhecemos, a Ilíada e a Odisseia. Ambas são contextualizadas historicamente com documentação, só que encontramos uma dificuldade nisso tudo: não sabemos se Homero realmente existiu. Sua comprovação de vida se dá através dessas duas obras. Do testemunho que deixou através de seus escritos. Se podemos questionar a existência de Homero por que não devemos pensar na real presença de Harry Potter.

 

“As consequências dos nossos atos são sempre tão complexas, tão diversas, que predizer o futuro é uma tarefa realmente difícil.” – Harry Potter

 

As ações de jovem bruxo de Grifinória são exemplos de sabedoria e amizade que encanta quem lê cada página de suas aventuras. Sabemos que estamos nos aproximando da vida de Harry quando vivenciamos juntos cada momento de sua saga. Mesmo que possa parecer irracional o que digo, ao usar os documentos escritos que temos com Odisseia ou o Cálice de Fogo, devemos seguir também pelos documentos materiais como esculturas e pinturas.

Seguindo o exemplo, um busto de Homero é uma representação de como seria o autor. Suas feições envelhecidas e rugas marcam a sua face expressiva. Por outro lado, em Harry encontramos nas ilustrações dos livros e na adaptação para o cinema um rapaz esguio, com óculos e um raio na testa.

Fácil reconhecimento.

Harrypotter7-wand300x220

 

Questionar a existência de um personagem na arte não diminui seus feitos e glórias. Os textos e pinturas devem trazer a tona o nosso imaginário sobre a vida de um herói. Suas conquistas e desafios são divididos entre as pessoas para podermos seguir nossas vidas com seu exemplo. Se Homero existiu nesse caso nunca saberemos, mas Harry Potter sim pois ele sempre existirá através das histórias que lemos nos livros, vimos nos filmes e experimentamos em vida.

 

“São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.” – Dumbledore

 

 

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

DÊ SUA OPINIÃO