Sempre me considerei a favor de causas sociais e das lutas que as dão força. Na época da faculdade, sempre que podia e concordava me enfiava em algum ato estudantil pra dar força e ouvir o debate. Confesso, contudo, que nem sempre entendia por completo algumas colocações e reivindicações que eram apresentadas. Essa limitação me fez cometer diversas gafes durante um tempo, até perceber o que estava fazendo falta: a empatia. Pois bem, calei-me e prestei atenção no que diziam; forcei-me a imaginar como seriam seus sentimentos, dores e angústias para que estivessem ali lutando. A empatia que desenvolvi, e continuo a desenvolver, é a principal ferramenta que me permitiu compreender bastante as diversas colocações que antes não eram claras. Digo tudo isso, pois sem ela com certeza os trabalhos de duas artistas feitos na metade final de 2015 teriam passado por mim sem grande importância e não poderia enaltecê-los na data de hoje.

Currency of Man e A Mulher do Fim do Mundo são dois álbuns que muito se relacionam, o primeiro feito pela estadunidense Melody Gardot e o segundo da veterana Elza Soares. Currency of Man é o quarto álbum de estúdio da artista norte-americana e traz consigo temas como conflitos raciais, empoderamento feminino, relacionamentos abusivos, entre outros assuntos, tudo envolto com jazz, soul e até uma boa influência de bossa. As letras são fortes, bem escritas e mostram como os assuntos são pertinentes e devem estar presentes na música. A Mulher do Fim do Mundo por sua vez é o primeiro álbum apenas com músicas inéditas gravadas por Elza. Traz em seu repertório temas como questões raciais, violência contra mulheres, sexo e o tempo, acompanhados por harmonias diversas que vão de um samba trágico a um rock mais descontraído sem perder o sentido. As letras também intensas e bem compostas se misturam perfeitamente com os timbres de Elza dando ainda mais força para o trabalho.

O fato de terem sido lançados em um espaço de tempo muito próximo e tratarem de assuntos tão parecidos, senão iguais, condiz com uma frase do Picasso: “[…] A arte que não estiver no presente jamais será arte.”. Os temas abordados são uma realidade e precisam ser discutidos, nada melhor que destacá-los em trabalhos artísticos tão bem feitos e arranjados.

central-da-mpb-a-mulher-do-fim-do-mundo-capa-natura-musical-disco-cd-album-elza-soaresContudo, a semelhança entre as duas artistas não para por aí. Ambas têm na música um suporte vital, além de suas carreiras. É sabido que Elza Soares teve uma vida difícil e por diversas vezes usou a música e sua carreira para dar a volta por cima, se reinventar e superar as adversidades. Melody Gardot, por sua vez, começou sua carreira musical após um grave acidente, que a deixou com sequelas, ao encontrar na música uma terapia para seu tratamento e alívio da dor. As duas usaram seus talentos e a música como forma de enfrentarem os problemas e o resultado foi ótimo.

A vontade era continuar falando sobre e adicionar ainda mais artistas nesse rol, mas como ainda estou no início, vamos com calma. Escolhi essas duas mulheres para ilustrar esse texto porque ambas despertaram ainda mais minha empatia com o assunto e gostaria de compartilhá-los com vocês nesse Dia Internacional da Mulher. Sei que existem diversas outras artistas produzindo mais músicas pra integrar à luta, sendo assim só consigo pensar em parafrasear um verso da música A Mulher do Fim do Mundo mudando apenas a conjugação: “Deixem-nas cantar até o fim”.

Quer receber mais conteúdo? Cadastre-se no nosso Clube de Cultura

Victor Antunes
Apaixonado por arte, tenho a música como primeiro amor nessa lista. Difícil definir um gosto musical, mas meu xodó incontestável é o blues. E sim, os Beatles são a melhor banda até agora e quem discorda ou não entende a obra deles, ou quer aparecer, rs.

DÊ SUA OPINIÃO