Casa do Rio Vermelho, uma das minhas referências culturais de 2014. Foto: Romildo de Jesus - Folhapress

Como produtores culturais, sentimos um desejo natural de acompanhar muitas atividades culturais, a fim de formar repertório. Afirma-se, inclusive, que depois de produtores nunca voltamos a ser apenas público ao ter contato com algum produto cultural, sempre estamos analisando, avaliando e – por que não? – julgando muito. É intrínseco à profissão: precisamos conhecer para indicar para um projeto ou contratante a banda adequada ou o local ideal para a realização de determinado evento. Nesse final de ano, convido os leitores/produtores do TagCultural a se fazerem a seguinte reflexão: de que modo 2014 ampliou seu repertório? O que você viu, ouviu, assistiu pela primeira vez neste ano? Certa vez, um publicitário lançou a máxima “qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?” e deixou muita gente pensativa. A pergunta realmente tem impacto e, depois de segundos de reflexão, pode ser acompanhada por “o que estou fazendo da minha vida?”. Às vezes a rotina apressada nos impede de inovar, de buscar novas informações, faz com que nos contentemos ao refúgio e à segurança do “mais do mesmo”. Mas nós, enquanto produtores, temos que sair o tempo todo desse lugar de conforto, temos que realizar algo ao mesmo tempo em que prevemos oportunidades, ameaças e resultados, devemos projetar para além do produto cultural. Pensando nisso, apresento a seguir minha avaliação pessoal sobre o ano que chega ao fim.

Antes de tudo, confesso que minha memória é falha, portanto, corro um risco alto de apresentar maravilhas conhecidas apenas no segundo semestre do ano. Esqueço de nomes e datas, dos finais de livros e filmes, mas, em 10 minutos de reflexão, cheguei a 21 grandes marcos culturais do meu ano. Na música, a linguagem que mais atrai minha atenção em busca de novidades, fui especialmente feliz. Ouvi pela primeira vez o trabalho de Boogarins, Van der Vous, Artur Soares e Josy Lélis, músicos de Goiânia (GO), Salvador (BA), Natal (RN) e Juazeiro (BA), respectivamente. Boogarins e Van der Vous são psicodelia na veia, música para pirar, enquanto Artur Soares e Josy Lélis são amor e sotaque num regionalismo reinventado. Ainda não consegui assistir ao vivo as performances de Josy e Boogarins, mas espero que isso mude em 2015. Na categoria “novos discos”, destaco os álbuns da Sanitário Sexy e Neto Lobo e a CacimBA, ambas do interior baiano. Assim como eu, as bandas têm a cidade de Senhor do Bonfim como ponto de partida na trajetória cultural, então o encontro já havia acontecido. O que fica marcado neste ano, portanto, é o lançamento (e a qualidade) dos novos discos. O rock de Metáfora, da Sanitário Sexy, tem letras que lembram o cotidiano das noites de bebedeira de qualquer jovem e um trio baixo-guitarra-bateria bom de ouvir e dançar. O rock de Neto Lobo nasce da mistura entre a guitarra e a zabumba, o universal e o local reunidos mais uma vez em Meu Pé de Umbu, disco que já nasce regional no título que remete à “árvore sagrada do sertão”, como disse Euclides da Cunha sobre o umbuzeiro. Produzido pelo grande André T., não tinha como ser diferente: o álbum é precioso. No quesito shows, destaco inicialmente os de Kalu, de Salvador (BA), e Rael, de São Paulo (SP). Não acho que sejam grandiosos pela estrutura montada ou performance, eles se destacam no meu ano porque eu aguardava vê-los no palco há tempos. Kalu é a poesia musicada de forma plena, é a calmaria do fim de tarde olhando o mar. Rael mostra que o Hip Hop é Foda – single do EP lançado há um mês, Diversoficando, que de tão bom mereceria um post exclusivo – no primeiro acorde, é o rap que se aproxima do jazz, da MPB, do reggae. No entanto, meu show do ano foi o de MC Priguissa, de Natal (RN). Também já conhecia e aguardava pela apresentação há tempos, até que tive a oportunidade de assistir (e pirar) na capital potiguar. O nome do ritmo é raggamuffin, um swing “mais quente que Dubai”, como ele mesmo canta.

Na categoria de espaços culturais, destaco o Museu de Arte Sacra da UFBA, em Salvador, que contem um dos maiores acervos do gênero na América Latina. É incrível! Algumas peças são do século XVI e a vista é uma atração à parte: a Baía de Todos os Santos pode ser vista por cada janela por onde o público circula. O Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, em Porto Alegre, também é incrível. É um local tão atrativo, interativo e mágico que pode ser entendido como visita obrigatória para os pais que desejam aproximar seus filhos de um museu. Da capital gaúcha, merecem lembrança também o Bar Opinião, pela ambientação, organização e programação de qualidade, e as diversas praças e parques, que fazem do espaço urbano um grande espaço cultural. Outro local em Salvador que merece cinco estrelas é a Casa do Rio Vermelho, antiga residência de Jorge Amado e Zélia Gattai aberta para visitação em 2014. Feito para ver, ouvir e tocar, é possível sentir a casa e o cotidiano dos ilustres ex-moradores. Passear pelo jardim já é uma experiência marcante, e tudo se intensifica a cada passo. Foi o espaço e acervo que mais me marcaram no ano. A exposição de Ron Mueck, no Rio de Janeiro, também impressionou. As esculturas hiperrealistas do artista são incríveis, motivo pelo qual atraiu 210 mil visitantes em dois meses. A visita no Museu de Arte Moderna do Rio me fez refletir ainda sobre o acesso à cultura e o problema decorrente da superlotação de um museu. A repercussão midiática da exposição atraiu muita gente, o que é ótimo, mas até que ponto é interessante participar de uma mostra lotada, onde você é obrigado a tropeçar em duzentas pessoas tirando selfies?

A visita à Casa do Rio Vermelho me despertou a conhecer mais a literatura de Jorge Amado, então corri para loja do espaço. Eu já tinha lido a maioria dos títulos disponíveis, o que fez a vendedora me apresentar os livros de Zélia Gattai. Ouvia elogios à autora desde sempre, mas nunca me interessei em ler seu trabalho. Resolvi dar uma chance e o livro comprado, Crônica de uma Namorada, foi devorado em 24h e se tornou um dos marcos do meu ano. O outro foi Indiscotíveis, um livro para ler no volume máximo, como o próprio subtítulo indica. Organizado por Itaici Brunetti, ele reúne textos de 14 autores (músicos, produtores, jornalistas) sobre 14 discos clássicos da música brasileira. O projeto gráfico é muito especial: são sete livretos, cada um com lado A e B, fazendo referência aos EPs de sete polegadas, reunidos em uma caixa. Decidi só ler cada capítulo depois de ouvir o disco referente, o que se mostrou uma grande experiência. Por conta do livro, conheci grandes álbuns, como Os Afros-Sambas, de Baden Powell & Vinícius de Moraes, e Tim Maia Racional.

Na terra do audiovisual, algumas notas. Passei a assistir Orange is the New Black neste ano e enlouqueci, como todo o público da série. Gosto da discussão social presente nos episódioa, a discussão sobre o sistema prisional e, em especial, a uma mensagem implícita: em condições de pressão, todos viramos pessoas horríveis. O recente Relatos Selvagens também fez minha cabeça. O filme argentino fala sobre o mesmo tema da série, a perda do autocontrole e o universo como uma barbárie, envolvidos numa tragicomédia empolgante. Sobre grandes festas, 2014 foi o ano em que abandonei alguns preconceitos, resistência e medo para enfrentar pela primeira vez o Carnaval de Salvador e o Forró do Sfrega – festa privada de São João em Senhor do Bonfim. O resultado foi incrível. Tive a mesma reação da minha primeira vez no Festival de Verão de Salvador: bater palmas para quem consegue montar com excelência estruturas de produção tão grandiosas.

2014 também foi o ano em que aprovei meu primeiro projeto cultural – concebido e inscrito em meu nome – em um edital de financiamento público. A Mostra Bonfim em Cena é meu grande desafio para 2015. Algumas das referências encontradas neste ano farão parte desse movimento, mostrando como é importante estar atento para tudo que puder ser ouvido, lido, visto, assistido. Que sejam felizes as novas referências! Feliz Ano Novo!

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

DÊ SUA OPINIÃO