O título pode até dar algumas dicas; hoje estou falando de ficção científica.

Não é à toa, mesmo de uma perspectiva mais pessoal: o gênero é parte da minha formação como leitor (e sem dúvida desempenha um papel importante na minha escolha por uma carreira); meu trabalho de conclusão de curso para graduação, apresentado na semana passada, teve sua publicação no mercado editorial do aqui e agora como seu objeto principal.

Enfim: passei os últimos dias da semana lendo um livro de ficção científica chamado Arkwright. Escrito por Allen Steele, o enredo e ambientação servem como uma maldisfarçada carta de amor para os velhos tempos da ficção científica “de raiz”: o fenômeno da pulp fiction anglo-saxã iniciado na primeira metade do século XX que nos traria os nomes canonizados do gênero, de Asimov e Heinlein a Dick e Delany, além das histórias fantásticas que encantariam gerações por anos a fio.

ct7rbgvb5ca6qmffezh0No mundo peculiar de Arkwright, há um escritor (inventado) de ficção científica dessas gerações passadas chamado Nathan Arkwright. Famoso pela publicação de seus romances de exploração espacial, Arkwright, na época de sua morte, deixa toda a sua considerável herança para a criação de uma fundação dedicada à exploração do espaço entre as estrelas, cuja realização fora o maior sonho de sua vida e, infelizmente, sua maior frustração. O objetivo da Fundação Arkwright é, na verdade, construir uma nave interestelar que possa levar o genoma humano para um planeta habitável em uma estrela a dezenas de anos-luz do sistema solar. É o legado do escritor de ficção científica, além da beleza de suas histórias, que movem diversas gerações de seus descendentes e colegas a tornar sua fantástica visão uma realidade mensurável.

Apesar dos defeitos literários do livro — em relação principalmente a ritmo e caracterizações –, há por trás do épico de um escritor e seu legado uma mensagem interessante sobre a natureza da ficção científica que o bom Andrew Liptak, em seu texto sobre o livro para o io9, apontou com precisão:

O que mais me impressionou aqui, contudo, é o lembrete sobre a posição única que a ficção científica ocupa no mundo das artes. Ela é um gênero singular no sentido de que está constantemente imaginando e reimaginando que surpresas o futuro nos reserva.

Este é um assunto frequentemente discutido tanto em convenções quanto em ensaios, mas acho que Steele postulou um argumento interessante aqui: a ficção científica não pode realmente prever o futuro, mas pode se posicionar para promovê-lo: pode inspirar a direção que podemos tomar. O Nathan Arkwright do livro de Steele faz exatamente isso: passa sua carreira imaginando vastas aventuras na galáxia, e, no final, este é exatamente o resultado: uma vasta aventura na galáxia, em um mundo distante.

A relação da ficção científica com o futuro sempre foi, como aponta Liptak, um assunto fervoroso de debates: ela o prevê? Deve tentar prevê-lo? Convenciona-se que a fc acaba nos dizendo mais sobre o nosso presente do que sobre o futuro que de fato nos aguarda, mas isso não impediu de certos setores e épocas de a verem como uma espécie de vidência por definição, indo desde os aparatos científicos de Júlio Verne até as histórias sobre a bomba atômica de Cleve Cartmill e Robert Heinlein (que, inclusive, acabaram rendendo certas visitas do FBI).

E, no entanto, ao fim da Segunda Guerra Mundial, essa visão clara que a fc parecia ter do futuro foi o que, afinal, impulsionou uma tomada de seriedade da visão do público para com o gênero: a ficção científica deixou de ser algo somente para as aventuras escapistas das crianças e adolescentes, mas poderia, também, nos dizer o que estava porvir.

Naturalmente, a maior parte dos escritores de ficção científica discordam dessa assunção: Asimov dizia que qualquer previsão real não passava de mera coincidência, William Gibson acabou postulando certas tendências sociológicas que parecem ter, de forma esguia, se concretizado, ao mesmo tempo em que faltou a presciência de aumentar um pouco a memória RAM do século XXI. E isso porque, naturalmente, a ficção científica nunca foi, mesmo, propriamente sobre prever o futuro; pode ser sobre, de acordo com alguns e dependendo do livro, explicar o presente por meio de suas possíveis imagens desse futuro. A leitura de um clássico da ficção científica da década de 1920 vai lhe dizer muito sobre a sociedade que gerou a obra, assim como sobre o autor, suas visões, seu contexto cultural, histórico, social e por aí vai.

Mas também, de certa forma, essa mesma ficção científica pode acabar influenciando os rumos de um futuro possível, quando esses mesmos leitores que cresceram com essas histórias se inspiram a se tornar cientistas especializados em robótica, engenharia aeroespacial, e dezenas de mundos possíveis se abrem para um novo panorama.

Afinal, como bem nos passa a mensagem Arkwright, Allen Steele, Andrew Liptak, muitos outros: o futuro também se faz de sonhos.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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