Em nossa última crônica, chegamos à percepção de que as instituições de arte se adaptam, se modificam em movimentos, podemos dizer, camaleônicos, com fins de conservação e preservação de sua essência. Ou seja, modifica-se a estrutura mais externa para preservar aquilo que se entende como genuíno da instituição. Neste sentido, recorro às palavras de uma jovem professora de artes que afirma não compreender o caráter educativo das visitas ditas educativas dos museus de arte. De suas inquietações, a pergunta que podemos depreender da fala daquela professora é: como considerar educativa uma instituição que nem mesmo considera o local de fala dos educadores escolares?

Depois de ter participado de visitas guiadas de pelo menos três dos principais museus do Estado do Rio de Janeiro e depois de ter participado em diversas cidades brasileiras de passeios com guias turísticos, é possível afirmar que não há grandes distinções entre uma visita de museu e outra, a pontos de interesse turístico, exceção óbvia àquelas que dizem respeito às paisagens. Os discursos decorados se repetem, invariavelmente, em termos de metodologia e de vocabulário pretensamente sedutor. Porém, em seu processo de adaptação, as instituições de arte perceberam que o diálogo com a sociedade seria mais contundente em suas estratégias de convencimento se se apoderassem da aura da educação como forma de chancelar sua fala, seus domínios e territórios. Assim, a atividade de convencer o público da eficácia e da indispensabilidade da instituição se ancora no nome da educação.

As visitas guiadas a museus há algum tempo vêm sendo chamadas de visitas educativas, de visitas mediadas, mediações educativas ou simplesmente mediações. Quem as realiza são sempre “educadores”, independentemente de seu grau de instrução. E àquela professora que leva sua turma em seu horário de aula, que pensa em desenvolver atividades educativas, atividades de estímulo e de leitura crítica, a ela cabe o silêncio ou a espera do momento em que os guias-educadores dos museus se despedirão de seu público.

A estratégia da educação confere ao museu um caráter supostamente democrático, de aproximação entre arte/artista e sociedade. No entanto, sua primeira ação é fazer com que todos se silenciem e se adequem ao espaço museológico, de maneira a que todos fiquem atentos às grandes verdades que proclamam que a verdade da arte é domínio do museu. Assim o museu se adapta à necessidade de interação com a sociedade, afirmando a indispensabilidade da instituição e do profissional de museu nessa interação da sociedade com a arte/artista. Quando não o profissional em pessoa, as paredes com seus textos, os catálogos com suas instruções, os áudios e os aplicativos para celulares nos museus mais modernos, sempre a revelar as verdades sobre o mundo da arte.

Faltou porém, nesta onda educacional, considerar os nomes da educação que possuem suas ideias distorcidas pelo uso indevido de seus nomes e conceitos como que a chancelar as atividades educativas do museu – e lá vamos nós afirmar que a mediação que essas instituições insistem em afirmar em nada convergem com os conceitos desenvolvidos por Lev Semyonovich Vygotsky, para quem um ambiente livre e desafiador é indispensável para o aprendizado. Muito diferente das situações de certa forma opressoras da instituição-museu. Tampouco as ideias de Paulo Freire são aplicadas com um rigor mínimo nesses espaços que se afirmam educativos e que recorrem a seu nome, posto que a atividade que desenvolvem se aproximam da educação que o teórico-educador brasileiro descreve como “bancária”, por considerar o outro apenas como um recipiente vazio no qual se deposita o conhecimento que se quer inculcar nos indivíduos.

Assim, as instituições de arte se servem desses momentos atuais de anseio por democracia para se afirmarem enquanto instituições educadoras, conservando sua essência hierárquica e efetuando a manutenção de seus poderes. Neste emaranhado, algumas perguntas-sugestões permanecem: por que não olhamos ao redor? Por que não buscamos a arte no mundo? Por que permitimos nos distanciar daquilo que é nosso por direito inato – a “nossa” arte?

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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