Sabe quando você está indo para um lugar que você conhece, fazendo uma caminho que já fez várias vezes, mas de repente distraído você entra numa curva errada, ou perde uma curva, e se vê completamente perdido? E aí você fica dando voltas que nem um idiota a 10 metros do lugar que pretendia ir, para enfim retornar ao início da jornada e se encontrar? Às vezes algo parecido acontece nos quadrinhos.

Pode parecer um exagero, ainda mais se vem à sua mente uma tirinha de jornal. Quer dizer, como você vai se perder lendo Calvin e Haroldo? São 3 quadros, uma via de mão única. Esse cara deve ser um idiota, você pensa, leitor. Contudo, adicionando mais alguns quadros e mais textos, a coisa pode ficar complicada. E devemos lembrar que um momento de hesitação, mesmo centésimos de segundos em que o olho fica perdido, é o bastante para tirar a pessoa da história.

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O bom e velho Calvin e Haroldo, por Bill Watterson.

Antes de mais nada, é bom falarmos do “bê-a-bá” da leitura quadrinhesca. É simples e indolor: você lê da esquerda para a direita, de cima para baixo. Exatamente como você faz com qualquer texto, e é por isso que em países onde a escrita segue uma ordem inversa a nossa, os quadrinhos também são lidos de forma inversa. É o caso dos mangás (quadrinho japonês), em que a gente vai lendo de trás para frente, começando por onde seria a última página.

Sabendo disso, o artista tem um problema em mãos para montar a página. O cara tem que equilibrar desenho e texto de forma estética — o balão de fala não pode tampar o rosto do personagem, ao mesmo tempo não pode ficar num canto escondido —, ele tem que respeitar o caminho natural da leitura e, não menos difícil, saber em quantos desenhos vai dividir uma página e como vai posicioná-los de forma clara.

Não é de surpreender que mesmo artistas experientes falhem em criar uma narrativa clara e fluida, sem efeitos colaterais à cabeça de quem está tentando entendê-la. É um problema principalmente na Hollywood dos quadrinhos, os comics, as histórias de super-heróis. Esse gênero lida com muito informação em pouco espaço de páginas, além de ter a obrigação de apresentar cenas de ação em ambientes urbanos realistas. Fora que, os profissionais desse meio têm prazos às vezes apertados e trabalham com vários personagens. É uma mistura perigosa.

Adicione a isso uma tendência de usar página dupla, uma ferramenta problemática na minha opinião, e a revista explode na tua cara e você a joga para longe para nunca mais ver. Para deixar claro, o que chamo de página dupla é quando uma imagem ultrapassa os limites da página, ocupando a vizinha. É uma estratégia usada para causar impacto e criar cenas épicas, podendo utilizar o espaço extra para colocar mais detalhes e mais informações. Informações demais.

Vamos supor que você entre num jornaleiro (aquele lugar em que as pessoas hoje vão para comprar bala, água e cigarro) e pega uma revista qualquer. Você abre ao acaso e vê isso:

Jovens Vingadores, publicado no Brasil na revista Os Vingadores Especial, Panini 2012.
Jovens Vingadores, publicado no Brasil na revista Os Vingadores Especial, Panini 2012.

Exagero é o seu nome. Pra que tanta coisa?

Tem gente que curte. Mas o impacto que deveria causar acaba sendo reduzido porque nosso olho se perde. E só piora quando tentamos acompanhar os balões de fala, que, além de não terem qualquer importância, não estão dispostos de uma maneira clara. Reveja com a presença de setas:

Não me responsabilizo se você ficar vesgo acompanhando as setas. :P

Não há uma hierarquia clara entre os balões. Porque além de não estarem bem posicionados, as diferenças de tamanho dos personagens e das fontes, e também das cores destas, podem alterar a forma natural de ler.

A quantidade excessiva de informações acaba por entrar em choque com o próprio objetivo da imagem. No caso, indicar a presença inesperada de alguém, o tal Nathaniel ou Iron Lad, que está no centro da página, vestindo uma armadura. Mas o impacto se perde porque os personagens ao redor parecem não estar olhando para a figura central, mas sim para fora do quadro. E o próprio Nathaniel nos distrai com um comentário sobre outra personagem: “Stature, seu tamanho faz de você um alvo. Se abaixe…”. Melhor seria ter uma página com as reações dos personagens e outra com a entrada triunfal do elemento surpresa.

Outro problema comum nos quadrinhos é a falsa página dupla. Aqui nós temos a impressão de que a ação de uma página invade a outra e quando percebemos o erro temos que voltar tudo de novo. Isso acontece porque as margens da imagem não são bem definidas, ou porque parece haver uma ligação nas imagens (de cor, ângulo), ou porque uma imagem pode chamar tanta atenção que distrai a gente.

Às vezes qualidades e defeitos andam juntos, e mesmo em ótimas histórias a gente encontra defeitos. Sandman, de Neil Gaiman, é um dos clássicos dos quadrinhos e da ficção fantástica, e foi a obra que lançou seu autor, hoje aclamado e com livros adaptados para o cinema. Se você viu Coraline deve saber do que eu estou falando. Enfim, Sandman é uma dessas histórias que subverte um gênero. Trouxe poesia, terror, sexo, estilo e tramas shakesperianas para um personagem esquecido da indústria.

O personagem principal da história, Morfeu, é o senhor dos Reino dos Sonhos, é quem decide se você vai estar pelado na frente da turma do colégio ou não. Morfeu vive às brigas com os outros reinos e com as suas amantes. E o próximo exemplo é justamente sobre ele avisando os súditos que vai partir pra tentar fazer as pazes com uma ex.

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Sandman, Estação das Brumas, roteiro de Neil Gaiman e desenhos de Malcolm Jones III.

É uma imagem bem interessante. Gosto dos vários closes do rosto, mudando a aproximação e o ângulo, o que torna mais dinâmica a cena. Os estranhos gestos de Morfeu, erguendo os braços, colocando a mão no rosto, segurando os braços do trono dão uma teatralidade exagerada, realçada pela espécie de cortina no topo da página. O personagem Morfeu é um ser fugidio e a arte mostra isso muito bem, pelo exagero de sombras, a forma como o rosto parece mudar de figura: ora patético e jovem, ora mais velho e ameaçador.

É uma arte esquisita, mas que tem tudo a ver com os sonhos. Infelizmente, ela peca no fluxo da leitura. Não sei se você percebeu e teve essa sensação. Sempre que olho essa página, minha vista é guiada pelos quadros em close até a página seguinte, para o caminho errado, em vez de me ater a ler uma página de cada vez.

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A seta vermelha indica a leitura correta. A seta verde, a errada.

Isso acontece porque há quatro quadros que partilham características comum: são closes do mesmo personagem, estão um do lado do outro e se aproximam progressivamente do rosto até ficar bem próximo no terceiro quadro, sendo que o quarto mantém a mesma aproximação, só ampliando a moldura. O leitor tende a pensar que formam um grupo, e os vê juntos.  O próprio texto tem uma continuidade. Não é uma quebra abrupta, dá para extrair um sentido. Mas depois você presta atenção, vê o título, vê que pulou o desenho e tem que voltar para a página anterior.

Também influi na leitura errada o tamanho. No quarto close, há todo o rosto do personagem, que parece estar olhando para nós. Isso chama atenção e distrai nosso olhar.  A gente quer logo saber por que esse cara está nos encarando.

Faltou tanto na página do Sandman quanto no primeiro exemplo utilizar formas de guiar a leitura do leitor. Acredito que muitas pessoas rejeitam quadrinhos porque ficam perdidas no meio de toda a informação. E embora não dê para usar um GPS para dizer quando é para ir para a direita ou esquerda numa historia, existem técnicas que conduzem o leitor nas mais tortuosas estradas dos quadrinhos.

E como o tempo é curto e você deve ter um monte de revistinhas e graphic novels para ler, vou deixar para falar dessas técnicas depois. Por isso não perca a próxima parte do nosso papo, pois vou falar das narrativas eficientes, do bom e do melhor. Então fique com um “Continua no próximo episódio”.

 

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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