Nas últimas semanas só se fala, se escuta e se ouve sobre política. Está se tornando até uma tarefa impossível acompanhar as notícias diante de tanta efervescência na crise política atual que atinge o país.
Perguntei me então que temática de dança abordar no texto desta semana. Veio logo a ideia de relacionar ambas: a dança e a política. Pode não parecer, mas as duas caminham juntas há muitos séculos.

Ao longo da história da humanidade, as manifestações artísticas vêm revelando modos de organização presentes nas sociedades, bem como suas formas de dominação. A maneira como a arte é compreendida por diferentes grupos sociais apontam os preceitos adotados por governantes e artistas e revelam um determinado contexto histórico, social, político e econômico.

A dança no período da Antiguidade era realizada em coro e pode ser considerada uma pacificadora das arestas entre o homem e o mundo, uma espécie de dança harmônica. Aquele ideal grego de beleza e de verdade perpassa os séculos e ganha nova força com o Humanismo, que tinha como lema ser o homem a “medida de todas as coisas”. O balé clássico começa a se desenvolver nesse período, como uma dança adaptada das festas pagãs para os salões da corte.

A dança da corte
A dança da corte

Esta dança representava um ritual de poder, tanto o poder de dominar aqueles códigos de movimento (a nobreza deveria aprendê-los como um sinal de etiqueta para a vida na corte), como o poder daquela nobreza em possuir uma dança que simboliza o seu monarca. Assim, o balé começa a ser apresentado por artistas profissionais, servindo de propaganda institucional para os Estados-nações.

A ideologia do pensador político Karl Marx ajuda a compreender a relação de dominação estabelecida sobre o corpo e sobre estas artes legitimadas socialmente: o pensamento marxista nos alerta para o fato de que o corpo é o próprio homem e como tal não pode ser apenas objeto, mas sim o sujeito, o produtor e o criador da história. Portanto, qualquer técnica corporal que se apresente apenas como modelo a ser copiado e incorporado (como o ballet clássico), tende à alienação, uma vez que deixa de lado a fonte criativa presente no fazer, fator fundamental para uma atitude crítica e necessária para libertar o homem das ideologias dominantes.

Aula de Ballet Clássico na Escola Vaganova- Rússia
Aula de Ballet Clássico na Escola Vaganova- Rússia

Abro parênteses aqui, como bailarina, para defender que não acredito que o fator criatividade esteja abolido da técnica do Ballet Clássico. Acho que qualquer intérprete tem a liberdade e criatividade de poder interpretar e colocar suas expressividades na execução de um Ballet, mas concordo com a limitação em termos de coreografia e de execução técnica do clássico.

Já na segunda metade do século XX, os representantes da dança moderna tinham o interesse em uma dança mais reflexiva, que religasse o homem consigo mesmo, através de um contato com a natureza (como a grande Isadora Duncan, por exemplo). Estes artistas inauguraram um novo percurso estético com espaço para a pluralidade de corpos e ideias, que abordassem questões de seu tempo, o uso do chão e de outros níveis espaciais. Atitudes bem diferenciadas daqueles fundamentos do balé clássico.

Isadora Duncan- precursora da dança moderna
Isadora Duncan- precursora da dança moderna

Sair das engrenagens, encontrar brechas, subverter a ordem e transcender, construir o novo… eram estes os ideais da dança moderna. Clamavam por uma arte
libertadora, emancipadora, que religasse o homem com sua dor, com o caos que lhe habitava, desconsiderado pelas elites.

Pina Bausch- grande nome da Dança Moderna
Pina Bausch- grande nome da Dança Moderna

Entretanto, acredito que independente de ser clássica, moderna ou contemporânea, a dança vai constantemente se remeter ao seu tempo e meio social, podendo portanto se tornar um objeto de cunho político.
A dança como arte construtora de sentidos, tem o papel de questionamento, de libertação e de autonomização do homem em relação à sociedade. Esta é grande função da arte, não apenas de oferecer o prazer de apreciação inofensiva do belo, mas principalmente o de expor as estruturas sociais em questão, abrindo brechas e ideias para a transformação do mundo.

Dança e política, uma relação a ser pensada em tempo real!

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Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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