“Dancemos não para esquecer,

Mas celebrar o risco

“Poeira e Água” Bailarinos: Bruno Cezário e Fabiana Nunes

e lembrar que somos este corpo,

este tempo, este grito sussurrando

entre zilhões de estrelas.

 

Dancemos para  celebrar o pó

e relembrar quão sós estamos

entre zilhões de estrelas.

 

Dancemos para sermos

pois somos enquanto há dança.”

 

Esta é a legenda  do programa do espetáculo “Poeira e água” da Renato Vieira Cia de dança, que eu tive o prazer de assistir no último domingo, 25. A base da montagem coreográfica traduz em movimentos visões do tempo capturadas de reflexões filosóficas seculares: da percepção de Platão, passando pela obra de Santo Agostinho e somando o Hong-Fan, antigo tratado da filosofia chinesa,  investigando também os fatos da vida moderna, a fragmentação e a existência virtual em vitrines eletrônicas sociais.

O espetáculo me levou a uma profunda reflexão. Saí do teatro já com o meu tema desta semana escolhido: dança e filosofia!

Qual seria o possível ponto de união entre as duas? Posso afirmar, por vivência, que a dança é a arte do efêmero, da eterna busca pelo equilíbrio. Mas e a filosofia? A meu ver, esta poderia ser definida como uma dança das palavras, conceitos e reflexões, sempre em movimento, aberta ao porvir. Afinal, um pensamento imóvel não pertence ao campo do pensar, pois o que move a arte e também o próprio pensar é a eterna mobilidade. MuDANÇAS.

Daniel Lins, pós-doutor em filosofia pela Université de Vincennes (Paris VIII), afirma que “Pensar e dançar são produções marcadas pelo risco, pelo perigo, pela audácia cujo traço maior é a força imperceptível do equilibrista, do dançarino, do filósofo, sempre em devir, fluxos inventivos e instabilidade – criança. O devir criança da dança, o devir criança do pensamento, como palcos abertos às invenções, sem as quais não há movimento nem vida pensante, dançante.”

O Pensador, de Auguste Rodin
O Pensador, de Auguste Rodin

A dança de hoje não cumpre apenas um papel de metáfora do pensamento, mas se afirma como um verdadeiro pensar sensorial e intelectual do corpo, um saber a partir do qual é possível entender o ser humano. Ela mostra claramente como o sentido é gerado a partir das sensações (percepções) performáticas. O corpo que dança tem a capacidade de pensar, assim como de criar e representar significados: “Um corpo que pensa e reflete a si mesmo dança permanentemente sua própria transformação”, escreve Jean-Luc Nancy. Um corpo que dança sua eterna mudança.

Rudolf Laban, um dos maiores teóricos da dança do século XX,  foi um dos precursores a ousar considerar a dança como uma forma de pensar e a apresentá-la como um pensamento sobre o corpo. Ele definiu o bailarino como aquele que, com uma razão límpida, uma percepção profunda e forte intenção, consegue tecer conscientemente uma unidade de movimento equilibrado e harmônico, apesar da articulação de suas partes. Com essa proposta, Laban ultrapassa a teoria clássica dualística entre a mente e o corpo de René Descartes e descreve o sujeito dançante como uma unidade dinâmica, um ser que une integralmente corpo e mente, carne e espírito, em seu fazer artístico.

Muitos já foram os coreógrafos que se utilizaram de teorias filosóficas para suas criações e muitos também foram os filósofos que se utilizaram da dança para pensar seus conceitos sobre o corpo e o sujeito. “Apenas na dança eu sei como contar a parábola das coisas mais elevadas”, declarou o grande Nietzsche.

 

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Um dos meus favoritos é o pensador e escritor francês Roger Garaudy, autor do livro “Dançar a vida”, que eu muito recomendo (apesar de ser dificílimo de achar para comprar). Nessa obra, Garaudy aborda a dança como ato de viver, como parte integrante das respostas às questões fundamentais feitas ao homem do nosso século. Vale a pena rodar pelos grandes sebos para achar esse livro!

Recomendo também este vídeo do Café Filosófico “O que pode um corpo”, com a bailarina Dani Lima e a filósofa Viviane Mosé, que contam suas interpretações e reflexões sobre o corpo e a dança. São 46 minutos que irão transformar seu modo de experimentar a vida!

 

 

“O que pode o corpo?” questionou certa vez o grande pensador racionalista Spinoza. Para tentar fechar (por ora, nesse texto) esse assunto infindável entre a arte do movimento e a arte do pensamento, lanço a mim, a vocês e ao universo a seguinte questão:

O que pode a dança e o que se pode com a dança?

 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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