Estamos acostumados com adaptações dos livros para outras mídias. É um fenômeno já bem conhecido, catalogado e estudado do tal transmídia. Clássicos que viram filmes, livros que viram seriados, adaptações para adaptações em quadrinhos, e mesmo adaptações de adaptações não estão completamente fora de cogitação. Ora, é tanto assim que já foi percebido por alguns que a maioria dos lançamentos recentes ou são continuações ou refilmagens, ou, sim, adaptações. Acontece que é um tanto mais fácil confiar no sucesso de um produto que já atingiu público em outra mídia; não é mais tanto uma aposta às cegas quando temos números nos quais nos apoiar.

Mas estou aqui para falar do fenômeno contrário, o que ainda assim não deixa de ser interessante. A despeito de tudo, era um tanto mais difícil encontrar o caminho de quando uma obra audiovisual encontrava sua vertente nas letras, transformando-se de som e imagem, de cores e ruídos, para a tinta e o preto no branco nas estantes de uma livraria.

Não é muito difícil imaginar o porquê de vermos menos desse fenômeno: em primeiro lugar, a obra escrita teve muito mais tempo para se desenvolver como o meio por excelência de contar histórias. Se começamos a contá-las através dos filmes e seriados somente a partir do século XX, antes do nascimento de Cristo, Homero já havia assinado sua Odisseia, e mesmo depois Cervantes já havia pintado seus moinhos nas páginas de um romance fundamental. É lógico, então que, em matéria de adaptações, o audiovisual já nasceu com uma infinidade de material do qual puxar sua inspiração, quando o contrário se dá em escala muito menor.

Outro motivo lógico é que escrever uma história é muito mais barato que produzi-la em um filme, um jogo, um seriado ou desenho animado, ou mesmo que desenhá-la em quadrinhos para imprimi-la mais tarde. Nesse caso, é muito mais fácil produzir obras originais para que seja tão mais rentável o investimento em adaptações. O terceiro motivo, e talvez outro dos essenciais, seja que assistir a um filme exige menos tempo e é uma atividade, digamos, mais “dinâmica” que sentar-se para ler um livro. O cinema permite que se sente com os amigos frente à telona com lanches nas mãos e um senso de humor afiado para aproveitar uma experiência de duas horas, configurando uma experiência distinta da leitura solitária.

Pelo próprio fator do tempo incluído nas duas experiências, é mais fácil imaginar alguém que vá preferir ver o filme de um livro – aí como uma versão “resumida”, mais dinâmica e quiçá mais fácil – do que o inverso. Se eu já assisti ao original de duas horas, por que investir dias em lendo uma obra que, além de me tomar mais tempo, é apenas um trabalho derivado, uma novelização? Não justifica-se.

Não obstante, empreitadas no mercado editorial e literário parecem ter encontrado uma espécie de adaptação para os livros que driblam de maneira eficiência essa questão do tempo e da derivação e que se pode exemplificar principalmente com os exemplos constantes e frequentes de lançamentos de livros de videogames: a expansão.

O Universo Expandido já é um fenômeno que busquei abordar em outro texto, mas é interessante quantos livros podemos ver que expandem o universo criado em franquias como filmes e videogames. É óbvio que o exemplo capital é Star Wars, que desde os anos oitenta nos cativa com inúmeros títulos de mais ou menos canonicidade (agora que teremos uma continuação oficial), e que estão saindo pela editora Aleph (que também lançará livros de Star Trek publicados há muito, por exemplo). Mas qualquer olhada em uma livraria hoje nos mostra como, na vertente oposta à adpatação livro-filme, a mídia escrita é usada para expandir ao desenvolver novas histórias em um universo sem a dependência de grandes orçamentos e produções caras para criar mais conteúdo em um universo previamente explorado.

Veja, por exemplo: temos novelizações, também. Enquanto a Darkside Books lançou a escrita da trilogia de Star Wars em um volume único há tempos, a editora Galera Record anda há anos publicando a versão em livro da série de videogames Assassin’s Creed. Em todas essas obras, o enredo de uma obra não pensada para aquele público e aquele meio ganha nova vida e novas características nas mãos de um autor, geralmente em uma obra encomendada. Mas aí temos todas as nuances e diferenças que devem ser pensadas na contra mão do que é geralmente feito na adaptação: em vez de adaptar uma linguagem escrita para uma visual, temos de pensar em como transformar tudo o que é possível se ver e ouvir, aquele conteúdo imagético tão presente em um filme ou videogame para uma história em palavras.

LivroBiochock_19082013No videogame a questão ainda é mais complicada: uma história mais aberta é transformada em linear, todo um mundo de possibilidade deve ser fechado em uma “linha” de acontecimentos verdadeiros, interações e diálogos devem ser traduzidos para a linguagem literária. Por isso, é um tanto menos comum vermos novelizações e mais as expansões: livros como os dos jogos da Blizzard (Warcraft, Starcraft) ou Mass Effect e Bioshock buscam histórias diferentes em outras partes de um enredo ou de um mundo apresentados no jogo para explorar de maneira distinta.

O livro de Bioshock, Rapture, publicado aqui pela Novo Século, o faz muito bem ao apresentar-nos uma prequel, ou uma história que se passa antes do jogo: narra a história da criação do palco em que o jogo se desenrola, protagonizando personagens que não estavam presentes, mas antes conhecidos apenas por algumas poucas memórias e gravações deixadas para trás.

Um mundo rico como o de Warcraft, por outro lado, permite dezenas de histórias diferentes – dezenas que inclusive já foram escritas – ao fornecer um conteúdo diverso e possível, com personagens recorrentes, lendas e histórias que estão somente incluídas na “backstory”, a história de fundo do mundo do jogo, e que podem ser exploradas quando a um autor é oferecida a chance. Em vez de expandi-la em uma série de filmes, pode-se optar por um meio mais volátil que é a literatura.

Afinal, são todos meios de se contar uma história, de passar um sentimento ou uma mensagem, e todos – apesar de suas diferenças fundamentais – tem seus jeitos de fazê-lo eficientemente para o espectador, para o leitor ou para o jogador. E com suas peculiaridades, vemos que são cada vez mais aproveitados para não apenas contar versões paralelas de uma mesma história, mas complementar-se mutuamente.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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