Sabemos que a captação de recursos na cultura é uma ciência quântica inexata. Quando penso nos captadores me vem a cabeça uma chamada do Globo Repórter na voz do Sergio Chapelin: “Catadores de Recurso, quem são? Onde vivem? O que fazem? Hoje, no Globo Repórter”. Brincadeiras a parte, a questão é como acessar os recursos das empresas? Por isso essa semana queria falar sobre mais uma forma de investimento em projetos culturais, a seleção pública por editais.

 

Abrir essa caixa preta das empresas não é fácil. Nem de fora para dentro da empresa, nem nos próprios desafios internos que cada empresa tem. Mas eu acredito que é possível ter um caminho do meio, que equalize as demandas de patrocínio direto com a democratização do acesso ao recurso. Afinal de contas, querendo ou não, os recursos incentivados são frutos de um benefício fiscal, onde o governo abre mão de receber uma porcentagem do imposto para destinação direta em projetos aprovados.  Dessa forma, as empresas deveriam ter clareza e transparência na destinação destes, mas não vejo isso fazendo parte da regulamentação da lei Rouanet. Poderia, por exemplo, haver um tipo de obrigação que a política cultural privada esteja em compliance com as metas do Plano Nacional de Cultura.

 

Mesmo sem essa obrigação clara, tivemos no Brasil algumas experiências positivas, que contribuíram para o desenvolvimento da cultura. Petrobras, Comgás, Votorantim, Itaú, Caixa, são algumas das empresas que propuseram programas relevantes. Não por a caso, todas elas optaram pela divulgação e prospecção de projetos via edital, pelo menos de parte de seu recurso. São todos cases que vale a pena se aprofundar. O site http://www.guiaempresaspatrocinadoras.com.br/ da para encontrar o perfil de patrocínio de importantes empresas.

 

Desde a criação da Lei Rouanet em 1991, vimos o investimento em cultura crescer no Brasil. Inicialmente, principalmente voltado para uma lógica de marketing cultural, o patrocínio foi muito ligado a estratégia de comunicação das empresas. Felizmente, aos poucos vejo um movimento de migração do centro decisório, se deslocando da questão de imagem simplesmente para a questão social/reputacional. No final das contas melhora sim a imagem da empresa, mas não mais por uma simples associação de marca a projetos de grande porte, com gasto enormes de mídia, mas pela construção e relevância de legado que o projeto deixa para a sociedade e a mídia indireta e espontânea que ele gera.

 

Como disse em um outro post, o core business de nenhuma empresa patrocinadora é cultura ou outra questão social. Dessa forma acredito que possa ser benéfico a criação das Fundações privadas, sendo sua missão, visão e valores, justamente os temas socioculturais. Acho que é um caminho para independência de processos e burocracias da empresa, que foram montados para um negócio comercial e não social. Existem diferenças claras entre esses dois paradigmas e a convivência em uma mesma estrutura corporativa pode ser prejudicial para a questão cultural, uma vez que nas prioridades da empresa o negócio vem sempre em primeiro lugar.

 

Existem críticas a esse modelo, mas posso dizer como uma pessoa que esteve em ambos os lados: o sistema precisa melhorar, mas é mais saudável o patrocínio cultural sair da lógica empresarial/corporativa de marketing para a lógica social. Essa foi a proposta de algumas empresas, que criaram processo de seleção importantes, como a Votorantim. A empresa criou o Instituto Votorantim, que gere o Programa de Democratização Cultural. Eles escolheram um objetivo bem claro, que é apoiar “projetos de todas as áreas culturais, desde que ofereçam à população o contato com a cultura de forma qualificada e gratuita”. O instituto buscou focar na questão do acesso à cultura, sendo que o programa teve seu conceito bem trabalhado, se desdobrando em um blog, já foi muita fonte de pesquisa para muito trabalho de conclusão de curso e foi uma das inspirações para a organização do livro Editais de Patrocínio Empresarial de Larcio Beneditti.

 

Outro programa que queria destacar é o Rumos do Itaú Cultural e em especial a mudança que o edital passou em 2013. O processo básico para inscrição de uma projeto é identificar se você é elegível enquanto proponente e se seu projeto se enquadra dentro de um formato e categorias que a seleção estabelece. No entanto, o que acontece na prática é que a cada edital o produtor altera o seu projeto para se enquadrar em uma categoria específica. O Rumos, que vinha desde 1997 com as clássicas caixinhas de projetos, no ano passado resolveu inverter a lógica e fazer o edital se enquadrar ao projeto, não o contrário. A imagem abaixo ajuda a entender isso melhor:

 

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Foi uma proposta bem inovadora da qual ainda não tive acesso às avaliações e feedbacks, mas imagino que deve ter dado bastante trabalho para a comissão de seleção. O interessante é justamente não limitar o projeto, a uma classificação determinada, por quem não o criou. Quem melhor para dizer o que é o seu projeto do que você mesmo?

 

Para finalizar o que mais sinto falta nessa vastidão de editais de cultura existentes no Brasil é o investimento em processo, não em produtos. Os patrocínios estão mais preocupados que os resultados sejam de curto prazo e definidos previamente do que investir no processo de criação de algo que será inovador, mas que só passando pelo processo que se encontrará qual resultado ele pode chegar.

 

Para exemplificar isso, trago a história do empreendedor que conseguiu investimento em uma não ideia. Ele não tinha um produto, nem se quer uma ideia fechada. A PPT do seu “projeto” tem 5 slides e após a apresentação ele conseguiu um investimento de 2 milhões de dólares. Veja os slides que ele apresentou aqui e a historia completa aqui.

 

“Sem ideia. Sem produto. Sem Conceito. Somente junte as pessoas certas e o resto virá”

 

Inté!

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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