Aqui está uma coisa que qualquer um pode concordar, que todo mundo é contra a escravidão, certo?

“Ah, eu sou contra, mas se a gente endividar a pessoa e dar um salário que ela não consiga pagar a dívida, aí eu não vejo problema”, diz alguém no fundo dessa sala imaginária na internet, fumando charuto e usando suspensórios. Não, você está errado, por favor saia!

Mas assumo que a maioria é contra. Mesmo assim, parece que sabemos muito pouco sobre o que de fato foi a escravidão no Brasil. Ou talvez não queremos saber, é doloroso demais. Na escola aprende-se as várias etapas de leis, Nabuco Araujo, Sexagenários, Ventre Livre, até enfim a Lei Áurea, que libertou os negros definitivamente. É um ensino geralmente burocrático, que parece servir mais o papel de manter em uso a expressão “Lei para inglês ver”.

Passados 127 anos da abolição, carecemos de debates e narrativas sobre o que foi a escravidão e ignoramos sua influência na nossa cultura atual. Por isso um quadrinho como Cumbe, sobre a resistência negra na época colonial, chama tanto a atenção.

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Escrito e desenhado por Marcos D’ Salete, Cumbe na verdade são quatro histórias. Todas envolvendo escravos que ou tentam fugir ou se vingar, ou um pouco dos dois. O objetivo não é tanto fazer uma reconstrução histórica didática, mostrar como funcionava um engenho ou um quilombo. São narrativas mais focadas na fragilidade dos personagens e em seu psicológico. Os elementos históricos estão lá, nas roupas, armas e arquitetura, mas servem mais para realismo aos conflitos pessoais.

O tom me lembra um pouco os contos do Rubem Fonseca, em que os protagonistas vivem uma realidade sufocante, misturando amor e violência, e liberdade e morte. Apesar do ambiente em Cumbe ser de uma natureza quase virginal, longe dos centros urbanos atuais, há uma certa opressão na vegetação que isola os engenhos. Parece que no mundo todo só há o engenho, a floresta e o mar, e que todos os caminhos vão trazer de volta à senzala. Você pode escapar, mas a vida no mato não significa segurança.

Essa opressão é marcada pela arrebatadora arte em preto e branco, criando um mundo de poucas escolhas e grande conflito. O cenário é cheio de ângulos e pontas, não só das construções, mas das próprias plantas, cujas folhas parecem quase afiadas. Isso dá uma sensação de perigo imediato, como se todos os elementos da vida fossem uma ameaça.

Até o mar, que em uma das histórias é uma possível rota de fuga, se torna intimidador. Com pinceladas rápidas e repetitivas, D’Salete criou um mar inerte, desprovido da fluidez da água e de seu caráter receptivo. Um mar belo, com certeza, mas não o tipo que você gostaria de dar um mergulho ou esvaziar a bexiga.

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A presença constante dos castigos corporais é simbolizada pelos enquadramentos fechados dos chicotes. Às vezes antes de vermos o rosto do feitor, nós vemos sua mão empunhando o instrumento de tortura, marcando-o como o opressor. Em um quadro particularmente genial, nós vemos uma mão empunhando o chicote em primeiro plano, com os escravos pequenos no fundo, como que cercados pelo chicote. Símbolo maior da escravidão não há.

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O único incômodo que a arte me causou foram as expressões faciais. Ficaram pouco inventivas, os personagens quase não abrem a boca e, quando abrem, às vezes não dá para saber se estão sorrindo, nervosos ou fazendo esforço (a gente descarta logo o sorriso, por causa da situação). D’Salete é bom para feições suaves, mas para emoções mais fortes faltam mais traços de expressão. Talvez isso se deva à natureza econômica do seu estilo, com traços e manchas rápidos e estilizados.

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Essa careta aí não me convenceu.

É um bom quadrinho, e é do tipo que faz o leitor voltar para mirar novamente a arte das páginas. Certamente é um sinal do quanto de história há para se contar sobre o Brasil colonial e a escravidão. Eu, em particular, gostaria de ver uma narrativa mais longa, em que fosse possível conhecer mais da vida dos personagens, com diferentes pontos de vista. Mas, como um pobre leitor, só me resta esperar. Enquanto a gente vai batendo papo aqui no Tag, pra passar o tempo.

E não posso terminar o texto sem prestar homenagens aos aniversariantes de maio que tanto fizeram para denunciar o racismo nos Estados Unidos e no Brasil: Malcom X e o escritor Lima Barreto. Aliás, Lima Barreto faz aniversário junto com a Lei Áurea, em 13 de maio. Parabéns!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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