Nomear o que é arte e dizer que aquilo é algo estético ou que se compromete com os conceitos artísticos requer tempo. A ideia de nomear algo estético feito pelo homem vem de um tempo mais atual. Tudo o que fazíamos em outros períodos era funcional e tinha representações/imagens para enfeitar ou adornar o objeto. Não que o objeto não fosse arte, mas que tinha uma função atrelada a ele. Esculturas gregas de deuses tinham uma função ritualística, os vasos eram para conter líquidos como azeite e por ai vai.

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Ron English

Nada era somente estético ou pura apreciação nos tempos antigos. Daí chegamos ao tempo moderno e iniciamos o processo de contemplação da imagem. Começamos a perceber que aquilo que o homem produzia tinha algo mais belo e que aguçava o seu processo intelectual. Isso tudo não mudou muito ao nos guiarmos nos dias atuais. Temos a internet como uma matriz de conhecimento, uma enciclopédia que permite unir conhecimentos e auxilia na busca por novas aprendizagens. Claro, falando assim da internet parece que ela é o grande centro de todo conhecimento humano.

A questão é que nosso conhecimento é feito em partes. Temos coisas boas, fúteis e más que nos fazem aprender, e o nosso problema é distinguir o bom e mau disso. Antes da internet tínhamos as enciclopédias que eram o campo de pesquisa de qualquer estudante. Lembro de ter coleções em casa para estudar e fazer trabalhos. Tudo demandava muita leitura e análise do que seria colocado. Não era fácil. Hoje com a internet a preguiça impera no estudante desavisado.

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           Andy Warhol comendo hamburger e Macaulay Culkin comendo pizza

Por ter muita informação, a coleta de dados para um trabalho se torna leviana. É perdida e nada é acrescentado para ele. Surge um ‘copia e cola’ desenfreado no qual nada é feito. Nisso, tanto o processo de pesquisa se perde, que o processo intelectual de aprendizagem fica vazio. Não pensamos devidamente quando estamos na internet. Estamos somente replicando, compartilhando, copiando e colando aquilo que vemos de interessante.

Perdemos a essência de questionar e construir um capital cultural importante para o homem. Não devemos ter uma ideia romântica sobre o passado como melhor que o presente, mas mudar acerca da pesquisa intelectual e artística. Compartilhamos memes, imagens e notícias sem nem ao menos ler ou entender sobre.

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Ron English

Somos jogados num mundo imagético sem perceber o perigo que isso nos causa. Devemos unir a produção com o que temos, já que hoje temos tudo. O conhecimento não se encontra mais em uma estante e grandes enciclopédias, mas em tablets e PCs. O cuidado com o que vemos só pode ser medido com o que apreendemos e damos resultado a isso. Somos máquinas que estão em constante aprendizagem. Se não usamos da maneira correta perdemos nosso capital de vez.

Como citei, na Grécia antiga a produção intelectual era mesclada ao funcional do objeto. Criávamos coisas estéticas sem ao menos nomear ou dar sentido. Se ao compartilharmos algo pudéssemos ler de verdade sobre e questionar, transformaríamos a informação em algo construtivo para nós.

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Ron English

Sim, é bom ficarmos de bobeira na internet sem pensar em nada, mas ter isso como costume diário se torna perigoso. Como estamos no mundo das imagens devemos começar a pensar sobre o que vemos e questionar tudo. Ao perceber que fulano colocou determinado meme e não entendemos o que é, cabe a nós trazer o que falta à tona, procurando e pesquisando sobre. Nosso maior inimigo e amigo é o conhecimento e somente nós podemos fazer bom uso dela.

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Ron English

E sim, devemos entender o computador como um objeto funcional imbuído de imagens, conhecimentos. Nós somos responsáveis por extrair o melhor e o estético (o nosso capital cultural) da máquina.

 

 

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Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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