Felizmente existe dentro do universo artístico espaço para qualquer tipo de evolução pessoal. O teatro introduz no ser humano o valor dele mesmo: o espectador se reconhece quando ele entende a responsabilidade da liberdade na qual está inserido. É isso que Cronópio ensina. Ensina que é entre os labirintos em que a humanidade se encontra exatamente onde devemos estar, em eterno estado de transformação, entre se perder e se encontrar. Esse endereço aparentemente lúdico e inventado reverbera na realidade atual, desajustando nossa concepção do que é realmente verdadeiro: um mundo pragmático e prático que nos enquadra ou um coberto de lirismo coordenado pela liberdade do nosso livre arbítrio? Ou os dois?

Com o fechamento do Teatro do Jockey, o Centro de Referência da Cultura Infância foi transferido para o Teatro Maria Clara Machado onde aconteceu a estreia de “Cronópio: as aventuras de um herói desajustado”. Sua inspiração foi Julio Cortázar (aquele que dissolve a realidade com humor inesperado, lembram?) com a obra “Histórias de Cronópios e de Famas”, de 1962. No livro, os Cronópios são criaturas úmidas, verdes e sensíveis que são confrontados pelos pragmáticos e catalogados Famas. Na história ainda existe as preguiçosas Esperanças, sedentárias e desanimadas. Nenhum deles escapa ao jogo satírico e simbólico de Cortázar.

As reflexões que acessam à imaginação são muitas e reconstituem o olhar do adulto, pai, irmão mais velho, mãe, avô – ou qualquer referência formada que receba essa peça. Se a propagação desfigura o adulto programado, chega a criança como uma força vigorosa e estimulante. Cronópio, criatura verde e úmida, vive nas nuvens, é um libertário, é curioso e imaginativo; poderia ser ator, detetive, investigador, publicitário, político ou líder revolucionário. Mas quem ele quer ser de verdade? Entre todos os caminhos que pode seguir, escolhe as curvas que dão em algum lugar, onde todo dia é dia pra Cronópio criar e desvirtuar os desviadores – Famas.

Cronópio escolhe ser um sonhador, portanto. Um simbolista do futuro que não se enquadra nas normas e acredita que elas não contemplam a natureza e o homem; o inconsciente tem poder e a poesia diária é agregadora e peculiar, varia de cada interior. E o interior cronopiano tem diversificado conteúdo – não necessariamente em palavras, mas em sensações – que invade o público nos trazendo para uma história que desde o início já deixamos de cogitar a impossibilidade da sua realidade: essa não é a hora de enfrentar o inconsciente, e sim de deixar ele fluir. É isso que esse herói de comportamento irregular nos revela: aqui é hora de poder ser o que quiser ser. Místico, subjetivo, onírico, sensorial. Esse universo infantil repleto de possibilidades me deixa deslumbrada e me faz acessar uma criança que eu nunca vou esquecer e que levou parte de mim em 2015.

Intuída (porque foi uma intuição!) por Diogo Villa Maior que dirigiu uma tarde de brincadeira. A adaptação coletiva expande nosso imaginário sugerindo caminhos e entendimentos complexos pela variedade contextual e pelo surrealismo em que se aventura. Todos são Cronópios no corpo cênico dos atores, compartilham signos que designam pactos acertados desde o princípio do espetáculo. Dessa forma o trabalho não se nega, se complementa a cada viagem e conquista a cada empreitada desordenada.

Diogo aborda o espaço cênico em sua totalidade com transições leves e ao mesmo tempo soltas. Leves porque são soltas ou soltas porque são leves? Leves porque nos soltam e soltas porque nos levam. Com atores que seguram nossas mãos e nos abandonam em frente ao Famas – que não aturam nossa risada. Eu coloquei inúmeras vezes o casaco de Cronópio. O grupo de nefelibatas-atores – formado por Camila Costa, Fred Araújo, Judson Feitosa, Juliana Soure e Mariana Rego – é levado pelas nuvens que o qualifica; transita entre os personagens propostos naturalmente como o desenho reconhecido no céu sobre as nuvens. Paralelo a fluência corporal e a dinâmica sensorial (dos corpos, dos elementos cênicos, sonoros e luminosos), ainda é admitido um bom tempo de curva cômica – a piada cronopiana não é uma quebra óbvia, já que no meio dela há obstáculos subjetivos e sonhadores.

As cores do espetáculo são muito significativas. Elas contagiam as ideias e, principalmente, o público infantil. Com um fundo preto e neutro, as passagens e viagens coloridas do personagem vão marcando o contraste da história fazendo seu trajeto num território negro e desconhecido (um dos momentos mais sublimes é quando, num quase breu, luzes coloridas guiam a público e Cronópio por um caminho subjetivo e espiritual). O elemento principal é uma escada que presenteia a cena com sua mobilidade. Isso, essa construção e mudança da cena, nos revela esse mundo de tentativas, de estruturação da própria história e a reestruturação dela. O mundo cronopiano não para de ser possível.

O teatro infantojuvenil foi defendido com muita honra com “Cronópio: as aventuras de um herói desajustado” apresentando no olhar criativo e ansioso de Cortázar uma chance da criança reestruturar sua realidade modificando seus cenários com o poder imaginativo. O espetáculo devolve para a criança o seu poder genuíno de revolucionar a vida.

 

Serviço

Horário: 17h – Sábado e Domingo
Temporada: Até 2 de agosto
Local: Teatro Maria Clara Machado – Planetário da Gávea
Classificação indicativa: 07 anos
Ingressos: R$ 20.00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Duração: 60 minutos

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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