Quando se pensa em Orlando, na Flórida, com certeza as primeiras palavras que podem lhe vir à cabeça são: Disney, Universal Studios, Harry Potter, shopping e compras, se você for fã de esportes talvez lhe surjam: Orlando Magic, Orlando City, Kaká e NBA, mas definitivamente nenhum delas será: ballet. E com razão.

Após assistir a versão de O Quebra-Nozes do Orlando ballet no dia 20 de dezembro, eu sai com a sensação de que algo estava estranho. O preço (93 dólares), o programa e o teatro estavam de acordo com uma companhia de ballet profissional, mas meus olhos testemunharam uma apresentação amadora. Cheguei a acreditar fielmente que a companhia era nova, que só deveria ter uns 2 ou 3 anos de funcionamento, inclusive por só apresentar um artista como “Principal Artist” no programa, mas não, em operação desde 1974 como The Performing Arts Company of Florida e atualmente é a única companhia residente profissional da Central Florida.

O repertório, que se tornou um clássico de natal, foi criado por Tchaikovsky, em 1892, a partir da adaptação feita por Alexandre Dumas do conto O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos, escrito por Ernest Theodor Amadeus Hoffmann. Na história, Clara ganha um quebra nozes de presente de natal do seu padrinho, com inveja, seu irmão Fritz acaba quebrando o boneco. Para consolar Clara, o padrinho conserta-o. Após a festa de Natal, Clara sonha com uma batalha entre seu Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos. Depois de ajudar seu príncipe a ganhar a guerra, ele leva Clara para conhecer dois mundos encantados, criando cenas memoráveis como a valsa dos flocos de neves.

Existem algumas montagens que optam por colocar crianças, normalmente alunos da escola da companhia, para o papel de Clara e O Quebra-Nozes. Eu particularmente não gosto, acho que o primeiro ato fica fraco em termos da técnica, e tedioso, até finalmente chegar ao Reino das Neves. Cara Berl, que interpretou Clara, apesar de demonstrar técnica, pecou no carisma e na alegria. Clara é uma personagem entusiasmada, e tudo que apareceu no palco foi uma interpretação forçada. Similar a isto foi o ocorrido com Sean Manzino Anderson, que fez Fritz, o irmão de Clara. Os personagens devem ser mantidos mesmo quando estão em segundo plano no palco. O Quebra-Nozes (Ethan Kimbrell) passou quase todo o segundo ato ao fundo do palco pensando em tudo o que estava acontecendo, só que fora do Reino dos Doces (Palace of Sweets).

Deborah Bull, que foi primeira bailarina do The Royal Ballet, disse em seu livro “The Everyday Dancer”: “Sem um forte corpo de baile, você, na verdade, não tem uma companhia”. E é exatamente de um corpo de baile mais forte que o Orlando Ballet precisa. Todas as coreografias do primeiro ato pareceram não terem tido muita atenção e cuidado (sloppy). A batalha entre os ratos e os soldadinhos de chumbo nem de longe parecia um confronto, as danças de corte estavam sem muito entrosamento e a valsa dos flocos de neve foi apressada, sem cadência e dessincronizada.

Nesta última parte, talvez as dimensões do palco não tenham ajudado. Apesar das dimensões exorbitantes do Walt Disney Theater, no qual cabem mais de 2.700 espectadores, o palco parecia não acompanhar as proporções do espaço. Com o tamanho máximo de 15m x 38m, a profundidade do mesmo foi opcionalmente reduzida, ao que parecia ser menos de 1/3 do tamanho total. O resultado foram flocos de neve sem os grandes e lindos formatos de grupo no palco.

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Ivan Duarte (Rio de Janeiro)

Se por um lado falta peso ao corpo de baile, não podemos falar o mesmo dos solistas. Um grupo de diferentes nacionalidades e backgrounds, composto por jovens, cuja maioria foi destaque de competições internacionais. Entre eles dois brasileiros: Jéssica Assef e Ivan Duarte, este último arrancou muitos aplausos com seus belíssimos saltos, que demandavam técnica e precisão no papel de Lead Candy Cane. A reação ao assistir Ivan em seu solo era de fixar o olhar e não perceber que sua boca levemente se abriu até acabar a variação. Um deleite para os que gostam de assistir as variações masculinas de salto. Além de Ivan, outros dois bailarinos que se destacaram foram: Andrea Harvey e Sebastian Serra interpretando a dança das arábias. O entrosamento entre o casal fez com que o pas de deux se sobressaísse para além da coreografia.

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Andras Ronai (Budapeste)

Já no papel de Fada Açucarada e do Cavaleiro da Fada Açucarada estavam Chiaki Yasukawa e Andras Ronai. Perfeita técnica de ambos à parte, quem realmente chama a atenção e olhares é o bailarino. Ronai é um daqueles que nasceu para dançar e parece fazer do palco sua zona de conforto. Desde o carisma e o sorriso, até seu posicionamento e a forma como segura a bailarina durante as pirouettes são encantadores para a audiência. Todos os passos parecem ser feitos com naturalidade e sem muita força, como quem repetiu aquele movimento tantas vezes, que tem a confiança de realizá-lo uma vez mais como uma brincadeira, se divertindo.

O diretor artístico Robert Hill têm em mãos o desafio de levar a companhia ao patamar que esta se propõe, porque os atuais US$93,00 não valem a pena o espetáculo. O trabalho mais árduo e louvável de conseguir uma equipe talentosa já foi realizado, e merece muitos aplausos pela diversidade da companhia, principalmente étnica. Porém, é necessário ter atenção aos detalhes não só de sincronia do corpo de baile, mas dos figurinos, cenários e figurantes em cena. E essa lição, a vizinha e patrocinadora Disney já ensinou.

 

 

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Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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