teatro3 (1)Não temos sossego de nós. A maior parte da vida passamos dormindo e, quando estamos despertos, não temos intervalo algum. A única garantia que temos é que conosco passaremos todos os momentos. Como lidar com a ansiedade desse relacionamento vitalício?

Em “O livro dos monstros guardados” temos a expurgação de facetas obscuras, abafadas, colocadas para debaixo da cama, do tapete; quem são esses vermes que nos aprisionam e, que ao mesmo tempo nos põe em ativação, estrutura a crosta das nossas necessidades primárias, caracterizando nosso progresso e discernimento? Rafael Primot, dramaturgo, diretor e autor nesse espetáculo, trata desses temas através de monólogos confessados. Personagens não interagem diretamente, há uma reflexão e uma aspiração de algo maior com a plateia; a famosa quebra da quarta parede torna o público uma divindade que não julga (cof cof) essas figuras em suas mediocridades e excentricidades, pois dentro de cada espectador há um mar putrefato. A narração das ações desperta o distanciamento que nos permite a análise e, através dessa observação sem proximidades, nos tornamos cúmplices desses segredos: somos partícipes e estamos todos contaminados. O texto, que rendeu à Rafael o Prêmio Shell de Melhor Autor em 2010, realmente provoca risos de nervoso e nos acaricia com um entretenimento – oras escrachado, oras brando – entre as extravagâncias disparadas sem pudor.

O texto é um bom material para uma boa produção. Não é uma joia, tendo seu valor que necessita da mãos certas. Das várias mãos. O elenco tem carisma – destaco a astúcia de Carolina Pismel e Jefferson Schoroeder. A direção, dada a estrutura individual e singular de cada personagem, tem uma carga de trivialidade que não nos expande os olhos, não cativa e deixa o espetáculo menos denso. No entanto, João Fonseca e Rafael Primot têm em seus jogadores a consciência dos lugares de atuação dos seus personagens e dos abismos que cada um sustenta. Os sete monólogos alternados têm tímidos encontros entre as histórias e, às vezes, são apenas informações cruzadas que complementam suas individualidades.

No desenrolar da trama, compreendemos brevemente que o formato não terá variações e, por conta disso, o interesse com os universos personalizados vai esfriando; o conteúdo carece de elementos que estimulem os próprios discursos e que deem suporte a padronização que a plateia generosamente acolhe.

Nello Marrese contempla essa obra com um cenário simples e funcional. Ainda assim, se denota um capricho minucioso nos objetos. Com o figurino, os estereótipos defendidos por cada ator em sua máscara são confirmados. A iluminação também tem um charme específico – mais como estrutura do que como efeito – e corresponde ao esperado. A trilha sonora acompanha o caráter sintético e raso da direção.

Pelo não envolvimento, entre as personalidades, característico do esqueleto da obra, a peça se torna mais leve do que as questões argumentadas e refletidas. Despede-se com aplausos pelas risadas de alívio por aqueles personagens, talvez, mas as sombras de todos que assistem – TODOS – continuam ali. Talvez tenha feito cócegas nelas.

E assim segue o relacionamento mais desafiador de nossas vidas: com nós mesmos.

SERVIÇO:
Até 4 de fevereiro no Centro Cultural Justiça Federal
Horário: 19h
Endereço: Av. Rio Branco, 241, Centro
Classificação indicativa: 16 anos
Preço do ingresso: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)
Duração do espetáculo: 85 min
Capacidade: 141 lugares
Temporada: quartas e quintas
Informações: Tel: 3261-2550/ 3261-2565

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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