O anonimato da vida diária nos permite a fuga de lugares onde não queremos estar e das pessoas que não queremos ser ou mesmo daquelas que temos que ser. Ao colocar uma lente de aumento sobre um nicho de pessoas, podemos ver suas sombras, facetas e contornos. Em “Labirinto”, espetáculo em cartaz no Oi Futuro, vemos o anonimato trazido à luz numa releitura do mito grego do labirinto de Creta. O conhecido sobre o mito trata da batalha do Teseu e Minotauro (divindade bestial metade touro e metade humana, fruto de uma maldição de Afrodite e Poseidon) no labirinto. À sombra desse enredo, existe dentro desse labirinto catorze jovens, cidadãos de Atenas, que servirão de alimento para esse monstro. O texto concebido por Alexandre Costa e Patrick Pessoa tem como enfoque essas pessoas e suas aflições em um terreno infértil para suas próprias vidas, no qual a única certeza é a espera da morte.

O cenário de um povo escravizado por suas leis não parece algo distanciado; na configuração do mito, o olhar mira os “selecionados para morrer” com suas inquietações, revoltas, frustrações, questionamentos. Elas são reflexo de uma estrutura extremamente rígida, faltando-lhes ação e atitude em meio as roupas dos mortos pelos caminhos do labirinto. A ansiedade da fala e do pensamento permanece presa no labirinto dos próprios diálogos propostos, não conseguindo se desvencilhar de uma verborragia (quase entalada) que não permite um desenvolvimento, pois não há um percurso evolucionista. Os personagens que não têm para onde ir ficam enjaulados nos discursos que não sugerem uma problematização, estagnando o encadeamento da ação. Anexo, uma sensação de desconforto minha quanto as passagens do texto, a priori gratuitas, as quais não percebi a necessidade do teor preconceituoso, já que não havia uma crítica ao lugar submisso imposto a mulher. Penso que se for para subverter a engrenagem do mito, subverta também a imposição de gêneros – que massacra identidades até os dias de hoje.

Dito isso, a direção – de Daniela Amorim – fica prejudicada quando os transtornos internos oriundos dessas figuras desconhecidas não atingem uma densidade prática; a cena se limita à ativação do campo das ideias. Salvo alguns belíssimos momentos da iluminação de Renato Machado com a personificação do Minotauro ou na cena da copulação de uma mulher com o monstro, por exemplo. É necessário frisar o protagonismo da iluminação: a delicadeza da possibilidade de ver ou não num labirinto, com o passar dos dias, dentro de uma prisão sem saída. É a partir dela que temos o impacto real do espetáculo, climatizando os quadros soltos e desprendidos.

A participação da interpretação nessa peça não me pareceu um dado importante, uma vez que, não havendo protagonismos e objetivando um lugar coletivo das personas em questão, não encontrei uma identificação na execução de alguém específico. A nebulosidade sobre quem são esses indivíduos é conseqüência dessa proposta desprendida de heroísmo, desvirtuando o senso comum desse mito. Ainda assim, os atores conseguem expressar o que é dito, mas o que é dito carrega um valor fixado na oralidade e no intelectual, não havendo envolvimento e empatia nem deles com quem representam e nem o público com o que testemunha. Creio que devido ao foco na palavra, a expressividade corporal deixa a desejar.

A trilha sonora também desempenha, como a iluminação, um trabalho responsável pela cena. São as grandes norteadoras do espetáculo. O tempo, e a consciência dele dentro do labirinto, são norteados por esses dois elementos, estimulando sensorialmente apenas nossa relação com a obra. Como carece de um vínculo, de um elo com a proposta apresentada, a peça se torna mais uma mostra de uma ideia do que um desenvolvimento profundo da mesma.

SERVIÇO:
De 07 a 31 de janeiro no Oi Futuro do Flamengo
Horário: 20h
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo
Classificação indicativa: 16 anos
Preço do ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Duração do espetáculo: 60 min
Capacidade: 63 lugares
Temporada: quinta a domingo
Informações: Tel: 3131-3060

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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