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Conferi nesta quarta, o líder de indicações ao Prêmio Shell, em temporada no recém reaberto Teatro Serrador. Aquela Cia., responsável por dois espetáculos em cartaz, tem em seu elenco Carolina Virguez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Fellipe Marques e Matheus Macena. Cinco indivíduos marginais que juntos representam um só, que separados se desmantelam.

No release principal do espetáculo: “Ele é um homem, ou um caranguejo, ou um soldado, ou um operário. Mergulhado na guerra, sofre um colapso; de volta à cidade onde nasceu, encontra um Rio de Janeiro em convulsões urbanísticas – uma cidade, para ele, irreconhecível e com sabor de exílio. Cosme, ex-combatente da Guerra do Paraguai, dispensado por ter enlouquecido na batalha, volta nos anos 1870 ao Rio. Procura o Mangue – a parte da cidade então chamada Rocio Pequeno, hoje Praça 11 – e se emprega na construção do canal que representou a primeira grande obra de saneamento do Rio. Mais uma vez sofre uma crise – abandona tudo, vaga pela noite, mergulha no delírio. Apanhado por uma dessas tempestades tão conhecidas dos cariocas, torna-se enfim um caranguejo”.

O texto de Pedro Kosovski, no entanto, é mais do que esse trama basal. Bem mais. Considero inclusive que a trajetória de Cosme e seu universo é só uma entrada aperitiva metafórica para o grosso e o recheio do texto que fundamenta num discurso épico, não-linear, pontualmente dialógico, carregadamente impactante. E, me desafio a definir, que o texto com a potência revolucionária – fala-se o que importa, o que por muito é abafado – unido a estrutura musical do espetáculo são os que garantem o seu universo de impacto. Caranguejo overdrive é um espetáculo de impacto.

 

Marco André Nunes nos traz um peso nas interpretações que coincide com o caráter dramatúrgico. Não, não há apenas densidade. O frescor e manutenção do espetáculo permite, através de tempos cômicos excelentes de Carolina Virguez, com um texto excepcionalmente crítico, que ele se mantenha erguido mesmo com a realidade desconexa e hierarquizada a qual nos põe, tendo que sobreviver a qualquer custo, tendo que rir para não chorar. A concepção utiliza no espaço cênico central uma caixa de areia. Pinçada a isso há elementos que reforçam o ambiente, mas que pontuam o direcionamento das cenas. A falta de justificativa denota um teor de experimentação, de vivacidade, de presença. Tal qual se lida com a realidade momentânea na performance, se assume esses elementos como eles próprios. Percebo ademais, que essa assinatura dos objetos, da despretensão em justificativas ou elaborações grandiosas, torna o espetáculo mais em si mesmo, se distanciando de um olhar de direção delimitado. Um rascunho de algo que poderia ser enorme, concentrando uma potência revolucionária de um espetáculo que “ainda está para acontecer”, isto é, um ensaio da vida.

Felizmente, e finalmente, meu ponto preferido do espetáculo e que tenho vontade de retornar especialmente pelas sensações percebidas (se eu pudesse eu pedia uma salva de palmas), a concepção musical. Com influência do manguebeat e do geógrafo do Josué de Castro, a sonoridade que te rouba pra o espetáculo é um protagonista real, sem essa coordenação lúdica certamente não seria nem perto de ser a mesma peça. Direção musical de Felipe Storino é o coração desse mangue.

 

Quanto ao elenco, temos trabalhos notáveis que permeiam o universo desde do corporal expressivo e consciente de Matheus Macena como toques cômicos na medida de Carolina – tanto dentro da história quanto como metalinguisticamente se relacionando com a obra que apresenta. Matheus Macena recebe seu mérito no trabalho por ser vivo e por ter consciência das suas atitudes, até o gratuito é pensado. Tem em sua entrega muita amplitude que, se trabalhada com humildade e generosidade, vibrará somente bons fluidos por quaisquer caminhos que escolher. Alex Nader, com menos atividade expositiva que esses dois, marca sua naturalidade e presença com competência.

Na equipe técnica, especificamente de iluminação, temos em Renato Machado novamente um brilhantismo.

Se somos caranguejos, se somos seres humanos, não importa muito. Ciclicamente acabamos nos tornando alimento do que nos servia como alimento. O que fazemos com a condição que temos é o que diz quem somos. Deixando outros fazerem, ou mesmo tendo nosso direito de decidir tomado da nossa atitude, nos põe a refletir sobre o que estamos de fato fazendo com o que podemos e onde podemos mais – transformar.

SERVIÇO:
Até 28 de janeiro no Teatro Serrador
Horário: 19h30
Endereço: Rua Senador Dantas, 13 – Cinelândia
Classificação indicativa: 16 anos
Preço do ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia)
Duração do espetáculo: 60 min
Temporada: terças, quartas e quintas

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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