A densidade de “Cara de fogo”- em cartaz no CCBB RJ – atrapalhou minha necessidade de escrever. Não é muito simples e agradável repensar em Kurt e sua família.

Marius Von Mayenburg escreveu esse texto em 1998, com apenas 26 anos. Ele aborda, entre recortes de cena bem delimitados, situações envolvendo uma casa cujo seus moradores são desconectados uns dos outros. Exceto os irmãos, Kurt e Olga. De acordo com a sinopse, trata-se de “uma família em sua formação tradicional” – um pai (Isaac Bernat), uma mãe (Soraya Ravenle) e um casal de filhos, Olga (Julia Bernat) e Kurt (Johnny Massaro) – que vive uma violenta falta de comunicação sob o mesmo teto. Uma pequena sala branca e poucos elementos cênicos fazem do cenário uma casa claustrofóbica. Os pais estão acomodados em uma relação patética que só faz aumentar a distância entre eles e a realidade desconhecida da vida de seus filhos. O pai se esconde atrás de seus jornais lendo obsessivamente sobre prostitutas assassinadas. Enquanto que a mãe, anestesiada, tenta encobrir os seus sentimentos e a mulher que ela realmente é.

O filho adolescente, Kurt, é fascinado pelo fogo e gosta de incendiar animais que esconde na garagem. Uma relação incestuosa entre Kurt e a sua irmã mais velha, a jovem Olga, surge como um incêndio que os consome. Quando Olga traz para casa o seu primeiro namorado, Paul (Alexandre Barros), ele rapidamente passa a fazer parte do cotidiano da família, sendo acolhido com entusiasmo pelo pai. Mas a obsessão de Kurt com a irmã e com o fogo se tornam incontroláveis e as consequências são brutais.“

O texto nos traz a violência da distância, da ausência, da ignorância. Essa família de estranhos declara desenvolvimentos e aprimoramentos de egos herméticos, que não lidam com o reconhecimento do outro. A falta de contato e troca provoca um terreno fértil para o crescimento de identidades que não permitem a existência dessa estrutura familiar, pois elas foram fundamentadas sem consideração com o próximo. O peso dramatúrgico ainda apresenta condições perturbadoras do personagem Kurt, o que me trouxe de imediato o incômodo similar que senti com Precisamos falar sobre Kevin.

Geogette Fadel tem uma responsabilidade enorme quando acua a família num recuo branco – um ambiente propício para qualquer incidência cromática – e concentra grande parte da encenação nessa disposição compacta. A princípio, e ideologicamente, parece funcional e com embasamento, mas a concentração nesse espaço (e a identidade textual de cenas entrecortadas) torna a movimentação e a ação fora do contexto cênico excessiva, cansando o espetáculo visualmente. As boas atuações, com um texto consciente por parte dos intérpretes, garantem a não dispersão do espetáculo.

Johnny Massaro é o/um engolidor de fogo, toma para si o desajuste do personagem sem prepotência e de forma honesta. Confia em Kurt sem a necessidade de interpretar alguém “maluco”. Há propriedade na vontade do personagem, se vê alguém de dentro pra fora. A Olga, irmã mais velha, de Julia Ariani, nesta apresentação, transpassou menos assertividade do que o irmão. Atribuo à atriz parcialmente essa reflexão, já que as finalizações das cenas eram abruptas e terminavam mais adiantadas do que a transição para cena a seguinte. Soraya Ravenle assina sua experiência cênica em momentos que passam do hilário ao emocionante. Isaac Bernat é competente sendo aquele pai que não quer enxergar, e que ainda crê em Paul como um rapaz decente para sua filha; entende o mundo de forma objetiva.

A iluminação de Tomás Ribas nos carrega por uma tensão cromática despejada no branco do cenário. Tem passagens sublimes como o uso do abajur na parede, o banho de espuma da mãe, o espelho na altura da pélvis refletindo para a plateia, a narração de Olga com velas. Bem como as informações de cor presentes em picos, marcando o extravasamento dos personagens – como primeiro incêndio, por exemplo. Os parafusos e ferramentas em Olga denotam uma personagem moldada durante a obra, mesmo que represente um elemento articulador da ação.

O pacto feito entre a plateia e os atores é mantido após as palmas finalizadoras. É um espetáculo que carece de um debate para digerir ou de um recolhimento para processar.

SERVIÇO
Espetáculo: Cara de fogo
Temporada: 4 de dezembro de 2015 a 24 de janeiro de 2016
Período de recesso: de 21/12 a 06/01
Dias e horários: Quinta a domingo, às 19h30
Local: CCBB Rio – Teatro 3 (Rua Primeiro de Março 66 – Centro)
Capacidade: 50 lugares
Classificação indicativa: 18 anos
Gênero: Drama
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Duração: 90 minutos

 

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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