Somos compilações de edições de memórias adquiridas. Basicamente tudo o que temos são esses universos guardados dentro de nós e que juntos expandem em uma identidade, em um sujeito individualizado de outros mundos. O entendimento de quem eu sou é uma soma de mundos.

Essa soma de mundos todos temos, inclusive Juliana. Sua identidade aos poucos se esfarelando reafirma uma postura alterada sobre suas memórias. Juliana Smithton, casada e mãe de Laura, vive três tempos em “A Outra Casa”, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal. Ela é uma renomada neurologista dando uma palestra (em telas de projeções), ela vive uma relação perturbada e confusa com seu marido Ian e tem consultas com a Dra. Teller. Ao longo dessa soma, vamos nós, espectadores, adicionando e construindo nossa Juliana, enquanto a personagem vai se desconstruindo diante dos nossos olhos. Em princípio dramatúrgico, temos Juliana nos familiarizando com a sua realidade. Texto de Sharr White e tradução de Diego Teza.

Imersos em suas rasgadas memórias, a direção de Manoel Prazeres flui com facilidade. A dinâmica sugerida de um quadrado delimitado no espaço instaura um jogo honesto e focado dos intérpretes que, antes de se permitirem às linhas no chão, estão preparados para o jogo que virá adiante. Ferramenta básica e nem por isso ordinário. Esse artifício bem executado transparece facilidade pela naturalidade, mas mal executado é um contrato de falecimento.

A interposição dos conjuntos que formam Juliana é ajustada harmoniosamente; a projeção nas telas, que decoram o espaço, se alterna com as consultas que são invadidas por sua vida pessoal agressiva. Ela busca respostas para seu acesso passional na palestra e se examina enquanto revive memórias de uma filha distante, com quem busca contato. Fisicamente, essa busca de si, entretanto, não encontra descanso na estrutura sempre ativa dos atores que, em pé e constante movimento, se aproximam e se repelem perturbando o equilíbrio visual. Outra perturbação é a presença de Richard, cientista estudante e assistente de Juliana: um personagem que simplesmente não acontece por um ator que, quando se posiciona, parece que nos pede para não olhar pra ele, pede para não estar ali – o que se reflete igualmente em sua segunda influência no espetáculo. Exceto pela referência temporal e de transição.

Gabriela Munhoz, em contrapartida, tem nosso apreço e empatia. O trabalho fornecido pela atriz é brilhante em detalhes mínimos, sendo pontual em suas inserções, não dando margem para que construamos outra imagem senão a que ela nos permite visualizar. Como a filha Laura, como a doutora e como a proprietária da outra casa, nos transfere a calmaria da sua versatilidade. Alexandre Dantas também prioriza uma honestidade em seu jogo teatral sustentando a base da dramaturgia.

Juliana de Helena Varvaki é competente, a atriz realmente possui uma sagacidade para comunicar o conteúdo a ser passado. Tem técnica, porém parece que há alguma barreira invisível que não a permite desfrutar plenamente a dimensão da sua personagem. Há envolvimento e o mesmo é convidativo, lidamos com a angústia apresentada. Todavia sua entrega transparece limitações quando temos a sensação de que ela poderia ter nos levado mais além, onde estamos direcionados em uma freqüência crescente emocional e racional e, em seguida, nos deparamos num estado apenas de contemplação.

A luz e a trilha conversam de acordo com a estrutura, estão afinadas e não são excessivos. De modo ameno e com claridade nas intenções, contemplam às necessidades visíveis para o encaixe e desencaixe que a peça busca na nossa mente.

O espetáculo vai prender a atenção, pois detém de uma perspicácia sedutora na engrenagem dos elementos. Em cartaz até o dia 3 de abril, assistam “A Outra Casa”, redefinam Juliana Smithton.

Serviço:
Horário: Sextas, sábados e domingos às 19h
Temporada: de 27 de fevereiro a 3 de abril
Local: Teatro no Centro Cultural Justiça Federal
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
Preço: R$ 40,00 (inteira) / R$20,00 (meia)

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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