Toda vez que vou falar sobre a copa por aqui é a mesma confusão: falo “copa” e os espanhóis falam “mundial”. Copa, em espanhol, significa um drink, um coquetel.  Copas essas que imagino, devem ter tomado muitos os españoles, para afogar as mágoas com a eliminação de sua seleção, a última campeã mundial, “la roja”.

Por aqui o clima do mundial, sente-se de uma maneira diferente que no Brasil. Nada de ruas decoradas, de histeria geral e coletiva pelo time da pátria. As lojas de roupas em grande maioria têm algum item com tema Brasil. Da inglesa Topshop com sua camiseta “Rio de Janeiro” a Primark com imitações de havaianas, camisetas e acessórios com a bandeira canarinha, passando por H&M e cia. Quase todas as lojas têm uma linha comemorativa com produtos que remetem a Espanha e/ou ao Brasil. E, muitas campanhas de marketing, ganharam uma bandeirinha do Brasil.

No dia do jogo da Espanha, no primeiro tempo estava em casa, e ouvia gritos de gol pela rua inteira: tinha certeza que la roja estava levando o jogo. Quando, para minha surpresa, vejo que os gols comemorados por um dos bairros mais tradicionais da capital catalã eram, na verdade, chilenos. Foi e está sendo um tanto especial acompanhar a Copa do Mundo. A comemoração do Chile pode ser explicada de duas maneiras: primeiro, de fato Barcelona e, em especial o centro, é tomada por estrangeiros. E, segundo, os catalães mais radicais não torcem pela Espanha, muito pelo contrário, torcem contra ela. O que implica dizer que estar aqui é como estar em outro país que não a Espanha.

Por ser uma cidade extremamente cosmopolita, os bares viraram guetos de determinadas nacionalidades e são tomados pelas torcidas. Foi assim no dia do jogo do Brasil em que fui assistir em um bar do centro, um amigo chama o outro e a máfia brasileira toma o bar. Vi o mesmo em outros dias de jogo. Um bar na esquina da minha casa estava tão lotado, que os holandeses, devidamente uniformizados, se amontoavam pela calçada cantando seus hinos e torcendo pela sua laranja.  A foto a baixo é da comemoração holandesa em Barcelona.

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Definitivamente, ver um jogo do mundial em Barcelona não é como assistir fora do seu país. Na torre de babel, qualquer um pode encontrar seu país, montar acampamento e junto com sua tribo torcer pelo seu timão.

Preciso confessar, que não sou uma aficcionada por futebol. Mas, daqui de fora é uma emoção ver Neymar e cia. entrar em campo. Cada vez que ouço o hino, morro de saudades e orgulho da pátria amada e tenho certeza que o ópio do povo gera e provoca emoções indizíveis.

Ainda que os europeus sejam mais contidos e menos escandalosos, eles também se deixam contaminar e torcem, se embebedam de copas e Copa. Na televisão, não faltam programas e documentários sobre o Brasil em um, falavam que comíamos farofa até no café da manhã.

Exageros e estereótipos a parte, ser brasileira nunca esteve tão em alta. Sou interrogada sempre sobre como foi a preparação para o mundial, sobre os protestos, corrupção e sobre as praias.

O mundo está apaixonado pelo Brasil e, pelo menos as pessoas com quem falei, muito conscientes do que está acontecendo politicamente por aí. Acho que a Copa mais coberta pelas mídias, está deixando marcas e impressões menos superficiais mundo a fora. Claro que os estereótipos se vendem muy bien, mas a imagem do Brasil desde aqui está bastante positiva.  E, lo siento por los españoles, mas que tá muito bom implicar com a derrota deles… Isso tá! Afinal, a Copa do Mundo é nossa, né?

 

 

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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