A ansiedade que tomou conta de mim era dupla: ser minha primeira coluna escrita e ainda sobre uma peça de teatro que não sabia se eu ia aplaudir de pé, aplaudir por obrigação, aplaudir pouco e logo sair. O fato é que meu pé e minha coluna doíam muito, mas eu aplaudi, obrigada por mim mesma, de pé e lá permaneci.

“Consertam-se imóveis” traz um frescor e uma dinamicidade para o paladar teatral. A originalidade percorre amplamente o espetáculo sendo decodificada em cenários flexíveis, figurinos e composição estética sensíveis e evolutiva, iluminação precisa e criativa; a perturbação cênica em querer não alarmar a mãe idosa poderia contribuir para uma desorganização, mas a direção de Cynthia Reis é embasada no texto sedutor de Keli Freitas direcionando o trabalho a um lugar mágico, onírico e, ainda assim, sóbrio e vivo.

De acordo com a definição da sinopse “a história de uma família cuja trama é firmemente entrelaçada, figurando no centro um nó fundamental: a mãe, idosa e enferma. Ao se verem diante de situações inesperadas e de um iminente colapso, todos os seus membros se articulam em desdobrados esforços para poupar a matriarca de sobressaltos que podem ser fatais.Com relativo êxito, este controle dura até que alguns acontecimentos escapam novamente do roteiro inicial, obrigando-os a investir toda a energia em empreender novas mudanças justamente para que nada mais mude.”. O texto é um dos maiores trunfos dessa obra. Keli Freitas leva seus personagens por caminhos estreitos e quando se sentem sufocados e prensados surge elementos de quebra cômica tão solares que, naquela composição de cores claras, parece ser único alívio dos personagens (ou seria de nós, espectadores?). Acontece que essa inquietação dada pelos personagens reverbera na sala de multiuso do Espaço Sesc pairando sobre todos um estranhamento e, também, uma identificação. As curvas de cada cena são marcadamente fluidas, ao passo que os filhos e irmãos vivem cotidianamente na mesma frequência ficcional que criaram para subverter a realidade para a mãe: revertem suas próprias realidades e definham dentro da própria fantasia.

A perspectiva da estrutura da cena, o que nos marca a mente, é preenchida por elementos simples, mas bem definidos. Temos um panorama de elementos como mesa, cadeiras, fitas adesivas, figurino em tons pastéis, o próprio sotaque. Os olhares que procuram nesses artifícios qualquer justificativa se detêm com o impacto da encenação vitoriosa de Cynthia Reis; a perspicácia de cada costura da cena também fortalece a independência de cada uma, cada passagem é esperada e a sensação é a de que se for comer o amendoim vai perder o fortuito contato entre a música/o músico e os personagens.

Em muitos momentos desejei registrar esse espetáculo com fotos e vídeos. O desencadeamento me maravilhou de tal forma que não queria perder essa sensação, queria um retrato. Constatei que o espetáculo é, por si só, um retrato, um recorte de uma circunstância, de um contexto. Nessa conjuntura há uma aguda compreensão nas ações dos personagens e na movimentação cênica que não admite a fuga; o que instiga no encaminhamento é que esse recorte é um corte incisivo e profundo não permitindo que não penetremos na magia. Esse teor fantástico se evidencia, portanto, com a inspiração no autêntico Júlio Cortazar (1914-1984), escritor argentino perito em investigar a dissolução da realidade revelando mistérios sombrios com um pontuado humor inesperado.

Raquel Alvarenga carrega uma propriedade da tia surda de sotaque mineiro que se não fosse tão hilária, seria aquela sua tia que te incomodaria e que você imitaria com os irmãos. O notável desempenho da atriz, que garante em si só o fato de ter ido ao teatro, é extremamente compatível com o da Suzana Nascimento, que com a qualidade física e a sutil sensibilidade, realiza um trabalho que permeia os extremos da personagem. Os personagens de Jarbas Albuquerque e Alonso Zerbinato representam um solo fértil para o espetáculo; são realizados com competência e discernimento. O quinto elemento (personagem?) é responsável pela atmosfera do espetáculo, por vezes cores, temperaturas, cheiros – bem como pela direção musical. Federico Puppi conectado ao violoncelo atribui sonoramente ao ambiente o ritmo, o fruir e o caminho da cena; se articula com os personagens fisicamente e se associa a eles visualmente o que só corrobora para o êxito desse grupo.

Num trabalho coeso e contundente, tudo dialoga de forma aprazível. Os figurinos, os cenários, a iluminação são méritos dos Bruno Perlatto, Lorena Lima e Paulo Cesar Medeiros, respectivamente. A convidativa fotografia de Guga Millet e produção gráfica de Raquel Alvarenga são comprovadas pelo valor do espetáculo.

“Consertam-se Imóveis” é essencial para reconhecer um exemplo digno de quando teatro acontece.

 

SERVIÇO
Consertam-se Imóveis
Estreia: 3 de abril de 2015 – Sala Multiuso
Horário: 19h sextas e sábados – 18h aos domingos
Temporada: Até 26 de abril
Local: Espaço Sesc
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Telefone:(21) 2547-0156
Valor: R$ 20,00 (Inteira) R$ 10,00 (Meia) – R$ 5,00 (Associados do SESC)
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama
Duração: 90 min
Capacidade: 80 lugares

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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