O formato de média-metragem pode causar uma grande confusão na cabeça das pessoas. Primeiro, por sua duração. Dependendo do país, a duração muda drasticamente. Enquanto no Brasil é entre 15 e 70 minutos, há países que consideram à partir de 30, outros até 40 minutos. Além disso, não é um dos formatos mais consumidos. É o tipo de formato que oscila num limbo e quase ninguém fala sobre. Quando pensamos em festivais, nos vêm nomes como Curta Cinema, Festival do Rio e Mostra de São Paulo. O primeiro, de curtas. Os demais, de curtas e longas. E onde ficam os médias nessa história?

Valência é a terceira maior cidade espanhola e de importância, abriga uma das principais referências internacionais no assunto: o festival La Cabina. É verdade que curtas servem para novos diretores ganharem reconhecimento e é uma forma de entrarem no circuito cinematográfico. Jorge Furtado é um dos grandes nomes do cinema e da TV brasileira, porém nos anos 80 e 90 era um grande agitador da cena de curtas metragens no Sul.

La Cabina visa justamente abrir espaço para difusão de novas linguagens em um formato que permite ao cineasta mais liberdade que um curta (em relação ao desenvolvimento da narrativa) e menos frustração que um longa (afinal, ficar 2h assistindo um filme e ter um fechamento tedioso, ninguém gosta). Se você for ao Google, uma simples pesquisa sobre festivais de médias, vai te mostrar centenas de festivais de curtas. E no meio deles, o La Cabina.

Tive o prazer de prestigiar esse festival que acontece até domingo. E pude conferir distintas produções de todos os países possíveis. Entre eles, o francês Superman isn’t Jewish (but I am…a bit), um média de aproximadamente 38 minutos. A história inicia quando um menino descobre que é judeu, sem saber o que é. O filme discute o impacto que uma religião pode ter no desenvolvimento de uma criança. O diretor leva a narrativa de uma forma leve, cômica, tragicômica, fantasiosa e que por horas nos lembra O Fabuloso Destino de Amelie Poulain.

Já o norueguês I am The One That You Want, se apoia na atuação e no roteiro. Durante 38 minutos uma professora narra como se apaixonou por seu aluno de 15 anos. Até onde vai a imprudência e onde começa o amor? Podemos julgá-la por seus atos? O mais interessante do média é ter apenas uma personagem narrando para a câmera e a contação da sua história deixará os espectadores com os olhos fixados na tela.

Em A Serious Comedy, uma produção iraquiana, é discutido os percalços do consumo e distribuição da cultura em locais de grande conflito como Iraque. Uma equipe de produção de um importante festival de cinema internacional do Iraque enfrenta a cada ano a falta de diversidade nas produções inscritas. Entre os filmes, apenas dramas. O cinema iraquiano simplesmente não produz nem inscreve filmes de comédia. Nem produções internacionais se inscrevem com comédias. Até onde questões políticas podem influenciar no consumo de cultura e comercialização de filmes num país? Um produtor deve se sentir culpado por realizar um filme de comédia?

Essas foram algumas produções nas quais eu pude conferir. Festivais de cinema são ótimas vitrines para novos cineastas e uma boa chance de conferir o que está sendo realizado em diversas partes do mundo em questões de formatos e linguagens. Agora se vocês me dão licença, eu tenho uma sessão do média-metragem dirigido por James Franco.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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