Em tempos de ferramentas de comunicação tão eficazes, a transmissão da mensagem do emissor para o receptor é uma questão resolvida. E-mail pra quem é de escrever, Whatsapp pra quem é de áudio, Skype pra quem é de audiovisual ou o bom e velho telefone para marcar um olho no olho. No entanto, se por um lado a tecnologia de comunicação evoluiu, nosso habilidade de comunicação não seguiu o mesmo processo (Ou será que involuiu?). Sabemos bem como fazer as palavras saírem de nós e chegarem ao outro (ou outros), mas que mensagem será essa? Como vamos organizar as palavras para transmitir um sentido? E mais, como vamos escutar e compreender o sentido que o outro quer passar com a sua mensagem.

 

Esse post vai para a Comunicação Não-Violenta (CNV), algo que tive o prazer de ter contato recentemente e que ainda estou mergulhando e me envolvendo mais. Queria aqui compartilhar o pouco que absorvi do que ouvi, conversei e li sobre. O que posso dizer de início é que não é uma filosofia, nem religião. É uma pesquisa em psicologia social de uma cara chamado Marshall Rosenberg, na qual ele reuniu diversos conceitos afins já amplamente estudados e deu um nome para isso. Vamos olhar para isso, partindo do significado de cada palavra:

 

Comunicação
Ao invés do setor de comunicação de uma empresa ou o processo profissional da comunicação, fala-se aqui do ato de comunicar em si. Este é entendido como uma co-criação de sentido, ou seja, uma criação conjunta entre você e o outro, ou a sociedade, do sentido que a mensagem quer passar ao ser transmitida.

 

Não-Violência
Violência é o ato de violar algo vivo, seja física ou verbalmente e vamos combinar que ninguém gosta de ser violado. Poderíamos chamar não-violência de compaixão, palavra derivada do latim compassio, que significa “capacidade de sentir o que outro sente”.

 

Algo que para mim foi uma virada de chave é que na CNV o conflito é motivo de celebração, pois ele proporciona uma oportunidade de crescimento conjunto, de alinhamento de expectativas e melhoria da convivência. É comum sermos ensinados a evitar o conflito, a apaziguar, colocar panos quentes, só que o conflito é um indicativo de desalinhamento que não pode ser ignorado.

 

A CNV busca exatamente o alinhamento entre eu e meus valores, entre eu e o outro e entre eu e a sociedade. Essa integridade entre ação e valor que vemos hoje desconectada de nosso processo de comunicação. Quando criança é muito natural expressarmos o que estamos sentindo e qual das nossas necessidades não está sendo atendida. Aos poucos aprendemos a não nos expor e desconectamos o que falamos para os outros do real sentido daquela mensagem.

Quatro componentes são destacados no processo da CNV:

  1. Art_BurningManObservação – estado de observador, sem julgamento moralizador de certo, errado, bom ou ruim. Algo que ajuda é simplesmente descrever a situação.
  2. Sentimento – buscar como a situação lhe faz sentir ou checar com o outro qual sentimento ele teve a partir de seu comportamento.
  3. Necessidade – investigar qual necessidade sua não está sendo atendida.
  4. Pedido – acordo para que a necessidade de ambos seja atendida, por meio de uma linguagem clara e positiva, evitando o lugar comum da exigência. O objetivo da CNV não é mudar as pessoas, mas o modo como veem as coisas.

 

“As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelo modo que as veem”  (Epicteto)

 

O processo da CNV fala bastante numa mudança de comportamento pessoal, entre o falar e o ouvir. Todos nós temos necessidades de amor, segurança, atenção, sucesso dentre outros. E o não atendimento a essa necessidade gera sentimento de frustração, abandono, solidão etc. Clarificar esse processo, o entendimento entre necessidade e sentimento, ajuda a conectarmos nossa humanidade, nosso fator humano, com a humanidade do outro.

 

A CNV é muito maior que isso, mas quis trazer aqui esse conteúdo, pois seja numa relação pessoa ou profissional, estamos lidado com gente que sente e quer coisas assim como nós sentimos e queremos também. Nos processos de gestão, o relacionamento interpessoal, a capacidade de lidar e crescer enquanto time a partir dos conflitos é essencial para que o trabalho seja gratificante para os envolvidos.

 

Fecho com uma fala do Dominic Barter, que conviveu mais de 15 anos com o Marshall e hoje faz um trabalho de CNV com policiais, presidiários, alunos, professores… Afinal algumas referências. Recomendo ir vê-lo falar também, que rola toda 2ª quarta-feira do mês, basta acompanhar o grupo no Facebook. Também tem o livro do Marshall, uma leitura que vale muito a pena!

 

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Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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