Quando falamos de arte, nem sempre o mais interessante é ela em si, mas sim o efeito que causa no indivíduo. Já tentou olhar uma pessoa ouvindo uma música? Se ela estiver chorando sem parar, nós logo imaginamos uma música melancólica, com algum piano talvez. E se ela cortar os pulsos na sua frente, é quase certo que seja Radiohead. Ou quando você chama um amigo para assistir aquele seu filme de comédia favorito? Aposto que não resiste a dar uma espiada e ver se ele está rindo das mesmas piadas que você.

Agora vou passar o filme de novo e você vai rir das piadas. Entendido?
Agora vou passar o filme de novo e você vai rir das piadas. Entendido?

E o mais interessante dessa coisa de efeito, no caso das artes narrativas, é que elas funcionam como um exemplo, um modelo a ser seguido. A pessoa sai do cinema dizendo frases do filme, copiando gestos e alguns dias depois aparece junto com outros imitando a roupa, o cabelo e até o modo de vida de um personagem. Isso gera até uma angústia, com a pessoa se martirizando para ter aquela vida cinematográfica que só existe na tela. É toda aquela história do padrão de beleza impossível buscado por quase todo mundo alguma vez na vida. Quem nunca tentou ser mais como aquela diva ou aquele astro do momento?

Mas se você acha que sofreu tentando se parecer com o Tom Cruise ou Julia Roberts, imagina eu que tinha como padrão de beleza personagens dos quadrinhos.

Poderia furar alguém com esse cabelo.
Poderia furar alguém com esses penteados.

Sim, a minha busca pela aparência perfeita não só era impossível como desafiava as leis da física. Na minha juventude, na outrora década de 90, minha obsessão era ter cabelo espetado que nem as pessoas em Dragon Ball e outros animes e mangá. Eu achava simplesmente incrível todas aquelas mechas indo para todos os pontos cardeais conhecidos e desconhecidos. E as várias cores de cabelo: azul, verde-piscina, amarelo-pintinho, fluorescente. Claro, mudar a cor do cabelo era um pouco demais na minha condição, não vale a pena ser ridicularizado pela sociedade inteira. Mas com certeza ter cabelos espetados estava na minha lista de objetivos, antes de passar no vestibular e arranjar namorada (isso seria fácil depois, com meu cabelo devidamente afiado).

Foi então o meu primeiro contato com uma coisinha demoníaca chamada gel.

Talvez tenha exagerado no gel. Só talvez.
Talvez tenha exagerado no gel. Só talvez.

A minha teoria sobre gel de cabelo e outros fixadores é que eles são uma raça alienígena cujo objetivo é dominar nossa cabeça através dos vasos capilares. Não é à toa que o mundo está como está, todos os políticos usam muito gel e laquê, ou seja estão todos dominados. Mas teorias conspiratórias à parte, eu logo descobri que para conseguir o nível de espetamento de um personagem de histórias japonesas, eu precisaria de muito, mas muito gel. Mesmo assim, depois de horas na frente do espelho transformando o cabelo numa estátua, puxando cada fio individualmente, não demorava nem 15 minutos para o bicho desabar. Aqueles fios plastificados e sem ânimo pareciam um monte de gravetos caído no chão. Era como ter um chiclete grudado na cabeça durante um dia de aula.

Eu desisti do gel a tempo. Muitos conhecidos meus perderam a vida nesse caminho. A vida social pelo menos. Mas a minha busca não terminou por aí. Porque, se tem algo mais incrível do que os cabelos dos personagens de quadrinhos, estamos falado das roupas. Como roupas funcionam bem quando você foi desenhado para usá-las.

Estilo pra tudo quanto é gosto.
Estilo pra tudo quanto é gosto.

Na vida real nada se encaixa. A jaqueta de couro parece tornar o seu tronco três vezes maior do que o resto do corpo, além de fazer um barulho estranho com qualquer movimento. Chapéus ou são pequenos demais ou grandes demais. Luvas esquentam e ficam suadas. E roupas minúsculas, geralmente usadas pelas super-heroínas, deixam bem mais partes à mostra fora das páginas, sem o traço do desenhista para criar sombras nos lugares certos. E raramente são práticas para andar por aí, muito menos para combater o crime. Mas tudo isso não impede ninguém de tentar, e eu tentei. Tive uma obsessão particular por um casaco sem manga e com capuz que um personagem das revistas do Homem-Aranha usava — o Aranha-Escarlate.

Esvoaçante! Arte de Fooray.
Esvoaçante! Arte de Fooray.

Não me condenem.

Eu devia ter 11 anos. (Acho… Não vou confirmar isso. Vamos todos concordar com essa informação e seguir adiante.) Rodei muitas lojas e enchi muito o saco dos meus pais para conseguir um casaco parecido. Eu arranjei um listrado, preto e branco, que não era azul e não tinha uma aranha, mas rolava o capuz. Me achei muito foda durante algumas semanas. O casaco tinha dificuldade de se manter no ombro e toda hora eu era obrigado a recolocá-lo. Depois, num ato de rebeldia, passei a andar com o casaco torto mesmo, chocando a sociedade com meu ombro descoberto (a não ser pela camisa por baixo). Foram bons dias. Até o espelho, sempre ele, acabar com a curtição e jogar a verdade na minha cara.

Maldito seja, espelho!
Maldito seja, espelho!

Mas a mentira dos quadrinhos é tão mais legal; é irresistível não estendê-la para o nosso mundinho. É uma maneira de experimentar novos hábitos e de perceber o que funciona ou não para você. Algo como uma busca de autoconhecimento — a tentativa de encontrar características do seu personagem favorito em você. Nesse contexto, é muito válido passar um pouco de vergonha. E quem sabe um dia, depois de muitos esforços, alguém consiga fazer cabelos espetados e capa funcionarem.

Se tudo der errado, sempre haverá lugar para você nas convenções de quadrinhos e anime.

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Fato interessante: Era muito comum, nos quadrinhos americanos da década de 50 ou 60, anúncios vendendo formas de ficar musculoso rápido. Na imagem de título para esse texto foi usado um anúncio desses. Você pode vê-lo todo clicando aqui.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

1 COMENTÁRIO

  1. Rapaz, você podia só cortar as mangas do casaco fora, que nem o Ben Reilly! Ainda tá em tempo hein!
    Aliás, eu usava a gola da camisa pólo pra cima tentando imitar os uniformes colegiais japoneses. Como eles podiam ser tão maneiros?

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