Uma das coisas que mais gosto de fazer é viajar, não à toa, antes de escrever sobre identidades culturais, o tema da minha coluna no TagCultural era “Cultura no Exterior”. Uma das coisas que mais me fascina sobre as viagens é como cada cidade tem sua “energia”, traços marcantes que a tornam única e inconfundível, sua identidade. É ver que muito mais que pontes, viadutos e avenidas, as cidades são também feitas de ideias e impressões, de signos e relações interpessoais que constroem o espaço urbano.

Meu embate eterno como pesquisadora é identificar o que é forjado e o que poderia ser entendido como “genuíno”, como uma manifestação identitária “espontânea”. O quanto a história local pode influenciar no processo é algo que sempre me desperta curiosidade. O espaço urbano vai sendo moldado e apropriado ao longo do tempo, e vai determinar a vida na cidade e as suas identidades. As práticas culturais permeiam esses processos, retroalimentando-o.

Há uns meses tive a oportunidade de conhecer o trabalho do professor Luiz Augusto Rodrigues (UFF), sobre a relação das obras de Oscar Niemeyer com a valorização dos imóveis nos bairros de Niterói onde as mesmas foram construídas. Neste mesmo trabalho, o professor discorre sobre o projeto de promoção de Niterói como uma cidade que remetesse ao contemporâneo e como o nome de Niemeyer poderia e, de fato o fez, agregar valores e potências à cidade. Niterói, antes desse projeto, não tinha essa vocação e hoje é mais que a vista bonita do Rio, virou um ponto turístico e de referência para os interessados em arquitetura.

Em contra ponto, penso em Barcelona que conjugou elementos provenientes da sua história de formação para formar um projeto de cidade turística, de festa, multiculturalidades e artes. Não bastasse símbolos identitários fortes, como as obras e a arquitetura de Gaudí, na história da Barcelona medieval, chamada Barcino, têm a peculiaridade de haver sido uma cidade onde os servos eram livres e qualquer cidadão que passasse um ano em Barcelona, mesmo que antes fosse escravo, quando completasse os 365 dias, era um cidadão livre.

No meio das ruínas que resistem ao tempo na superfície e mesmo a cidade que ainda existe no subterrâneo de Barcelona, é impossível não imaginar como deveria ser para essas pessoas cruzarem os portões da cidade e da sua consequente liberdade. É muito distante associar isso a imagem que Barcelona vende, até os dias de hoje, de liberdade, férias, barcinofestas?

Um dos dados que mais me impressionou durante a minha pesquisa de mestrado, sobre a representação do estudante intercambista e suas relações identitárias com a juventude, o lazer, a liberdade sexual, as festas, etc. Foi descobrir que 90% das obras literárias (consideramos aqui filmes, livros etc.) encontradas sobre o tema “estudante de intercâmbio na graduação na Europa”, eram retratadas em Barcelona, no entanto, a cidade está longe de ser o principal destino dos intercambistas na Europa e, mesmo na Espanha.

Isso diz muito sobre como os projetos de imagem das cidades agregam valores e dão retorno não só no turismo – como é o caso de Barcelona -, mas na valorização dos imóveis no entorno dos lugares que adquirem signos relacionados à valores e vocações determinadas, como aponta a pesquisa do professor Luiz Augusto sobre Niterói.

Para quem ficou curioso sobre a história da Barcelona medieval, recomendo o romance ” Catedral do Mar”, tem disponível em português e é uma novela muito interessante sobre hábitos e práticas culturais e a história da capital catalã.

 

 

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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

1 COMENTÁRIO

  1. O início de seu texto me fez lembrar AS CIDADES INVISÍVEIS, de Italo Calvino. Obra magnífica. Uma poesia sobre o urbano.
    Fiquei satisfeito, também, por ter sido referência para suas reflexões. Fico agradecido, e sempre feliz por travarmosmais este diálogo.

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