Bowie é colorido, pop, melancólico, esquivo, espacial, exótico, fantástico, gótico.

Bowie é tudo a ver com quadrinhos.

Por isso aqui vai uma mixtape de títulos à imagem e semelhança do senhor dos olhos de duas cores.

SANDMAN, de Neil Gaiman

Morpheus é capturado no primeiro capítulo de Sandman.
Morpheus é capturado por um grupo de ocultistas. O início de tudo.

David Bowie deve ter sido um convidado de honra dos salões de Morpheus, o senhor dos sonhos. Suas criações surreais têm muito a ver com esse quadrinho de fantasia. Os últimos clipes flertam com o gótico, a religião e o pesadelo, elementos constantes na série de Neil Gaiman. E há muito da melancolia de músicas como “Lazarus” na trajetória de Sandman, uma entidade repensando suas escolhas, responsabilidades e futuro.

Mas quem Bowie realmente influenciou na época foi o visual do personagem Lúcifer, o manipulador rei do inferno. Primeiro com o cabelinho cacheado, depois com um curtinho e jogado para trás; sempre com um ar de quem domina o palco. Lúcifer começa a se perguntar se sua rebeldia não faz parte dos planos de Deus e decide se rebelar contra sua rebelião. Haja rebeldia.

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E essa não foi a última vez que Bowie inspirou o anjo caído na arte sequencial…

 

THE WICKED + THE DIVINE, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie

O ressurgimento de Lúcifer.
O ressurgimento de Lúcifer.

Todo fã trata seu cantor favorito como um deus. Colocam um pôster na parede e o adoram. Cantam suas músicas como um hino religioso. E se sacrificam pela possibilidade de tocá-lo. Mas e se todos nossos ídolos fossem declaradamente deuses, com poderes e tudo?

Esse é o mote da série The Wicked + The Divine. A cada 90 anos, 12 deuses e deusas retornam à Terra como jovens mortais. E eles só possuem dois anos de vida para inspirar os homens, e para serem amados e odiados.

A série tem muito em comum com Sandman, inclusive um Lúcifer inspirado em David Bowie. Só que a Luci, como é conhecida, é muito mais “vivendo a vida a louca” do que o Lúcifer de Sandman. Tudo o que ela quer é praticar e despertar pecados.

O primeiro encontro de Laura e Luci.
Aliás, Luci dá shows em Brixton, onde nasceu Bowie.

O mais interessante é como a série explora o universo dos fãs e o imediatismo do pop. A narradora e heroína da história, Laura, é justamente uma fã disposta a fazer de tudo para se tornar uma deusa, sem se importar com a validade de dois anos. Sua voz carismática é também uma análise sincera e bem-humorada do que nos torna tão atraídos por celebridades.

É dela frases como “My body is made of approximately 95% crush right now” , “My future is no future” e “She sounds like the worst thing in the world. She sounds perfect.” (Numa tradução livre: “Meu corpo é aproximadamente 95% de paixonite agora”, “Meu futuro é nenhum futuro”, “Ela parece a pior coisa do mundo. Ela parece perfeita.”)

 

MADMAN, de Mike e Laura Allred

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Eu acredito que todos esses robôs são homenagens. O Batman tá bem na cara.

Madman é o mais moderno dos quadrinhos antiquados. Ou seria o contrário? Difícil dizer. Ele mistura vários elementos: super-heróis clássicos, filmes B, ficção científica, existencialismo e psicodelismo. Nele a ciência é mágica e não há nada de anormal a pessoa cortar a cabeça e colocá-la no corpo de um clone para se livrar de uma doença, se ela usar jaleco e tiver uma fórmula.

O protagonista da série é Frank Einstein, um homem que foi trazido de volta à vida e que não consegue se lembrar de quem era. Ele é bastante tímido, odeia dizer palavrões e só se sente confiante em seu uniforme de super-herói. Apesar de possuir uma inocência quase infantil, em situações de perigo Frank pode muito bem agir de forma psicótica. Ele já arrancou o olho de uma pessoa e o comeu na frente dela. Sempre se sente muito mal quando algo assim acontece e questiona o quanto quem ele foi influencia quem ele é.

Uma boa pedida para quem curte Ziggy Stardust.

 

BLACK HOLE, de Charles Burns

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Anuário escolar.

Uma espécie de doença venérea causa mutações em adolescentes. Às vezes algo leve, como uma brotoeja ou proeminência, às vezes uma deformação monstruosa. Ninguém sabe como surgiu ou se tem tratamento. É década de 70, o que todo mundo prefere é jogar as coisas para debaixo do tapete. Se você tiver a praga e puder esconder, esconda e finja que é normal. Se você não puder esconder, é melhor fugir e desaparecer.

Black Hole é uma parábola sobre se sentir isolado e deslocado, sobre metamorfoses, a busca de um sentido e a descoberta do amor. O bizarro e o sujo são abraçados pelo estilo poético, sombrio e onírico do quadrinhista Charles Burns. Isso tem tudo a ver com David Bowie que nunca hesitou em ser estranho e sempre defendeu o diferente. Quantos adolescentes na década de 70, e de tantas outras décadas, não descobriram refúgio em suas canções e em sua performance?

Como um bom quadrinho, Bowie é refúgio para o que há de mais maravilhoso e esquisito no mundo.

E assim chegamos ao fim dessa Comixtape. Você pode rebobinar a fita em seu cassete agora e escutá-la de novo, se gostou. Mas veja: há um Lado B nela. Está em branco. Você pode gravar a homenagem que quiser.

Diga aí, que quadrinho você dedicaria ao homem das estrelas?

 

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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