Salvar a mocinha que caiu do penhasco ou resgatar um gato de uma árvore são algumas das façanhas que sonhava em fazer quando criança. Pode parecer inusitado mas cresci no mundo dos heróis. Essa figuras que não temem o pior e o encaram o medo de frente. Pessoas fortes, bonitas e que acreditam na mudança da humanidade através da ação. Colocam a sua vida em risco para transformar tudo o que está de errado no mundo, sem se importar com nada.

BLOWING IN THE WIND (mixed media on canvas - 185cm x 185cm - 2010)

Anthony Lister – Blowing in the wind (mixed media on canvas – 185cm x 185cm – 2010)

Não importam os problemas que passaram, pais mortos, se não são desse planeta ou se sua tia não tem dinheiro para pagar o aluguel, eles sempre colocam o bem da humanidade em primeiro lugar.

Nessa configuração, estava a minha infância em analisar a vida desses personagens de perto e aprender que a ideia de alteridade mediava a ação como mudança. Claro que a mídia que usava na época se resumia a somente três: os videogames, a televisão e as histórias em quadrinhos. Todas vinculavam o mesmo enredo que citei acima.

Meus favoritos estavam interlaçados com as minhas questões pessoais. Se tivessem problemas que fugissem disso, não era interessante para mim. Nunca li nada que envolvesse lutas espaciais ou intergalácticas, tudo era regido no dia-a-dia escolar e na vivência sobre esse cotidiano.

O engraçado é que imagem desses heróis voltaram depois de anos quando me deparei com esta imagem.

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Hércules

A relação veio à tona, era nítida a ideia que o herói era um modelo para sua época. Providenciava princípios adversos à política da época e como mudar seu mundo fazendo grandes ações. Superar dentro de seus traumas e perdas a descoberta de uma força maior que o colocaria em um propósito muito importante. Mesmo usando uma capa ou não mostrando o próprio rosto.

A história que permeia a vida desses herói traz muito do que a humanidade questiona. Capitão américa enfrentou Hitler de frente, Hércules quis provar para seu pai que era além de um homem normal e que podia ser um Deus como ele, Batman com seu trauma familiar e a possibilidade de loucura, Homem-Aranha por não ter ajudado quem realmente precisava (sendo isso um ciclo de violência onde pode retornar para um ente querido) e por aí vai. Todos exemplos que batem com as questões de uma era.

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Jesus curando uma mulher cega, Catacumba Romana, 300–350. Paleocristão.

Se pegarmos os heróis representados nas mídias e na arte veremos que o medo de uma época reflete a sua luta. Tudo deve ser enfrentado por ele da melhor maneira possível. Como uma proposta de trazer ao espectador a esperança de transformar o que está acontecendo. Isso pode ser tanto internamente (a mente e seus medos) quanto externamente (meio social e político).

Um exemplo disso é a figura do Capitão América e o Neo de Matrix. Capitão América nasce para trazer esperanças na luta contra o nazismo e Neo te questiona sobre as decisões da sua vida. Qual caminho/ pílula você escolheria: Viver na alienação ou entender a verdade?

Ambos heróis problematizam as dificuldades de sua época.

A história do herói é afetada ao que acontece hoje. Enfrentar doze trabalhos e impor sua posição como Deus não nos atinge mas, destruir um império do mau que criou uma arma nuclear chamada estrela da morte nos afeta diretamente. Isso é o pensamento contemporâneo que contagia a arte e sua criação imagética. Conceitos atuais ao homem de hoje.

Se vemos de perto a história de Cristo e como ele foi representado na arte, a sua mudança estética reflete as questões de seu tempo. No início tínhamos um Cristo apolínio para atrair mais fiéis para a religião católica. Hoje temos um Cristo europeizado que se identifica com uma “beleza” impositiva e preconceituosa, a do branco-caucasiano (detalhe: Cristo tinha feições árabes, nada parecido com o que encontramos nas pinturas).

Isso traz também a forma de representação da arte e sua influência direta no pensamento do homem moderno. O espectador questiona, e essa dificuldade em entender personifica no herói, através da arte, o que devemos fazer. Tanto a sua ação quanto sua aparência física. Nosso exemplo estético do bom moço bate de encontro com o visual do Super-Homem, forte e com super poderes.

Atualmente, nossos heróis são tantos que a diferença entre eles permeia a diversidade que encontramos em nós mesmos. Somos diferentes na arte e nos conceitos, mas as nossas ações não podem ser individualistas e sim sociais, comunitárias. Feitas para a arte do bem comum.

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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