As principais cidades do mundo têm seu festival de cinema. Aquela mostra que vai levar filmes que você provavelmente não veria no circuito comercial. Essa semana estou tendo o prazer de conhecer o CinemaJove um festival de cinema internacional. Ao contrário de Cannes e do próprio Festival do Rio, CinemaJove não traz o último filme do Woody Allen, nem o longa premiado em Berlin de Kiarostami. O festival valenciano é puramente direcionado aos novos cineastas e às novas linguagens (ainda que tenha uma mostra com clássicos).

Iniciou há 30 anos, como uma forma de abrir espaço para os jovens cineastas espanhóis e como momento para discutir e fomentar o cinema. Sempre foi voltado em mostrar o que há de novo na cena indie. O festival é dividido em duas premiações principais: de longa e de curta metragens. E em diversos panoramas, entre eles: cinema valenciano, cinema cult americano e clássicos. Está sendo interessante acompanhar esse festival (começou 19 de junho e vai até o próximo 26).

A seleção possui filmes de toda Europa, de todas as durações e gêneros. Vou listar 3 filmes que me chamaram atenção: 1 positivamente, 1 negativamente e 1 neutro. Para terem uma ideia do que é composta a seleção:

Filme: Radiator

Saldo: Positivo

Diretor: Tom Browne

Não é a toa que foi o filme que abriu o festival. Em tom seco, ele conta a história de Daniel, que retorna à casa dos pais, para ajudar a mãe a cuidar do pai que não levanta mais do sofá. Uma produção simples, com um cenário agoniante e personagens que se completam. O filho é um tipo distante, mas que tenta ajudar os pais no que for preciso, por apenas sentir que é seu dever. A mãe é a personagem que une pai e filho e de caráter mais inocente. Ainda que o pai seja uma pessoa difícil, ela também aguenta por ser seu dever. O pai é o grande trunfo do filme. Um personagem rabugento, mentiroso, orgulhoso e muito irônico. Em seus diálogos, com pitadas de humor seco, lembramos que é uma produção britânica. Basicamente 90% da narrativa é dentro da casa, cheia de tralhas e ratos (que são também personagens) o que agonia ainda mais o personagem principal. Acredito que a criação dos personagens facilitou o roteirista na elaboração da narrativa. Se vê rachaduras nessa família, mas não se fala porquê. Mas sabemos que há. Essas pistas prendem ainda mais a atenção dos espectadores e fazem com que queiramos ver mais e saber mais deles.

Filme: Line Of Credit

Saldo: Negativo

Diretor: Salomé Aleksi

Já ouviu falar num país chamado Geórgia? Se não o conhece, não sabe que ele viveu tempos de guerra contra a Rússia que tomou parte de seu território. Confesso que tomei noção do país por conta de meu namorado, que é daí. E por sorte, no festival tinha filmes georgianos. “Por que não ver?” Pensei. Afinal, Felini era um grande fã do cinema georgiano e alguns dos melhores cinematógrafos são daí. Line of Credit retrata a realidade de algumas pessoas que continuam a viver atualmente em Geórgia. A crise econômica afetou os georgianos, que já estavam destruídos depois da guerra contra Rússia (que ocupa parte do país). A realidade dos georgianos não é muito positiva, muitos migram para outros países europeus, outros continuam aí; entretanto, em más condições. Nino é uma mulher de 40 anos que tem que manter a família. Se vê obrigada a penhorar os pertences de valor da família (como jóias, quadros, prataria…) para mantê-la. Ao mesmo tempo em que não perde um cabeleireiro e uma ida ao shopping. Ela entra em um labirinto de dívidas e a cada momento em que se livra de uma, ganha outra, como um ciclo. Isso seria um filme interessante, se não fosse pelo roteiro. O grande vilão da história é o dinheiro, que ela não tem. Não há um conflito que mude a trajetória da personagem. A cada cena os espectadores verão Nino contrair mais uma dívida ou penhorando/vendendo mais um ítem da família. Fica difícil acreditar que os grandes cinematógrafos sejam georgianos, uma vez que os enquadramentos, planos e movimentos são totalmente desleixados. O longa inicia com um travelling que parece ser o único plano que foi estudado e pensado. Há cortes bruscos na montagem e a mise-en-scene parece de filmes amadores. Há um mau planejamento do posicionamento dos atores assim como má compaginação do cenário. Apesar de ser uma ótima oportunidade para entender melhor a crise pós-guerra de um país em pleno século 21, a narrativa é bem superficial.

cortometraje

Filme: El último Abrazo

Saldo: Neutro

Diretor: Sergi Pitarch

Esse é um dos poucos curtas metragens que vi e um dos que me chamaram a atenção. Trata-se de um documentario valenciano. O diretor há alguns anos recebeu em um sarau, uma pasta de couro. Nela, continha duas cartas endereçadas e não enviadas e alguns documentos referentes a pessoas que estiveram em campos de concentração. Esses documentos chamaram a atenção do diretor, que resolveu desvendar a história e encontrar os destinatários das cartas. Uma das cartas era uma nota de suicídio. Nesse momento, só se sabe que o nome do autor, que é Mariano. O documentarista sai em busca de saber quem foi e porquê suicidou-se. Para os que desejam ver o filme, não revelarei mais nada. O curta, que poderia ser média, deixa a sensação de que tem pressa em revelar tudo aos espectadores. Mesmo sendo um documentário explorar as imagens faria a diferença. O que só acontece – e pouco – na segunda parte, quando a identidade é desvendada. O diretor utiliza um pouco da narrativa de Jean Pierre Jeunet, em Le Faboulex Destin d’Amelie Poulain. Um estilo que se não é bem utilizado fica pobre. Talvez se tivesse explorado mais o videografismo desde o início da narrativa, o curta se enriqueceria de imagens. Além disso, os diálogos com os especialistas que o ajudam a desvendar o enigma são muito rápidos e entregam facilmente os dados. Ainda assim, é um filme interessante pelo seu conteúdo que é de utilidade pública.

Esses foram alguns dos filmes apresentados. O festival mostra uma variedade de produções e de gêneros. Acredito que apostar em cineastas estreantes e em produções independentes seja muito importante para fomentar o audiovisual nesse momento de crise em alguns países europeus. Cinemajove acontece até 26 de junho, com encontros com diretores, workshops, mostras e cinema ao ar livre.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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