Essa semana tivemos alguns acontecimentos importantes sendo compartilhados infinitamente pela internet, assim como toda semana, certo? Certo, mas nenhum deles foi tão importante pra humanidade quanto uma certa pá roqueira que ficou mundialmente famosa ao cair no chão e tocar uma parte do riff mais conhecido do Nirvana! Vídeo do Google Deep Dream com pizza? Grandes bosta. Crucifixo comunista? Quero nem saber. A grande diversidade das candidatas a dançarina do Faustão? Não e não. Tudo isso é coisa comum perto do extraordinário evento da pá grunge! Que foi atirada pro alto pelo tiozinho perdendo o equilíbrio e quando finalmente bateu no chão revelou todo o seu espírito de rebeldia adolescente fazendo não só a melodia do riff inicial de Smells Like Teen Spirit, como também o ritmo! É quase sobrenatural! Estaria Kurt tentando se comunicar conosco? Vamos investigar o incidente a fundo pra ver se conseguimos descobrir alguma coisa interessante sobre música com essa bobeira né, quem sabe?

 

 

Veja aí 10 horas seguidas da ação da gravidade sobre uma ferramenta inanimada gerando um resultado bastante singular. Não, não precisa agradecer!

 

Mas diga lá, você acha que foi a força da gravidade sozinha que fez a pá finalmente soltar a voz? Ou existiram ali outras forças contribuindo pro resultado? Fácil, né?

É claro que há várias outras forças regendo o comportamento da pá desde que ela deixa a mão do tiozinho até o momento em que bate no chão. Quer dizer que o destino dela já estava selado a partir do momento em que perdeu o contato com a mão do senhor cadente. Mas esse é um assunto muito louco pra outro dia! Vamos discutir coisas mais palpáveis, concretas, reais. Tipo como é possível que essa pá faça justamente o riff do nirvana?

Então, não sei se você sabe exatamente como funciona isso, qualquer som que a gente escuta nada mais é do que um tipo específico de vibração e todo e qualquer objeto que emite som estará vibrando quando fizer isso. Quer dizer que se você bater na sua mesa com os nós dos dedos agora, vai estar causando uma vibração tanto na mesa quanto nos nós dos seus dedos. Essa vibração é tão rápida que você não consegue enxergá-la a olho nu e se propaga pelo ar através de sucessivas variações de pressão. Complicado? É mesmo um pouquinho sim, mas eu só disse isso pra você se ligar o quanto antes que som nada mais é do que a vibração de um corpo que viaja pelo ar até seus tímpanos. Melhorou? Ótimo! Aplicando esse nosso novo conhecimento à situação em questão, teremos que a pá vibra quando atinge chão e por isso emite um som. E qual é a melhor coisa que se pode fazer com som?

 

 

Música, é claro! Você já deve tá se ligando onde eu quero chegar com esse papo filosófico de doidão né? Que tudo é música e tal? Que qualquer som pode ser usado pra fazer música? Até o de ferramentas? Sim, sim! Parabéns pela sagacidade, eu sempre vou dizer isso! Inclusive acho que disse no meu primeiro texto aqui no Tag! Mas hoje o foco não é exatamente esse, até porque você também já sabe que qualquer som pode constituir música. A discussão hoje é um pouco mais específica, porque é claro que a pá faria um barulho ao cair no chão, como qualquer outro corpo no planeta mas porque o som que se ouve tem nota e ritmo tão bem definidos? Bom isso é por causa do material, do formato, da velocidade e do ângulo em que a pá atingiu o chão. Ao fazer isso, a dita cuja vibra uma determinada quantidade de vezes por segundo – aproximadamente 349 nesse caso – gerando a nota Fá. A isso damos o nome de pitch ou altura, em português. Quanto mais vezes um corpo vibra em um segundo, mais agudo é o som que ele emite; e ao contrário, quanto menos vezes, mais grave. Vamos dar uma olhada num vídeo maneiro onde um cara controla as vibrações dos leitores de drives de disquete antigos pra produzir diferentes pitches ou alturas:

 

 

Ponto pra quem souber a letra inteira dessa!

A música de floppy disk, além de ser uma coisa maravilhosa, serve à nossa discussão perfeitamente porque os sons são tão rudimentares que você entende na hora todo esse papo de “vibração” que a gente tem falado tanto. Quando você ouve aqueles “bzzzzzzz  brrrrrrr  brrr  bzzzzz” fica tudo mais claro, né? Pra cada nota diferente tocada o leitor do drive vai e volta com uma determinada velocidade e nas notas mais graves é possível escutar um batimento bem mais espaçado do que nas mais agudas. Então já descobrimos que a forma como a tal pá atingiu o chão, fez com que ela vibrasse a uma frequência de aproximadamente 349 vezes por segundo, produzindo a nota Fá. Ok. Mas só isso é suficiente pra associar o som dela ao de Smells Like? Ou falta alguma coisa?

Falta, falta sim! E é justamente outra parte super importante da música: o ritmo! Lembra dele? Quer dizer, além dessa bendita pá dar a mesma nota do riff do Nirvana, ela também cai no ritmo exato! Quais as chances de algo assim acontecer? Se um desses elementos acontecesse sozinho, não seria nada de mais, mas de alguma forma o tiozinho da pá conseguiu se desequilibrar e jogar a pá pra cima de um jeito que quando ela caísse produzisse uma nota específica num ritmo específico que é muito reconhecível na nossa sociedade. É praticamente um alinhamento interplanetário!

Agora, a gente pode ficar muito perplexo com esse acontecimento ou pode ficar muito perplexo e tentar usar isso como um exercício de abertura de cabeça pra conceitos musicais mais amplos. Por exemplo, se uma pá qualquer é capaz de, completamente ao acaso, “tocar” um pedaço de uma música composta por um ser humano que tomou decisões racionais, pessoais e subjetivas pra criá-la; porque essa mesma pá não pode ser usada pra produzir uma música sua ou minha ou de quem for? Teoricamente seria muito mais fácil de acontecer do que o que de fato aconteceu, certo? E de fato já tá acontecendo por aí! Porque precisamos nos restringir à maneira “correta” de se tocar um instrumento? Ou ainda, porque precisamos nos restringir a sequer tocar “instrumentos”, quando qualquer coisa pode ser um instrumento em potencial? Se liga:

 

 

E quando eu digo qualquer coisa, pode ter certeza que tô falando de qualquer coisa mesmo:

 

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

1 COMENTÁRIO

  1. Isso me lembrou tb o lance do Jesus formado por uma mancha na janela. Depois que alguém diz para vc que viu Jesus na mancha, vc não consegue “não ver” Jesus.

    Se eu ouvisse a pá caindo na hora que o fato aconteceu, eu não ligaria o som a Smell Like Teen Spirit. Mas, depois que fazem essa associação, é difícil não reconhecer a música, pq o cérebro foca em padrões. Vc tem que bater na cabeça algumas vezes para voltar a ouvir ou ver aquilo como algo sem sentido.

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