Se você nasceu na década de 80 ou até os primeiros anos da década de 90 e cresceu no Brasil, sabe que o Mickey não é o único camundongo famoso por aqui nessa época e que um ratinho roxo tomando banho conquistou muitas crianças que precisavam lavar “Uma orelha uma orelha; Outra orelha outra orelha” ou o “Meu pé, meu querido pé, que me aguenta o dia inteiro”.

Porém, se você tem menos que 20 anos estamos falando do programa educativo de televisão Castelo Rá-Tim-Bum. Exibido na TV Cultura de 1994 a 1997, fez um enorme sucesso, tanto que quando acabou crianças mandaram cartas para a TV Cultura com dinheiro dentro do envelope para que o programa continuasse no ar. Lenda urbana ou não, Castelo Rá-Tim-Bum – A Exposição está aí para provar que mesmo 20 anos depois da estreia, o programa ainda é um estouro.

“A exposição, que ocupa o primeiro e o segundo andares do Museu, é dividida em duas partes. Em uma delas, os visitantes podem conferir peças do acervo, muitas delas recuperadas e restauradas pelo MIS, como objetos de cena, fotografias, figurinos dos personagens e trechos do programa que até hoje são hit, como Lavar as mãos, música de Arnaldo Antunes. Depoimentos gravados pelos atores do elenco original especialmente para a exposição complementam esta parte. Em outra, uma experiência lúdica espera os visitantes, que podem literalmente entrar no Castelo. Para tanto, mais de dez ambientes, como o saguão e a biblioteca, estão recriados. O público também pode ver de perto bonecos originais, como o Gato Pintado, o monstro Mau, a cobra Celeste e as botas Tap e Flap.” (Fonte: MIS)

Ficou com água na boca? Infelizmente preciso contar que os ingressos do MIS (Museu da Imagem e do Som) em SP, que abriga a exposição em homenagem ao programa desde julho deste ano e com previsão para encerramento em 25 de janeiro de 2015 (se o término não for adiado pela terceira vez), estão esgotadíssimos. Cerca de 180 mil pessoas já passaram pelo local e um ingresso está mais disputado que a final da Copa.

Para aliviar um pouco a vontade, confira o vídeo!

Porém, não estamos aqui apenas para passar a informação que a exposição existe e está esgotada, não é nosso objetivo. Quero mesmo comentar a sua repercussão entre os moradores do bairro onde está o MIS; entre quem mora em SP e frequenta o MIS; e o brilhantismo que é a ideia desta exposição.

O primeiro MIS em SP foi criado em 1970 e, após algumas peregrinações de espaços, foi inaugurado no seu atual endereço na Avenida Europa em 1975. Após uma reforma para se reinventar e possibilitar receber as novas tecnologias do século XXI, o MIS reabriu em 2008 do jeitinho que está até hoje em 2014. Ou seja, temos 39 anos de MIS no Jardim Europa e 6 anos recebendo exposições e formatos voltados para as novas tecnologias.

Entrada do MIS / SP

Será que em 39 anos a população daquele bairro não se acostumou com a presença e benefícios do Museu no bairro? Aparentemente não, porque depois do sucesso causado pela exposição Rá-Tim-Bum, para minha surpresa, os moradores resolveram protestar contra o museu! Se foram 10 ou 150 moradores que assinaram o abaixo-assinado, não há como precisar, mas bastou um comunicado na mídia e o rebuliço tomou forma. Os protestos foram contra “o barulho, as filas na calçada e o trânsito”, porque normalmente São Paulo é uma cidade silenciosa, sem trânsito e com poucas pessoas!

O MIS resolveu as questões pontuais ligadas as reclamações dos moradores, porém um protesto contra o Museu não passaria sem resposta e o “churrasco da gente diferenciada parte 2” foi organizado (o termo gente diferenciada, veio de um episódio anterior no bairro nobre de Higienópolis, quando uma moradora disse ser contra a construção do metrô no bairro porque atrairia muita “gente diferenciada”) com objetivo de protestar contra o protesto dos moradores. Em torno de 200 pessoas compareceram ao churrasco sem churrasqueira e nenhum tumulto foi gerado.

No exercício de tentar me colocar no lugar do outro, imaginei se minha rua de repente ganhasse 3 vezes mais carros e pessoas que o normal. Qual seria minha reação? Chateada com o trânsito? Sim, bem provável. Chateada com a movimentação de pessoas? Não, claro que não. Chateada com o barulho? Se fosse depois de meia noite numa quarta-feira, sim (que não é o caso do MIS). Se eu faria um protesto contra a quantidade de carros e pediria para acabar com uma exposição tão boa? Jamais. No máximo, eu me reportaria até a Direção do Museu pedindo para que eles garantissem a organização do trânsito ou o apoio dos órgãos competentes.

Esta exposição do MIS é, sem dúvidas, um dos maiores sucessos da história do museu, mas o que leva esta ser tão diferente das outras? Em minha opinião, além do tema ser popular, é a ligação emocional, o acerto em cheio no público-alvo e, fundamentalmente, a produção da exposição reconstruindo os cenários. Ninguém da época queria que o programa tivesse acabado, mas acabou e no auge de seu sucesso. Poderia ter durado mais 3 anos facilmente, afinal tinham mais de 12 pontos no Ibope só em SP. Em um Brasil tão cheio de influências estrangeiras e tão tecnológico, reviver a experiência de um programa de televisão brasileiro é uma experiência única e traz um tipo de conforto para a alma, um saudosismo gostoso, daqueles que você quer levar seu filho para conhecer o que encantou sua infância. Sem contar a qualidade do programa, educativo e inocente, mas sem ser bobalhão. A história sobre um menino bruxo, que precisava de amigos, e faz um feitiço para que 3 crianças fossem até o castelo onde ele morava.

As pessoas que tinham 6 anos em 1994 ou 1997, hoje têm entre 27 e 23 ano, na média. Quem são os jovens entre 23 e 27 anos hoje em dia? Pessoas que cresceram na transformação tecnológica do Séc. XXI e que vivenciaram o programa na época. Há o contraste entre como era a infância deles e como é a infância de seus filhos ou sobrinhos, mais uma vez o emocional entra em ação. Além disso, são os jovens ativos no mercado de trabalho, já são independentes e muitos já constituem novas famílias. São os que, de fato, vão à exposição. A questão financeira nesse caso não importa tanto: primeiro porque o programa era exibido na TV aberta e segundo porque a exposição possui preço popular e é gratuita às terças-feiras.

Por fim, a exposição é completamente sensorial e te convida a interagir com o ambiente. O castelo foi praticamente reconstruído e você pode tocar, mexer e tirar foto em diversos lugares do cenário. Essa quebra de paradigmas do que seria um museu – um lugar onde você não deve tocar em nada, apenas observar, com obras as vezes incompreensíveis – talvez leve o seu subconsciente a enxergar o local como “de diversão” ao invés do conceito clássico e enraizado socialmente de “museu”.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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