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Você chega em casa do trabalho e quer relaxar. Liga a TV, mas seu programa preferido acabou faz 5 minutos. Há um filme interessante, mas já passa da metade de sua exibição. Zapeia a TV e nada encontra. No guia, vê que à meia noite vai reprisar um programa que tentou ver no dia da exibição, mas o trânsito te prendeu na rua. O que fazer? Aos domingos é ainda pior. “Não há nada para ver”, você reclama, “Mas tenho 300 canais da minha TV por assinatura”, você constata. Como não há nada para ver na TV se você tem 300 canais com programação contínua? Esta foi uma de nossas realidades. Utilizo o verbo no passado, pois quem ainda depende deste formato de TV não está por dentro do mundo On Demand.

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Entretanto, o problema não era apenas encontrar um programa que lhe sirva para determinado momento. Às vezes, o final de um episódio de série lhe deixa com um sabor de quero mais, tornando sua semana interminável até o próximo capítulo. Porém, o sistema On Demand (sob demanda) mudou um pouco essa configuração. Netflix tem sido apontada como responsável por criar um novo estilo de consumo de TV: o binge-watching. Para quem ainda não está familiarizado com a Netflix, é uma TV on demand, porém na internet. Um site com um enorme catálogo de filmes e shows, com aplicativos disponíveis em tablets, smartphones e computadores. Inúmeras séries, shows de TV variados e muitos, muitos filmes. Você assiste o que quiser e quando quiser. Sendo a nova fonte de produtos audiovisuais. Entre suas produções originais: House Of Cards, Orange is The New Black, Hemlock Grove e Um Drink No Inferno.

Binge é uma palavra relacionada a excessos, inclusive há um distúrbio alimentar chamado binge-eating. Não preciso traduzir watching. Logo, essa expressão se relaciona com o consumo não moderado de TV. Vocês devem estar se perguntando: Se nunca há programas na TV que eu queira ver, como vou assistir exageradamente? O universo On demand possibilita isso. A exemplo,  Netflix. Essa realidade também tem invadido as próprias TVs por assinaturas com canais On Demand, um acervo com parte de sua programação para os assinantes assistirem como quiserem. O que vem acontecendo é que muitas pessoas (como eu), abusam deste consumo. Uma vez que temporadas de séries de TV são liberadas completas e não semanalmente, e com uma facilidade no aplicativo (Netflix) de streaming automático, que lhe dá 15 segundos entre um episódio e outro; as pessoas (como eu) têm investido muita parte de seu tempo neste tipo de consumo. É um ciclo vicioso, você não consegue apenas assistir um episódio. Por mais que você tenha 15 segundos entre um e outro, nesses 15 segundos você só encontra razões positivas para continuar assistindo.9cc8c1b46b8599184fe38d75491ab1b9

Há seus prós e contras. Eu tenho tido inúmeras experiências binge-watching. Realmente, é uma compulsão. Minha primeira grande experiência foi com o seriado How I Met Your Mother. O meu grande problema é que na altura em que iniciei a maratona, a série já estava em sua 8ª temporada, com cerca de 22 episódios cada. Durante um mês, não saía de casa, apenas binge-watching HIMYM. Mas esta é de longe a experiência mais leve que tive. Com Breaking Bad, House Of Cards e Game Of Thrones, eu deixava de dormir e sair de casa. Perdi aniversários e festas. Apenas para terminar as temporadas.

E aí que reside alguns dos contras. O primeiro é o fato de assistir tudo numa rodada só, não criando expectativas nem burburinhos, sem deixar frestas para digerir aquele episódio e até mesmo discutir com seus amigos sobre. Tornando a experiência fullgás. E o outro, são os espectadores não darem tempo para si. Apenas ficar em casa assistindo TV. Além disso, boas noites de sono podem ser extintas durante uma maratona. Os personagens não são parte de sua vida, suas experiências com eles não são duradouras. Já os prós, são perfeitos para amantes de TV. Primeiro: não há intervalos. Imagina assistir seu programa preferido sem intervalos comerciais. Sem interrupção. Segundo: você controla. Se quiser ir ao banheiro ou beber um copo d’água. Você pode dar um pause na exibição.

E depois, um contra pode virar pós. Algumas séries como House Of Cards, criada para a internet e disponibilizada inteira no site, foi projetada para esse consumo. Ou seja, assistir binge-watching faz dessa experiência necessária. Shows como House Of Cards, Game Of Thrones, Breaking Bad e The Following, abusam do clímax instigando os espectadores a consumirem exaustivamente seus episódios. Além disso, vem o eterno sentimento de embriaguez com os turning points nos exatos segundos finais de cada episódio.

Uma das verdades que tornou esse fenômeno possível é a qualidade das produções televisivas. O que tem incentivado cada vez mais nomes ligados ao cinema, a migrarem para a TV. Grandes seriados, com 10 ou menos episódios e nomes importantes em seu cast. O sucesso e a qualidade de alguns produtos, projetou nomes como Joel Kinnaman (Robocop) para o cinema e trouxe Matthew McConaghey para a TV. Inclusive roteiristas e diretores têm cada vez mais investido em linguagens cinematográficas para narrarem suas histórias. O que só adiciona qualidade aos programas. Por isso, tem atraído cada vez mais o público.

breakingbadtv.jpg.CROP.article568-largeSe binge-watching faz mal ou não, não posso garantir com precisão. Porém, para seriemaníacos como eu, ou para pessoas que sofrem de procrastinação e ansiedade, plataformas On Demand, fazem parte do estilo de vida. E sim, não faz mal assistir TV às vezes. Canais por assinatura e grandes estúdios estão cada vez mais investindo em produções de qualidade, com formatos semelhantes aos cinematográficos e com nomes de respeito (vide David Fincher, Kevin Williamson e Woody Harrelson à frente de séries de sucesso). Todavia eu acredito que sim, os novos formatos de consumo estabelecidos na internet vão dominar a produção e transmissão de shows. E produções originais feitas para a internet vão superar os formatos feitos exclusivamente para TV.

Ficou mais interessado pelo consumo binge ? Olha aqui algumas estratégias de como melhorar esta experiência. Não sabe por onde começar? Confira aqui algumas séries imperdíveis.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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