Uma vez, ouvi de um colega: “para os profissionais do livro, é Anual, mesmo”. Não poderia estar mais certo: das Bienais do Livro que rodam o Brasil, duas se destacam por atrair grandes, médias e pequenas editoras todos os anos: a do Rio de Janeiro, em anos ímpares, e a de Sâo Paulo, nos anos pares. Escrevo isso e o publico no dia 2, um dia antes da abertura da décima sétima edição da Bienal do Rio. É provável que, enquanto este texto é lido no dia de seu lançamento, dezenas; até mesmo centenas de pessoas se encontrem no Riocentro, sede do evento, montando seus estandes e organizando suas estantes; colocando cada pilha de livro segundo um esquema preconcebido para facilitar a visualização e a circulação dos milhares de leitores que transitarão nos pavilhões durante os onze dias do evento.

Ano passado, a mesma coisa. Algumas editoras a mais, outras a menos; alguns estandes de configuração diferente, e mesmo um público-alvo distinto. O trabalho, no entanto, é o mesmo: ano a ano, os profissionais do livro se revezam entre terras cariocas e paulistanas, montando seus estandes e agregando valor aos seus produtos. Marcam presença nos dias do evento, recebem autores nacionais e internacionais, contribuem na organização de sessões de autógrafos e palestras.

Ao entrar no site da Bienal do Rio, logo nos deparamos com a categoria de “autores confirmados” — ora, nada mais justo; a possibilidade dos leitores encontrarem seus autores favoritos, cara a cara, e ainda por cima sair de lá com um autógrafo é um dos grandes atrativos deste evento. Outro, para aqueles que têm interesse no mercado literário, são as palestras — que, quando combinadas com um autor popular, podem angariar uma atenção tremenda. De interesse cultural, podemos ver também logo a programação em seu site oficial: transmídia, cidade, produção de narrativas; palestras sobre livros futuros, sobre criação de livros, sobre o mundo literário — e sobre a cultura no geral.

Conhecimento cultural combinado com umas compras, em conta, com os descontos que inevitavelmente figuram em estandes esparsos. Como resistir?

Não é a toa que tanto editoras quanto leitores estão dispostos a se encontrar em um evento como as bienais. É esperado por uma parcela significativa dos leitores brasileiros, e veículos jornalísticos e culturais percebem a crescente — mas não incipiente — presença em massa do público jovem. Afinal, o público que mais cresce no mercado literário, ainda mais o público que parece mais ter interesse pela socialização de seu passatempo, é justamente esse público jovem. A grande popularização — e sucesso — de blogs e vlogs de leitura, feito de jovens para jovens, é um marco que já está aí há um bom tempo. É apenas natural essa presença, ainda mais quando, eventualmente, um grande autor reconhecido pelo público está presente.

A Bienal torna-se, então, tanto um ponto de possível socialização quanto de programas familiares ou mesmo, para os profissionais do livro, de negócios. Afinal, não são raros os editores estrangeiros que eventualmente aparecem, ou mesmo a criação de contatos entre mais de um editor e agente durante o evento. Estar na Bienal permite aos profissionais que marquem sua presença no mercado brasileiro — sendo este um dos maiores eventos do livro no Brasil —, além de garantir a visualização de seus lançamentos e, no caso da presença de autores populares, um provável pico na venda de alguns exemplares mais antigos de tais escritores.

Uma grande festa para os leitores, um grande trabalho para os editores e livreiros; é nesse momento que trabalhamos nos finais de semana, fazemos hora extra. Meses antes, já há a preparação para a Bienal: aluguel de material, contratos de montagem de estande, planejamento dos títulos que vão aparecer, o eventual esquema digno de presidente quando um grande autor fará uma aparição entre seus dedicados fãs. Se nem sempre se lucra muito na Bienal, devido aos custos envolvidos na presença das empresas no evento, pelo menos se sai de lá com a impressão de um trabalho bem-feito.

Fluminenses, uni-vos! O evento está para começar. Preparem-se para as filas, tenham os livros dos autores confirmados nas mãos e o coração na outra. Desde as crianças, passando pelos jovens, até chegar aos mais velhos amantes de livro, é esse tipo de evento que mostra que o Brasil tem uma cota de leitores. E ano que vem é a vez dos paulistas.

Imagem da capa: Roberto Stuckert Filho

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

DÊ SUA OPINIÃO