Em sua coluna Fahrenheit 1964, há pouco menos de um ano, nosso primeiro colunista de literatura Yago Barbosa escreveu sobre a queima de livros — exemplificada com a famosa obra de Ray Bradbury — com o regime militar que completava seus cinquenta anos na época. Vamos recapitular um pouco sobre títulos, temperatura e, sim, fogo:

Fahrenheit 451 é a temperatura necessária para se queimar uma folha de papel. É também (e por isso) o nome do livro de Ray Bradburry, levado às telas por Truffaut em 1966, em um dos raros casos de um filme tão bom quanto a obra original.

O enredo se passa em uma realidade distópica, em que livros são proibidos e a função dos bombeiros é incendiá-los. Inúmeras interpretações surgiram, desde as que o interpretam como uma crítica às ditaduras, até as que falam sobre como a TV destrói o hábito de leitura e gera uma sociedade de indivíduos incapacitados de pensar por conta própria.

Na época, a queima de livros era simbólica: a censura e a restrição da população em relação ao conhecimento, os grilhões editoriais que não permitem o pensamento dissidente, como o significado por trás de metáfora. Mas a queima de livros, a destruição em massa de códices — conhecida tecnicamente como “biblioclasmo”, pode tornar-se bem mais literal do que um dia desejamos. E, se temos como exemplos em nossas cabeças os clássicos episódios relacionados à tempos imemoriais, como destruições de bibliotecas da Antiguidade — ou mesmo exemplos mais próximos, como as queimas de livros do regime nazista — é porque ainda não estamos cientes de que o biblioclasmo pode estar se repetindo neste exato instante.

Não deFahrenheit-451morou muito para que chegasse aos nossos ouvidos que a organização conhecida por aí como Estado Islâmico (do Iraque e da Síria, do Iraque e do Levante, você é quem escolhe o resto) foi flagrado queimando publicamente livros raros de uma biblioteca em Mosul. E isso é relevante nos mais diversos aspectos.

A queima de livros sempre foi sintomática de um governo repressivo por razões óbvias, mas também simboliza de certa forma uma completa rejeição por valores culturais alheios. Será que existe forma mais eficiente de desecrar uma cultura a si alheia — inimiga, talvez — rebaixá-la e despi-la de seu valor do que queimar seus livros? Talvez um exemplo relevante seja a grande queima e destruição de códices do Império Asteca, patrocinada pela Igreja em tempos de conquista além-mar: consideravam-se os livros barbaridades heréticas, danosas as mentes humanas, e portanto passíveis de serem exterminadas, destruindo grande parte do material histórico que permitiria uma reconstrução da história daquele povo.

Queimando seus livros, começamos a apagá-los da história?

Mas a despeito do motivo mais culturalmente prático do exemplo citado, ainda não fica claro o motivo que levou o EI a perpetrar o ato além da conjectura mais básica e mais provável: estratégia de terror. Não coincidentemente, militantes do grupo também se esforçaram para destruir estátuas em um museu. Acabar com a moral de um povo inimigo, de um foco de resistência, a partir da destruição sistemática de sua expressão cultural parece uma estratégia pouco ortodoxa de grupos terroristas, mas vê-se que é sim moralmente impactante, além de historicamente nocivo.

Alguns podem dizer que hoje estamos melhor prevenidos quanto este tipo de tática, já que dispomos de diversas tecnologias para armazenamento de informações e dados importantes. Além, é claro, da expansão e globalização de um mercado editorial que permite a não-extinção de uma obra específica, mas justamente o seu espalhamento para as mais diversas culturas. Não obstante, há de se levar em conta que não é muitas vezes pelo intuito prático de privar a população de informações nocivas que hoje em dia pode se praticar o biblioclasmo. Principalmente no exemplo citado, do Estado Islâmico, temos de levar em consideração que a destruição de livros — e, mais, de bibliotecas — é visto também como um gesto de violência simbólica para com um povo, cultura, ou alvo específico. Quando consideramos também a presença de livros raros, cuja aura de historicidade presente no objeto físico e palpável, torna-se mais agravante ainda a violência proporcionada por sua destruição. E não apenas pelas linhas que neles estavam escritos, mas pelo seu status de relíquia, de objeto venerável, de poderoso símbolo cultural.

É menos Fahrenheit 451, onde destroem-se livros para que se impeça de lê-los, e mais uma espécie diferente de destruição de livros que, combinada com a destruição da arte, tem como objetivo simbolizar a profanação de toda a moral de um povo atacado.

Eis porque é preocupante também que hoje mesmo estejamos vendo esta destruição de arte, de bibliotecas e estatuetas (por mais que, segundo alguns, não passem de réplicas). Eis porque também é preocupante não apenas pelo ato, pelo fogo na página em si, mas por todo o significado por trás do ato que, sabemos, é grande parte de como funciona uma organização como essa que hoje assola diversas regiões do Oriente Médio. E o que isso simboliza não é nada de bom.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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