Diferente dos outros documentários sobre o ballet cuja ênfase é no trabalho árduo de preparação do bailarino, Ballet 422 leva o espectador pelos bastidores da criação do ballet de número 422 do New York City Ballet (NYCB). A peça em questão é Paz de la Jolla, o terceiro trabalho do talentoso e jovem coreógrafo Justin Peck, que deve ser criado, montado e ensaiado em apenas 2 meses para a temporada de inverno de 2013 da companhia.

Peck tem 25 anos na data do documentário e é o primeiro coreógrafo a também ser um dos solistas ativos da companhia (normalmente ou é bailarino ou é coreógrafo). Começou a coreografar em 2009 e na data ele já possuía 15 trabalhos criados para diversas companhias como Miami City Ballet, L.A. Dance Project, New York Choreographic Institute, School of American Ballet, Nantucket Atheneum Dance Festival, Skidmore College, Columbia University Ballet Collaborative e, claro, New York City Ballet.

Os primeiros trabalhos criados para o NYCB foram In Creases (2012) e Year of the Rabbit (2012).

O filme é dirigido por Jody Lee Lipes, norte-americano de 33 anos que foi diretor da primeira temporada da série Girls da HBO e é o atual Diretor de fotografia da mesma. Jody também dirigiu NY EXPORT: OPUS JAZZ (2010) e BROCK ENRIGHT: GOOD TIMES WILL NEVER BE THE SAME (2009), alguns comerciais e video-clipes e participou como diretor de fotografia em diversos outros longas. Também foi indicado como um dos 10 Cinematografistas para se ficar “de olho” pela revista Variety.

A ausência de um narrador, seja ele em off – como de costume nos documentários semelhantes sobre dança: First Position (2011), Agony and Ecstasy (2011) e Ballerina (2006), – ou presencial, com alguém explicando o que está acontecendo para a câmera, é o que torna a dinâmica do filme mais interessante e extremamente envolvente. Com um roteiro que não deixa espaços na narrativa, quem assiste não precisa de explicações para além do que está assistindo, ele passa a fazer parte do projeto e pode acompanhar perfeitamente a evolução e construção da peça, com um fluxo que não dá margem para ficar entediado.

A câmera segue silenciosa pelo ponto de vista de Peck desde o início da criação do ballet em sua cabeça, a materialização dos seus pensamentos em movimento, o registro dos passos, a criação prática com os bailarinos principais, ensaios, ajustes e mais ensaios até a première.

Além dos passos da dança, o documentário mostra a criação de figurino, de luz, do ensaio da orquestra e os mínimos detalhes necessários para a criação da obra. “O filme é mais sobre o Justin e alguém que está em uma posição como a de Justin do que é um filme sobre ballet” como explicou o diretor em entrevista à Filmmaker Magazine.

Mesmo que o espectador não fale inglês consegue assistir sem muitos problemas. Não há falas que comprometam o entendimento geral por aqueles que não conhecem o idioma (o filme está disponível apenas no Netflix dos EUA – Saiba como acessar aqui). Os diálogos são todos de correções em movimentos, luzes, música e figurino. A arte de se expressar com o corpo transcendeu não apenas o espetáculo, mas ao próprio documentário através do olhar atento de Peck.

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Depois de acompanhar todo o processo, você chega ao final do filme esperando ansiosamente pela coreografia completa aparecer na tela e poder degustar do resultado final junto com Justin. A decepção é que isto não ocorre, mas mesmo o trabalho não aparecendo por completo, o diretor foi magistral ao mesclar relances do que estava acontecendo no palco, com Justin ansioso assistindo o espetáculo na plateia e flashbacks dos meses antecedentes ao ápice no palco. Impecável.

E se depois de aproximadamente uma hora tornando visível o brilhantismo de Peck, o filme o mostra indo para o camarim, logo após receber os aplausos de sua estreia, se preparar para a performance do terceiro ato da noite, como solista. De forma sutil enaltece ainda mais o coreógrafo e solista do NYCB.

photo_08O longa é um deleite para os amantes da dança clássica e da produção cultural, afinal o NYCB é uma das companhias que mais criam novas coreografias atualmente e são verdadeiras obras de arte. É possível perceber o detalhe da escolha da música, a inovação dos movimentos que Peck sugere e a influência de Balanchine, Jerome Robbins e Peter Martins. É a apresentação do ballet clássico sem tutu. No final, você vai querer ir para New York correndo assistir um espetáculo.

Tive a oportunidade de assistir Everywhere We Go (2014) ano passado e ‘Rōdē,ō: Four Dance Episodes (2015) este ano, ambas criações de Justin Peck e são maravilhosas. Quando assisti a primeira, esta foi apresentada no segundo ato da noite, entre duas coreografias de Balanchine, e foi a que mais me encantou, transmitindo uma sensação de felicidade enquanto você assiste na plateia. Isso não é a toa, afinal o nome de alguns dos movimentos da peça são: Happiness is a Perfume (Felicidade é um perfume) e There is Always the Sunshine (Sempre existe os raios do sol). Podemos dizer que tanto Peck quanto o filme cumprem seus papéis com excelência.

 

 

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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