Eu não gosto do adjetivo fofo. Já disse isso aqui. Para mim “fofo” em arte é a versão politicamente correta de violência e sexo. Explico. Você coloca na TV uma pessoa bonitona seminua ou alguém metendo kung fu na fuça de alguém, e 99% da população vai parar para olhar. Agora se você não pode contar com nudez/porrada, é só colocar bebês, bichinhos peludos e qualquer personagem de olho grande e rechonchudo que vai conseguir atrair a atenção da galera. Não precisa nem ter conteúdo. Só pensar no último vídeo de gatinho que você assistiu 5 segundos atrás. Mas também, confesso, não sou completamente imune. Às vezes a fofura me pega também, e a fofura de Bear, quadrinho de Bianca Pinheiro, me acertou em cheio. A pergunta é — por quê?

Parte de algo maior

Só peça direções a um jornaleiro e a um urso, sempre dizia minha mãe.
Só peça direções a um jornaleiro ou a um urso, sempre dizia minha mãe.

Bear conta as aventuras de uma menininha chamada Raven, que procura o caminho de volta para casa ao lado de seu amigo urso, e amante de chá, Dimas. A história começou como uma webcomic; com a autora publicando uma página nova a cada semana até formar um arco completo de histórias depois de alguns meses. Ou seja, quando começou o seu quadrinho, havia muita pouca informação que ela podia colocar na página e era necessário prender o leitor rapidamente. Por isso o design de personagens tinha que chamar atenção e dar o tom da narrativa.

Como se trata de uma história leve, sem cenas de ação elaboradas ou humor pesado, não é importante que os personagens sejam arrojados, cool, realistas ou desenhados de uma forma mais suja. Aqui o fato de eles serem fofos é importante, é parte de um conceito mais amplo. Fora que não é uma fofura genérica. Repare nas roupas de Raven — calça, blusa, touca. Ela não é uma menininha qualquer, ela usa roupas que, pensando de forma arcaica, são masculinas.

Ai, Társio, mas que machismo é esse?! Pode parecer algo bobo e conservador, mas não podemos esquecer que o mercado é conservador. Quer dizer, tente pensar em uma personagem feminina infantojuvenil que não use saia ou vestido e sem qualquer tom de rosa na roupa. Pô, eu já escutei gente falar que colocou brinco em bebê para que saibam que a filha é, de fato, uma menina. Então, é um mérito da Bianca Pinheiro ter criado uma personagem que não só é fofa, mas que vai contra a corrente.

 

Narrativa brincalhona

Outro ponto a favor de Bear, e que combina com a estética, é que o quadrinho não se leva tão a sério. É como uma imensa brincadeira. Tudo pode acontecer, sem precisar de extensas explicações. É plenamente normal uma menininha pedir ajuda a um urso e um urso aceitar em ajudá-la. Alguns personagens podem desaparecer e reaparecer do nada, e há o uso frequente de metalinguagem. Em um desses momentos a própria autora aparece na forma de um oráculo capaz de o que vai acontecer no storyboard. Antes que ela possa passar qualquer spoiler para Raven e Dimas, uma dupla de homens cinzentos, em terno e gravata, a carregam para o trabalho. O choque é reforçado pelo estilo de desenho mais duro e pelos tons de cinza sombrios.

Essa parte foi bem inesperada.
Me deu um pouco de vontade de trancar a porta do quarto e me esconder debaixo dos lençóis nessa parte.

Mesmo com toda a brincadeira, a série tem seus momentos agridoces. Principalmente o volume 2, em que Raven e Dimas chegam a uma cidade em que todos os adultos viraram crianças. As crianças-adulto só querem fazer aquilo que proibiam seus filhos de fazerem: ficar na rua até tarde brincando, rabiscar nas paredes e comer besteiras. Os filhos, por sua vez, acabam ficando responsáveis por cuidar da casa e da cidade e, embora curtam a liberdade, também começam a sentir o peso da responsabilidade. O bacana é que a autora não empurra nenhuma moral ou julgamento, deixando o leitor livre para fazer sua interpretação.

É fofura com conteúdo e pede a participação de quem lê.

 

Conhecendo mais a Bianca Pinheiro

A curitibana Bianca é uma quadrinhista bem diferente de boa parte da galera independente. Enquanto muitos se destacam pelo traço, mas falham em construir uma história, ela apresenta uma habilidade com a narrativa em si. Cada elemento do quadrinho vai estar relacionado com o tipo de história que ela está contando. Ela fez Bear, mas também tem quadrinhos de terror, de fantasia, e outros com temas mais filosóficos. Há uma boa quantidade de material para ler tanto online quanto em livros impressos.

Retirado do tumblr http://avacavoadora.tumblr.com/
Retirado do tumblr http://avacavoadora.tumblr.com/

O próximo passo da quadrinhista é a nova graphic novel da Mônica, dentro do selo de quadrinhos autorais do Mauricio de Souza. Os detalhes da história ainda são um mistério. Eu torço para que ela faça uma HQ bem intimista, mas sem deixar de brincar com os personagens e com a metalinguagem. Até porque é algo que combina com as revistas da Turma da Mônica.

E espero que ela fique bem amiga do Mauricio de Souza, e ele invista em transformar Bear em uma série animada. Bear tem tudo a ver com animação, várias séries de TV famosas são sobre pessoas procurando o caminho de casa. Quer dizer, Caverna do Dragão, gente. E o visual simples, com cores chapadas, seria fácil de adaptar. Só um idiota perderia essa chance. Então, estúdios de animação, fica a dica. Entrem em contato com Bianca Pinheiro.

Para quem quiser ler Bear online, é só clicar neste link. Bear também foi lançado no formato de livro, em dois volumes. É só procurar nas livrarias, na internet ou no próprio site da autora: http://bianca-pinheiro.tumblr.com/

Provável capa da Mônica de Bianca Pinheiro. Deve sair para o segundo semestre.
Provável capa da graphic novel da Mônica. Deve sair este ano ainda.

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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