Carnaval chegando e você deve estar se perguntando qual fantasia vai usar na avenida. Bem, quem sabe o texto de hoje, sobre super-heróis e identidade secreta, te dê alguma inspiração. Afinal o que seriam os super-heróis sem seus uniformes extravagantes para guardar seus segredos? Capa, gel no cabelo, máscaras completas ou que só cobrem parte do rosto, óculos especiais, metamorfose e acessórios que desafiam o bom gosto. Tudo vale.

Mas por que existem as identidades secretas? Para o personagem, geralmente tem a ver com proteger a família. Para os criadores como Stan Lee, acredito que foi uma forma de aumentar a projeção do leitor nos heróis. Todo mundo já teve alguma fantasia de grandeza, um momento quando sonhou ser capaz de alterar o mundo, de olhar para as leis da física e da sociedade e dizer: “Foda-se, eu vou voar para dentro de um vulcão e tomar banho de lava porque posso.”

Então, você vê uma revistinha que fala sobre esse cara normal, pode ser até um grande cientista ou soldado, mas fora isso tem sua rotininha sem glamour como todos nós. Em algum momento ele coloca uma faixa com dois furinhos pros olhos, uma cueca por cima da calça, lambe o cabelo e passa a pular de prédio em prédio e a quebrar concreto ou soltar raios. Quase imediatamente você leitor se sente colocando a máscara e fazendo todas aquelas coisas. Porque a máscara faz desaparecer a pessoa normal e se torna um símbolo que nós podemos preencher.

Qualquer um pode entrar na internet e comprar um uniforme do Homem-Aranha. Agora não dá para entrar na internet e comprar um “uniforme” do George Clooney, por exemplo. Quer dizer, deve até encontrar máscaras de borracha, mas são toscas demais e não passam o mesmo efeito. O uniforme e a identidade secreta funcionam como um avatar, uma representação que pode ser tomada emprestada.

Viu? Igualzinho aos quadrinhos!
Viu? Igualzinho aos quadrinhos!

Claro, vestir uma roupa não é a mesma coisa que ter super-poderes (por favor, não coloque uma capa e tente pular de um prédio, nem mesmo pule do sofá). O que aponto aqui é uma possível reação psicológica despertada pelos quadrinhos nos leitores, um fenômeno que tem paralelo nas próprias histórias. Afinal os super-heróis estão sempre num dilema entre quem gostariam de ser e quem eles de fato são, da mesma forma que os fãs.

Pegamos como exemplo o Shazam (originalmente, Capitão Marvel da DC). Billy Batson é um órfão de 12 anos sem-teto e que se torna um super-herói adulto quando diz a palavra mágica Shazam! Ele voa, é muito forte, rápido e inteligente. É o maior símbolo da fantasia dos super-heróis. Tudo o que uma criança quer é ser grande, porque para ela um adulto pode fazer tudo, além de ser respeitado e ouvido. E que criança é menos ouvida do que um órfão morador de rua?

Nas livrarias saiu uma versão encadernada da origem dele: Shazam & A Sociedade dos Monstros.
E sua mãe dizia que a palavra mágica era “Por favor”? Rá! Nas livrarias, saiu um encadernado com a origem desse herói : Shazam & A Sociedade dos Monstros.

Claro, é impossível para uma criança imaginar e compreender as responsabilidades da vida adulta (eu mesmo ainda não compreendi). É o que torna tão interessante o Shazam, pois é um garoto com a responsabilidade de salvar o mundo. E, apesar de a identidade Shazam ter os poderes, é a inocência e o idealismo do menino que vão dar realmente força e caráter ao personagem. No final, por mais extraordinário que seja o herói com máscara, é o indivíduo por trás dele que lhe dá força.

O primeiro quadrinho que eu li do Homem-Aranha faz muito tempo mesmo — ele usava mullet, pra você ver. Pra quem não sabe sua identidade é Peter Parker, um garoto nerd e retraído que após um acidente se torna o Homem-Aranha, um herói extrovertido que sempre tem um apelido para dar aos vilões. Nesse quadrinho, Peter já é um homem adulto e está em paz com o fato de ser o Homem-Aranha. Na verdade, a vida de super-herói está bem tranquila, sem grandes vilões para atormentá-lo, mas mesmo assim ele não se sente bem consigo mesmo.

Ele percebe que tem deixado sua vida comum de Peter Parker de lado e que sente falta dela. Então, quando descobre que sua tia sem querer vendeu o velho microscópio de estimação para caridade, Peter decide comprá-lo de volta do bazar da igreja, na tentativa de se reconciliar com quem ele é. Porque são os laços da pessoa atrás da máscara com a vida (romances, amigos, profissão, sonhos, crenças) que vão lhe dar alguma razão por qual lutar.

Essa revista está se desintegrando.
Essa revista está se desintegrando.

O Batman de alguma forma é o inverso. A verdadeira máscara do Batman é Bruce Wayne. Pelo menos o Bruce Wayne como aparece para a sociedade: o playboy fútil e hedonista. Isso é muito bem representado pelos filmes dirigido por Christopher Nolan e pela atuação de Christian Bale. Em vários momentos do filme, Bruce Wayne finge estar bêbado ou saindo com modelos só para se distanciar de sua figura como Batman e desfazer possíveis suspeitas.

O Bruce Wayne de verdade está preso na Batcaverna e em sua obsessão. Talvez ele até gostaria de ser um playboy despreocupado, mas o Batman sempre fala mais alto. E fora a figura paterna de seu mordomo Alfred, Bruce Wayne não possui quase nenhum laço com a realidade. É por isso que talvez seja o super-herói mais próximo da fronteira de se tornar um vilão.

Veja como ele é sombrio! Praticamente o terror encarnado.
Veja como ele é sombrio! Praticamente o terror encarnado.

Sua ambição em tornar Gotham mais justa é sempre marcada por uma boa dose de autoritarismo e suas histórias em quadrinhos são sempre um prato cheio de loucuras e psicoses. Ainda assim, o maior desafio do Batman é encontrar uma forma de ser Bruce Wayne sem fingimentos, de fazer parte do mundo e obter um maior equilíbrio para sua vida.

Como muitos de nós, os super-heróis se esgotam física e psicologicamente na luta para ser uma figura idealizada, mas é quando aceitam quem são que encontram seu verdadeiro potencial. É aí que reside a força desse gênero tão catártico e popular. A busca por identidade.

Isso e os super-poderes, claro.  XD

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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