A adaptação literária pra o audiovisual é um desafio e um tema que rende muitos estudos, debates em aulas de cinema e discussões acaloradas em mesas de bar. Sobre como tal diretor de cinema não foi fidedigno a representação desse ou daquele personagem, ou sobre como alguma passagem da história foi mal explicada no decorrer do filme. Se a identidade e estilo do autor foi respeitado ou se a adaptação foi realmente algo bem distante da história que a inspirou.

Nesse campo, confesso, meu tema favorito sempre é Jane Austen. Sempre fui fã da escritora inglesa que é uma das autoras mais adaptadas pra cinema e televisão. Jane viveu no final dos séc. 18 até meados do século 19 e escreveu livros que retratavam a aristocracia e costumes da Inglaterra desse mesmo período, especialmente nas cidades do interior.

A relação com o campo e as paisagens é sempre presente e o fato de suas protagonistas serem sempre mulheres, impulsionou o romance inglês para uma considerável modernidade, visto que em suas obras a autora defendia a liberdade e o empoderamento feminino. Escrito para o público feminino, seus romances eram permeados pelo tema casamento e sobre como elas deveriam decidir sobre suas vidas. Um filme bem interessante pra conhecer mais sobre sua vida é o Becoming Jane, com a super jovem na época, Anne Hathaway como Jane Austen.

Claro que a obra de Jane não poderia ser considerada feminista se a analisarmos a partir dos dias de hoje, no entanto, no século 19 uma mulher falar em liberdade feminina é realmente transgressor. Faço esse parênteses, pois um artifício usado por discursos machistas é justamente adotar obras que foram feministas no passado como exemplo nos dias de hoje, onde aquelas autoras revogam direitos que nós, mulheres dos dias de hoje, já temos mais que consolidados. Como o direito a escolher com quem se casar, por exemplo.

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Outras características do seu legado são a ironia da sua escrita, a descrição minuciosa dos ambientes e, claro, a construção do personagem masculino perfeito: o tal Mr. Darcy, o homem mal-humorado que no decorrer da história se revela um homem devoto e que respeita o empoderamento da protagonista.

Depois que em 1958, a BBC fez uma série televisiva sobre a obra Orgulho e Preconceito (que teve seus episódios perdidos) houve o que os estudiosos chamam de “Boom Austen”. De repente, a cada ano aumentavam as adaptações de Jane Austen, nessa lista entram os mais recentes: o famosíssimo filme adaptado (e mais romântico e faz isso sem um beijo) Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Emma, As patricinhas de Beverly Hills, O diário de Bridget Jones, A casa do lago, O clube do livro de Jane Austen, Austenland, etc. E mais uma lista gigante na qual é, para os curiosos de plantão, super interessante perceber como a autora parece ter sido esquecida por dois séculos e de repente vira “febre” entre os roteiristas. Analisar a cronologia dessas obras é impressionante.

A mais recente adaptação para cinema foi do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, confesso que quando ouvia falar sobre o livro lançado em 2009, não tive o menor interesse, pensei que era uma bobeira a mais que inventam pra ganhar dinheiro as custas do legado de Austen. No entanto, fui ver o filme por curiosidade e… MARAVILHOSO! rs

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Não sou uma grande fã de zumbis, mas ver a Liz Bennet como uma lutadora shaolin que junto com suas irmãs (antes meninas que só queriam casar e bordar) como as maiores guerreiras do interior da Inglaterra e defendendo o mundo do apocalipse zumbi, juntas com um Mr. Darcy brutal, herói e matador de mortos-vivos, foi uma das coisas mais divertidas em muito tempo no cinema. Os vestidos cheios de renda que escondiam adagas e cintas-liga de couro e todo o figurino interessantíssimo feito nesse mix: aristocracia inglesa treinado no oriente pra matar zumbis, foi um show a parte.

aaSempre penso como deve ser legal ter essas ideias loucas e vê-las concretizadas dessa maneira. Destaque para a semelhança do Mr.Darcy com o Colin Firth, o Darcy da Bridget Jones e, na minha opinião, o melhor. Nos estudos feministas, se fala de como a mulher para estar em igualdade com o homem na representação cinematográfica, precisa de artifícios como as armas (que seria uma substituição do falo), no entanto, a Liz dos zumbis é, honrando o feminismo próprio de Austen, uma lutadora que não precisa de armas – ainda que as use em alguns momentos – e, ela quem salva o seu Mr. Darcy.

Jane poderia estranhar tanto sangue e morte nas suas histórias cheias de verde e dramas bem mais leves e universais, mas acho que ficaria orgulhosa – e o digo pedindo alguma licença poética – de ver como as Bennet salvam o mundo, não?

 

Sinopse:

Uma misteriosa praga espalha zumbis sobre a terra nesta releitura do conto clássico de Jane Austen, que expõe a relação entre os amantes de diferentes classes sociais no século 19, na Inglaterra. A heroína Elizabeth Bennet (Lily James) é mestre em artes marciais e armas e o belo Mr. Darcy (Sam Riley) é um assassino voraz de zumbis, que alimenta e sintetiza o preconceito por ser de uma classe superior. Na medida em que o surto de zumbis se intensifica, eles devem engolir seu orgulho e unir forças no campo de batalha encharcado de sangue, a fim de conquistar o mundo dos mortos-vivos de uma vez por todas.

 

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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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