Júlio Cortázar é um nome. Famoso por tanto seus cronópios e famas quanto por sua literatura um tanto lúdica, seu linguajar próprio e seu tão famoso Jogo da Amarelinha, o escritor argentino consegue o feito de ser mais um daqueles clássicos latino-americanos; um que, por sinal, é bem ciente do estado de seu país e o mostra na época em que o escreve. Após anos de recusas, finalmente aceita ministrar algumas aulas — palestras ou conversas, como também gosta de citá-las — para alunos de uma universidade na Berkeley, EUA, do ano de 1980.

O resultado é Aulas de literatura, publicado no fim de 2015 pela Civilização Brasileira, seguindo o projeto gráfico principal do autor aqui no Brasil e traduzido por Fabiana Camargo. Em oito palestras de mais ou menos duas horas, são abordados diversos temas relativos à criação literária — e mais, à trajetória do próprio Cortázar na literatura, de rapaz esteticamente engajado na Argentina ao homem de consciência histórica que, anos depois, escreveria O livro de Manuel.

aulas-de-literatura-berkeley-1980-julio-cortazar-281111-MLB20491853027_112015-OA fala do escritor transcrita é gostosa de ler como seus livros. De certa forma próxima em sua tentativa de criar um vínculo com os estudantes que presenciam suas palestras, seu discurso procura atravessar as áreas que considera importante em sua produção e consumo literário, começando pelo que considera sua trajetória como escritor até chegar ao conto fantástico, o conto realista e diversos pontos literários: musicalidade, humor, erotismo, política, todo o resto. Complementa-se com a história da gênese de obras das suas mais importantes (com um capítulo inteiro dedicado, é bom citar, a seu famoso Jogo da Amarelinha) e algumas de suas estripulias como o foi, na época, Histórias de cronópios e de famas.

Mas se a aula de Cortázar é melhor de se aproveitar para quem já conhece a obra do autor, seus insights em relação à literatura como um todo são facilmente apreciáveis a nível individual. Com contos seus ilustrando os pontos que faz, aqueles que já o conhecem podem acenar positivamente a cabeça enquanto outros o leem atentamente; o ponto continua lá, sua voz continua ressoando na sala de aula que desenvolvemos em nossas imaginações.

“Sempre pensei que a literatura não nasceu para dar respostas, que constitui a finalidade específica da ciência e da filosofia, mas sim para fazer perguntas, para inquietar, para abrir a mente e a sensibilidade a novas perspectivas do real”

Podem reclamar que não sejam de fato aulas: não há didática com Cortázar, apenas conversas – mas conversas repletas de suas referências e ideias, desde Charlie Parker tornado John Carter em O perseguidor aos pequenos toques de musicistas que lhe remetem a juventude de jovem argentino antes de descobrir, também, o que seu próprio país tinha a lhe mostrar. Quiçá, portanto, Conversas sobre literatura fosse um título mais apropriado, mesmo que se tratasse de um curso universitário e, de fato, contasse com um tanto de trabalhos entregues ao final do período.

E, como curso, há alunos: a cada pequeno módulo de seu mês em Berkeley, há as perguntas dos estudantes que, ávidos, pode finalmente saciar suas curiosidades a respeito de um escritor querido: desde os que perguntam, muito pertinentes, sobre o espírito de alguns de seus pensamentos aos que, sem dúvida, não puderam deixar de querer saber qual era a ascendência do escritor.

A figura lúdica e musical dos livros encarna Julio Cortázar; pode-se ver que para o autor a realidade era tão fantástica quanto seus contos e romances.  Para ele, o fantástico não era um escape do real, mas uma outra forma de apreendê-lo; considera-se, portanto mais realista que os realistas, pois apreendia um real mais amplo do que os realistas jamais poderiam. Não posso deixar de acreditar que isso traga um pouco mais de cor para a vida; o que não quer dizer que o autor não tenha se esbajando igualmente em contos e romances realistas em igual forma. E, no entanto, talvez esse saboroso contato com o fantástico e com o lúdico torne a obra cortazariana de fato memorável entre tantas joias trazidas a nós pela literatura da América Latina.

Mesmo para os que não leram os livros de Cortázar, Aulas de literatura pode vir a suscitar reflexões e perguntas naqueles que exercem e consomem a atividade literária. E quem não conhece o autor, com certeza vai sair querendo fazê-lo.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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