Em 2013, após uma viagem para New York eu publiquei um texto no site Radar da Produção, sobre as iniciativas do NYC Ballet em marketing e o foco na formação e retenção de público e experiência do consumidor. Hoje, março de 2015, 2 anos depois e muito mais experiência como observadora em ballet internacional na bagagem, volto a um ponto daquele texto que tem me causado cada vez mais indignação: o Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ).

No momento que você lê esse texto eu estou fazendo minhas malinhas ou quem sabe já embarcando para Roma e Londres, com dois ballets na programação: Giselle no Alla Scala e Swan Lake no Royal Opera House. No momento que resolvi viajar, que foi de última hora, corri para conferir a programação das companhias europeias, afinal, se era pra eu escolher pra onde ir, que fosse onde ainda tinham ingressos pro ballet.

Aqui começa a bizarra diferença entre todas as grandes companhias do mundo e o nosso querido Theatro Municipal do Rio de Janeiro: planejamento. Se você entrar no site do ABT, Alla Scala, Opera de Paris, Royal Opera House, NYC Ballet, Kirov, Bolshoi, San Francisco Ballet, The Australian Ballet, Ballet Nacional de Cuba… todos eles apresentam a programação da temporada de dança 2014/2015 ou 2015/2016. Às vezes divididos pelas estações do ano, mas está lá: um calendário de futuras apresentações, o planejamento das companhias.

Se você entrar hoje no site do TMRJ não irá encontrar um espetáculo de dança se quer do Corpo de Baile do TMRJ. A única companhia de ballet ligada a um teatro no Brasil, assim como todas as outras internacionais citadas acima, é o Ballet do Theatro Municipal. Que aparentemente está jogado ao descaso.

Ainda falando da programação e refletindo sobre anos anteriores, nossa companhia de Ballet mais importante tem no máximo 4 espetáculos diferentes no ano em “temporada”. Sendo um deles o sempre aclamado O Quebra Nozes na versão de Dalal Achcar, uma das montagens mais bonitas de The Nutcracker. Preciso falar o quão vexatório são 4 espetáculos por ano? Se você não entende absolutamente nada de temporadas de ballet, aqui vão alguns exemplos: NYC Ballet temporada de Primavera 2015 – 11 espetáculos em 2 meses. Ballet Nacional de Cuba – 7 espetáculos completos no primeiro semestre de 2015, mais galas.

Ano passado o TMRJ apresentou: Nuestros Valses e Novos Ventos, La Bayadère, Coppélia e O quebra nozes, o que será que leva a falta de interesse da administração do teatro em investir em ballet? Será a falta de público? Temos mais escolas de ballet do que escolinhas de futebol. Então, definitivamente não, todos os espetáculos que fui estavam lotados. O quebra nozes esgota tão rápido quanto uma companhia de ballet internacional. Os espetáculos do Kirov ano passado, trazidos pela Dell’Arte, estavam mais concorridos que brigadeiro em festa de criança.

Pause. Se você tem maravilhosas apresentações de dança para ir atualmente, agradeça à Dell’Arte Soluções Culturais que tem trazido frequentemente grandes companhias para dançar no Brasil. Em 2013 teve o Nederlands Dans Theater, ano passado foi o Kirov, esse ano o Bolshoi (já à venda aqui) e aguardemos ansiosamente pelo ano que vem! Unpause.

Além do fato da programação ser fundamental para um bom trabalho com o público, pense como se você fosse um bailarino e apresentasse apenas 4 espetáculos por ano. Como manter os “funcionários” motivados com apenas 4 ‘já conhecidos’ projetos por ano? Qual destaque que os melhores bailarinos ganham? O que o TMRJ faz por eles? Niente. Temos bailarinos extremamente talentosos e pouco valorizados dentro do próprio país e eu culpo bastante a instituição que trabalham, porque é a mesma que deveria estar formando platéia, promovendo esta arte específica, arrecadando mais verba, criando estratégias de desenvolvimento da companhia, se tornando referência da dança no Brasil!

Além disso, o corpo de um bailarino não foi preparado para ficar parado e sim, em movimento.

O ABT faz turnê pelos EUA quando não está em temporada. Porque o Ballet do Theatro Municipal não circula pelo país? Se somos um dos países que mais exportam bailarinos mundo afora (Marcelo Gomes e Thiago Soares são fáceis de lembrar), porque não aproveitamos os bailarinos que temos em casa?

Junto com tudo isso, vem o post que publiquei tempos atrás e a tristeza de saber que nada mudou. À nova gestão do Theatro e do Ballet fica o pedido de transpor o “tá bom assim”, os interesses de outros e passar a trabalhar com o Ballet de uma forma mais empolgante e digna da importância que tem. Porque não é possível, que não se enxergue os frutos que isso trará para a instituição!


Lições de uma visita ao NYC Ballet
Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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