Cuidado com o homem-bomba! Não use camisa vermelha! Escolha seu lado! Parece que o mundo está pegando fogo dentro e fora das salas de cinema. Os principais super-heróis da Marvel e DC estão que nem os bêbados do bar da esquina, prontos pra brigar até com o vento. Mas por que de repente os super-heróis, que teoricamente sempre representaram o melhor de nós, agora querem arrancar o pelo um do outro em vez de salvar vidas? Ou melhor, por que ver rinha de heróis está se tornando mais popular do que assistir a atos de heroísmo?

O meu é melhor do que o seu
Quando vão inventar um antialérgico para kriptonita???
Quando vão inventar um antialérgico para kriptonita???

Brigas de super-heróis não vem de agora. Qualquer um que leu quadrinhos da Marvel e DC já se fez perguntas do tipo: O Hulk é mais forte do que o Thor? O Batman poderia vencer o Super-Homem? Uma curiosidade comum, mas que vai um pouco além se você pensar que quase todo fã tem seu herói ou heroína favoritos, a quem venera como um deus. E entre religiões acontece de vez em quando de uma querer se sobrepor a outra. Não basta ver heróis brigando, você quer que seu ídolo esmague os outros.

E é claro que as editoras não perderiam a chance de ganhar dinheiro em cima disso.

A evolução

Primeiro vieram histórias em geral ridículas, que raramente afetavam a cronologia ou que envolviam um dos super-heróis sob o controle de alguma entidade/hipnose/magia. Depois a coisa cresceu na quantidade de personagens, brigas individuais viraram brigas de equipe, até virarem briga entre universos. Foi a vez das infames revistas Marvel Vs. DC, que o leitor comprava a custa do seu dinheiro e de seu cérebro para ver lutas ridículas, num roteiro sem noção, entre personagens das duas grandes editoras.

Esses socos no ombro parecem mais um cumprimento esquisito.
Esses socos no ombro parecem mais um cumprimento esquisito.

E isso gerou uma série mais infame ainda chamada Amálgama, em que, sabe-se lá por quê, os heróis DC e Marvel que lutaram entre si tiveram a personalidade fundida. Então Batman se juntou com Wolverine e virou Garra das Trevas, e o Super-Boy se juntou com o Homem-Aranha e virou Spider-Boy. Foi uma nova definição para cocô no dicionário.

Desperdicei o dinheiro do lanche da escola nessa porcaria.
Desperdicei o dinheiro do lanche da escola nessa porcaria.

Definitivamente as duas séries que serviram como divisor de águas no sub-subgênero briga de super-heróis foram Cavaleiro das Trevas (Frank Miller), em 1986, e Guerra Civil (Mark Millar e Steve Mcniven), em 2006. Não por acaso as duas são as fontes principais para os dois novos filmes. E o que tiveram de diferente de outras tentativas: um roteiro de fato.

Cavaleiro das Trevas mostrava um Batman de 55 anos que não quer só combater o crime, mas eliminá-lo. Aos poucos vai se tornando uma liderança local e entrando em conflito com o Super-Homem, que se tornou um agente do governo dos Estados Unidos. É, no final das contas, uma briga de poder e influência. Da mesma forma, a Guerra Civil da Marvel é um conflito com o governo, girando em torno da Lei de Registro de Super-Heróis. Um lado liderado pelo Homem de Ferro apoia que os heróis sejam subordinados ao governo, e o lado liderado pelo Capitão América defende a independência dos heróis. Não demora muitas páginas para as pessoas partirem para o conflito.

Apesar de um roteiro capengante, Guerra Civil ainda assim influenciou a cronologia e o universo Marvel até hoje e alterou a hierarquia de personagens da empresa.

Festa de fim de ano da empresa.
Festa de fim de ano da empresa.
Um mundo mais “complexo”

Uma história de super-herói é tão boa quanto o seu vilão. E, como muitos vilões são escritos de forma um tanto banal (o típico cara mal por ser mal), tornar um super-herói um antagonista pode ser interessante e trazer mais complexidade para o roteiro. Mas, se isso for só para ter porradaria gratuita, então não vale a pena. Em geral, porradarias estão dentro do esquema VI-CURTI-ESQUECI, a parte do curti muitas vezes é pulada. Uma boa luta, em qualquer filme de ação, tem que ser o ápice de um conflito e precisa apresentar riscos para os heróis; isso exige personagens bem construídos.

A maioria das histórias em que super-heróis brigam, os humanos por trás das máscaras são esquecidos. São histórias que acabam perdendo um pouco o apelo emocional, porque o leitor/espectador precisa se identificar com alguém para realmente se importar. É como Guerra dos Tronos — não basta acompanhar a guerra entre os reinos, mas também entender a vida de cada personagem em seus detalhes mais íntimos, para realmente ter uma emoção maior na hora das batalhas e decisões. Você sabe o que está em jogo.

Na Guerra Civil dos quadrinhos, ainda que houvesse a tentativa de mostrar o lado humano dos personagens, esses momentos não eram desenvolvidos. Com algumas exceções, era difícil enxergar o dilema moral dos personagens a não ser que eles expressassem de forma explícita. Era tudo muito rápido, muito jogado e apressado; a costumeira falta de foco das grandes sagas Marvel e DC. Os filmes, que trabalham com menos personagens e uma cronologia menos complicada do que nos quadrinhos, podem ter uma vantagem nesse ponto.

Numa das partes mais interessantes de Guerra Civil, Sue, a Mulher Invisível, abandona seu marido e se alia ao Capitão América na clandestinidade.
Numa das partes mais interessantes de Guerra Civil, Sue, a Mulher Invisível do Quarteto Fantástico, abandona seu marido, Reed Richard, e se alia ao Capitão América na clandestinidade.
Guerra X Conciliação

Vivemos numa época em que quase ninguém acredita em conciliação. Na verdade, fazer qualquer conciliação, acordo ou compromisso é visto com mal olhos. Há uma busca por mudanças radicais: se algo está errado, deve ser completamente eliminado. Mas é possível algo estar completamente errado? E se sim, se for possível fazer isso, será que é tão fácil julgar que algo ou alguém está completamente errado, como gritam os moralistas de plantão? E é possível eliminar qualquer coisa para sempre?

As histórias de super-herói vão ter sempre como fundo a sociedade da vigilância e da punição, um quê de fascismo, pois o ponto de partida das histórias é sempre combater o crime/o mal com o uso da violência. Em vez de reformas socioeconômicas, conscientização, democracia e debates progressistas na sociedade; enfim, essas perdas de tempo.

Mas dito isso, as histórias de super-herói também são progressistas, abordando temas atuais, defendendo direitos humanos e problematizando a si mesmas. Os bons quadrinhos de super-herói defendem valores como amizade, altruísmo, bem público, coragem e, atualmente, igualdade racial e de gênero. São histórias que vão além de socar vilões. Elas mostram seres humanos enfrentando seus próprios medos para se tornar pessoas melhores, contra todas as adversidades possíveis.

Por isso, eu gostaria muito — e acho até que é uma responsabilidade das grandes e influentes empresas de entretenimento — que tanto no Capitão América: Guerra Civil e Batman Vs. Superman, a conciliação fosse buscada, ainda que seja sofrida. E que não seja algo clichê, como a chegada de uma ameaça maior que una todos os heróis contra um inimigo comum.

Será que os super-heróis e o Brasil vão esperar que um Bolsonaro da vida chegue ao poder para finalmente dialogar?

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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