"Serra Pelada" na década de 1980- Por Sebastião Salgado.

 

2- Altissimo valor tecnico e artistico 3DEntendi que uma boa maneira de começar esta coluna de crítica cinematográfica seria iniciá-la falando sobre o que há de mais fundamental no cinema: imagem e boas histórias. Por isso, ela será sobre um filme que reúne muito bem as duas coisas. Além disso, aproveito o dia de hoje, início das sessões do festival de cinema documental É Tudo Verdade no Rio de Janeiro e em São Paulo, para falar sobre um documentário muito bem realizado.

“O Sal da Terra” é aquele filme com o fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, que concorreu ao Oscar esse ano, mas acabou não levando a estatueta, que foi para as mãos do americano “Citizenfour”. Você provavelmente ouviu falar do filme nessa época. Ou então, em setembro do ano passado, quando ele abriu o Festival do Rio naquela tradicional sessão de gala. Lembrou?

Lembrando ou não, acredite: nada do que você tenha lido, ou ouvido falar sobre “O Sal da Terra” chega perto da experiência que ele provoca na sala escura.

O documentário é assinado por dois diretores: o experiente cineasta alemão Wim Wenders (diretor de Pina e Buena Vista Social Club) e o também cineasta Juliano Ribeiro Salgado, primogênito de Sebastião. A união entre os diretores deu fruto a uma decisão muito sábia: não fazer rodeios. O filme é sobre Sebastião e sua obra, então o que os diretores fazem é deixar o criador falar sobre suas criações da forma mais simples e direta. Sebastião foi colocado em um estúdio, rodeado por cortinas negras, de forma que não conseguisse ver a lente da câmera que o filmava, e em frente a ele, algumas de suas fotografias eram exibidas. A partir desse “encontro”, as histórias vão saltando de sua memória. Sem perguntas, sem muitos enquadramentos.

E é mágico. As imagens parecem ganhar vida diante de nossos olhos. A mesma fotografia pode ficar por um longo tempo exposta na tela do cinema, somente com a voz de Sebastião ao fundo contando algo relacionado a ela. E sem perceber, você já está ali, há alguns minutos, diante de uma imagem estática (experiência bem rara hoje em dia nas salas de cinema).

Do trabalho “Gênesis” (2013)

Mas Sebastião e suas obras são apenas os primeiros protagonistas do filme. O co-diretor Juliano narra sua relação com o pai ausente na infância, que aos olhos do menino era uma mistura de aventureiro e super-herói. Na tela, vemos como a impressão da figura do pai permanece bem viva no cineasta. Wim Wenders expõe em sua narração as motivações pessoais e artísticas que o levaram ao documentário. Conta também alguns dados biográficos do fotógrafo. A partir daí (e também de forma intercalada), Sebastião e sua obra falam por si.

São tantas viagens e diferentes experiências que a sensação é a de que ele não vive uma só vida, mas muitas. A vida de um menino que cresceu em uma fazenda no interior de Minas Gerais; a vida de um estudante de economia, jovem militante, que foi forçado a abandonar seu país durante a Ditadura Militar; e a vida de fotógrafo, que por si só já carrega muitas outras vidas em andanças por todo o planeta.

E ainda há lugar para mais protagonistas nessa história. Lélia Wanick Salgado, esposa de Sebastião, tem seu papel na vida do fotógrafo muito bem contado ao longo do filme, não só como companheira e mãe de seus dois filhos, mas também como parceira fundamental de profissão, organizando e ajudando nas pesquisas de todos os seus trabalhos fotográficos.

Sebastião e Lélia no Instituto Terra

E antes que você vá embora da sessão com o imaginário já repleto de histórias e imagens fantásticas, a vida de Sebastião nos presenteia com a criação do Instituto Terra. Criado por Lélia, o Instituto Terra realiza o reflorestamento da Mata Atlântica na propriedade que, um dia, foi a fazenda da família de Sebastião, na cidade mineira de Aimorés. A comparação entre as imagens do terreno em 1998, antes do início do projeto, e em 2008 é impressionante. Uma enorme e densa floresta ocupou quase todo o terreno em apenas dez anos.

A única vontade do público brasileiro que não é saciada é a de ouvir no bom e velho português, (com direito a “sotaquin minerin”) as histórias do artista que viveu e captou tantas imagens fantásticas. São poucos os momentos em que nos sentimos mais próximos de Sebastião ao ouvi-lo falar a nossa língua. São momentos de bastidores ou conversas informais diante da câmera. Fora isso, todo o depoimento dado sobre as fotos e momentos da vida dele é falado em francês, talvez uma conseqüência da co-direção alemã.

Com tantas vidas, histórias e imagens, o filme é daqueles que deve ser visto por qualquer um que tenha interesse pela humanidade, uma vez que a história desse homem, colocado na tela como um quase-mito, por vezes se confunde com a história recente do planeta. Este é sim um filme sobre e com Sebastião Salgado, mas é principalmente sobre tantas e tantas vidas que ele viveu e ainda vive. Deixa em nós uma vontade fervorosa de viver.

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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