Com o fim de ano, chegam todas aquelas listas de retrospectivas que já estamos acostumados a ver. Temos catalogados os melhores e piores momentos, melhores filmes, memes, invenções, maiores decepções e, também, em inúmeros sites, jornais e blogs, melhores livros. É o momento em que pegamos todo o ano e o colocamos em perspectiva, através de nossas próprias experiências, possíveis melhorias e acontecimentos objetivos que marcaram esta translação do planeta.

Comemoremos então, o Natal e o Ano Novo dando tchau para o incrivelmente longo 2014. Eu, por minha vez, optei por fazer neste fim de ano uma pequena retrospectiva das melhores leituras. Queria poder fazer algumas indicações de Natal, mas mesmo não conhecendo muitos livros sobre o tema, temos diversas outras listas por outros sites que podem te ajudar nessa tarefa. Pensei, também, em fazer uma retrospectiva dos melhores livros lançados em 2014, mas devido a uma leitura seletiva e um acesso não-muito-imparcial a livros este ano, sinto que não seria justo. Para este, também, alguns outros sites já fizeram sua própria montagem — além, é claro, dos inúmeros prêmios como o do Goodreads que optam por premiar os lançamentos anuais.

Então fiquem, por favor, com minhas melhores leituras de 2014, mesmo que composta quase que inteiramente de livros um tanto mais velhos. Vai ver se interessam por alguma?

I am alive and you are deadI am alive and you are dead: A journey into the mind of Philip K. Dick — Emmanuel Carrère

Começo a lista com um livro que terminei mais recentemente, agora em novembro. Também, de forma um pouco incomum, começo a lista com uma obra de não-ficção. I am alive and you are dead, do francês Emmanuel Carrère, é uma biografia do popular escritor de ficção cientifica Philip K. Dick, morto prematuramente por um derrame aos 54 anos. Mas, talvez por seu estilo mais “à francesa”, digamos, a obra de Carrère se diferencia em muito das biografias de cunho jornalístico que fatalmente se encontram no mercado americano. Por exemplo, a outra biografia de Dick, Divine Invasions de Lawrence Sutin.

Em vez desta abordagem mais factual-historiográfica, Carrère opta por uma “jornada” subjetiva e narrativa-literária da vida de um autor, no mínimo, complexo. Não apenas pela sua obra mas também por uma vida conturbada e repleta de seus altos e baixos, neuroses e vícios, ingenuidades e manias. Ao mesmo tempo, Carrère especula sobre a mente de Dick através de seus livros, conjugando o que o autor vivia com o que ele escrevia, e o que isso pode nos dizer sobre o que, talvez, pensasse.

Como leitor assíduo de Dick e também algo apreciador do trabalho de Carrère, senti na obra um relacionamento intenso entre o escritor e o alvo de seu estudo. E é sensível em uma narrativa que busca menos relatar do que narrar, transformando, não muito diferente do que o próprio Dick fazia, sua vida em literatura.

As brasasAs brasas — Sándor Márai

Amizade, vingança, a espera, a idade. O livro do húngaro Sándor Márai trata de todos estes assuntos em uma narrativa suave e honesta sobre medos e relacionamentos. O general Henrik reencontra depois de décadas seu melhor amigo dos tempos áureos. Konrad, em circunstâncias misteriosas, havia viajado para longe do país sem se despedir e sem mandar notícias, por motivos que o general julga conhecer bem. E, mais de quarenta anos depois, pretende tirar tudo a limpo em um jantar em sua casa senhorial. Um livro curto com uma poderosa bagagem emocional, vemos como o tempo, a idade e a distância podem moldar e deformar relacionamentos que, um dia, foram pueris como apenas a amizade.

Este livro foi lido para a faculdade em meados de Abril, e periga ser o melhor livro que já “fui obrigado” a ler. A linguagem usada por Márai é de fácil acompanhamento, até por se tratar de um diálogo, e entremeia seu enredo presente com enredos passados e reflexões por parte de Henrik em um longo, mas interessante, monólogo.

NeuromancerNeuromancer — William Gibson

Já falei um pouco sobre a literatura deste autor há umas duas colunas, mas se lá eu focava em sua abordagem do presente em Reconhecimento de Padrões, aqui devo ressaltar que me encantou sua ambientação, seus personagens e sua história do futuro. O mundo desiludido com a tecnologia que configura toda a estética cyberpunk que a reconhecida magnum opus de William Gibson viria a consolidar que, por mais que esteja superficialmente defasada nos dias de hoje, ainda pode-se considerar filosoficamente pertinente.

Acompanhamos então a história do ex-hacker Case, que descobre uma chance de voltar à sua carreira e vocação na forma de um trabalho que parece esconder mais do que se pode perceber à primeira vista.Através da linguagem um pouco difícil de Gibson, monta-se um cenário de um mundo semi-distópico, onde grandes corporações montam a civilização; onde o escape da vida real é nas formas e cores do ciberespaço, onde inteligências artificiais podem se elevar a um estado de consciência superior a todos os seres vivos.

dublinensesDublinenses — James Joyce

O livro de contos do famoso autor de Ulisses me surpreendeu por conseguir me fazer gostar de contos aparentemente mundanos; o que, à época, me parecia bastante improvável. Talvez por nos mostrar um pouco da vida destes personagens comuns da capital irlandesa, dá um interesse simples e belo a uma cultura e uma época diferente, onde os “cidadãos normais” viviam de outras formas. Vale também reparar na progressão cronológica; em como os contos variam de pequenos dramas da infância para os causos de adolescência e as mazelas da vida adulta, culminando na velhice e em seu último e maior dos contos, Os mortos. 

Joyce, assim, mostra-nos pequenos trechos e pedaços, cenas significantes de uma vida que, com uma foto em seu enquadramento, deixa os começos e os fins à nossa imaginação.

House of Leaves

House of Leaves — Mark Z. Danielewski

Assim como I am alive and you are dead foi o primeiro da lista mas o mais recente a ler, este é um dos primeiros que li em 2014, mas o que considero a minha melhor leitura do ano. Não há jeito fácil de explicar House of Leaves que não “uma bagunça”, mas é um livro que ganha por conseguir misturar vários elementos de uma maneira inovadora em forma e conteúdo, e ainda assim conseguir mesclar tal inovação a histórias relevantes e carregadas de conteúdo dramático.

Em sua proposta, o livro é editado pelo personagem Johnny Truant, que assina várias das inúmeras notas de rodapé nas quais conta sua própria história, narrando sua tentativa de dar sentido ao corpo do texto. Isso acontece porque o livro em si, o material textual, foi encontrado por Truant no apartamento de um velho excêntrico chamado Zampanò, recentemente encontrado morto. Este texto é um tratado pseudoacadêmico a respeito de um filme-documentário intitulado The Navidson Record, filmado na casa do fotojornalista Will Navidson durante sua mudança para esta nova residência com sua família. A princípio, Navidson teria começado a filmar a mudança para documentar a vida em união, em uma tentativa reunir seu frágil e decadente núcleo familiar. Mas, pouco tempo depois da mudança, a casa começa a se mostrar sobrenatural. Surge, de um dia para o outro, um corredor novo, impossível, e completamente negro que leva para um lugar desconhecido.

Talvez tenha ficado confuso. Um livro de horror, House of Leaves se escreve como as notas, explicações e narrações de Zampanò sobre o filme e seus personagens. Truant encontra o original e o edita, percebendo que, para todos os fins, o filme The Navidson Record não existe. E então temos uma história crescentemente bizarra, com o livro a acompanhando em suas experimentações estilísticas e gráficas: diagramação ousada, uso de cores em determinados trechos, e o uso de formatos e linhas de texto para passar efeitos emocionais ou narrativos. A imagem do cabeçalho é um exemplo de duas de suas páginas, e assim podemos entender que a confusão, a princípio, não é só na história. Mas é uma experiência que se precisa viver para entender.

É uma leitura marcante, e para mim foi leitura de 2014. Assim, bem, estou para encerrar meus anos de leitura. Será que dá para encontrar mais alguma pepita em apenas uma semana?…

E para vocês? Quais foram as melhores leituras de 2014? E o que será que 2015 nos reserva em termos dos ótimos (e péssimos) livros que teremos chances de ler?

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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