A morte é algo inevitável para todos nós. Com essa ideia, viver sempre foi uma questão para todos, seja no modo como dirigimos o nosso dia e como lidamos com todas as situações que vivemos. É uma das experiências mais traumáticas e significantes nas nossas vidas. Ao perdermos um parente ou alguém próximo, percebemos como a nossa existência é baseada em vivências efêmeras e em momentos instantâneos.

Por ser um assunto muito delicado, não conversamos sobre isso normalmente. Não é um assunto recorrente em bares, preferimos discutir política ou futebol.

Se entendermos melhor, morrer faz parte da nossa existência e nos permite perceber que devemos experimentar a vida em cada segundo que temos. Na arte a sua representação é muito forte. Cada civilização ou artista teve o cuidado de entender a morte utilizando imagens. Transmiti-la como algo comum e recorrente na vida.

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Um dos exemplos mais interessantes que temos na nossa cultura é a representação do dia dos mortos no México.

Evento que acontece na primeira semana de novembro, essa comemoração marca a força que nossos ancestrais exercem na nossa vida e sua importância. É um evento muito similar ao nosso dia de finados e tem uma influência grande dentro da comunidade católica. No dia se oferece comidas e flores envolta de muita música e festividades. Tudo com muito humor, peculiar nas performances feitas pelas pessoas durante a festa.

A representação imagética dessa festa é encontrada em La Catrina, uma figura feminina que usa roupas de uma dama da alta sociedade. Sempre vista rindo e com humor sobre a ideia de morte. A própria imagem da caveira, símbolo muito associado à cultura mexicana, é vendida em forma de doce para relacionar a vida como algo efêmero e açucarado.

A ideia da caveira vinculada à morte pode também ser encontrada na idade média, em meados do século XV, com as representações de pessoas dançando ao lado de caveiras. Essa interação com a morte era vista nas pinturas sendo “o que eu já fui e você vai ser”. Como se a caveira avisasse do futuro da pessoa, mostrar que um dia tudo vai acabar.

Essa leitura é muito recorrente nas pinturas dessa época pois a morte era algo muito eminente devido as doenças como a peste negra.

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No antigo Egito, a representação da morte era algo muito importante. Toda a arte foi criada para dar conforto e ajuda ao morto. Objetos pessoais e joias eram colocadas para auxiliar o falecido no pós-morte. Um dos aparatos mais conhecidos e difundidos na cultura egípcia era o livro dos mortos. Este servia para guiar a pessoa para o além através de rituais e processos de mumificação.

Ao irmos para a cultura africana encontramos uma das imagens mais instigantes da arte, os Ibejis. Muito difundido entre o povo Yorubá, são a representação de dois irmãos gêmeos. Seu uso acontece quando um gêmeo morre e essa imagem é carregada pela mãe deles. Acredita-se que a alma dos gêmeos estejam ligadas desde que nasceram e se um morreu logo em seguida o outro também pode morrer. A maneira mais segura de preservar a vida do outro é deixar com a mãe essas duas esculturas. Um dever que ela vai levar até o fim da sua vida.

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Uma prática muito similar com o que era de costume na Inglaterra no início do século XIX. Nesse período as pessoas fotografavam seus entes falecidos como lembrança de como eram em vida. Algo muito elegante pois a fotografia era muito cara e somente as pessoas da alta sociedade podiam fazer esse tipo registro. A ideia era mostrar o morto dormindo, como se estivesse vivo. Em seguida eram feitas pequenas pinturas nas bochechas para deixá-las rosadas, muito comum entre as fotos de bebês.

Perceber que a morte sempre foi um tema interessante para a arte é ver que a vida está bastante entrelaçada a ela. Viver não é fácil e a arte nos auxilia a perceber todas as nossas fases. O cuidado que temos em nos conhecer e entender que é na vida experimentada ao máximo que compreendemos a sua essência.

 

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Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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