Numa outra vida, eu estava saindo do meu estágio no campus do Fundão da UFRJ quando passei por uma feirinha de livro de artes. Eu não tinha nenhuma intenção de gastar dinheiro, o meu orçamento estava reservado para um pão na chapa com suco e olhe lá. Mas aí eu vi este livro:

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E a primeira coisa que pensei foi “Uhh! Peitinhos!” A segunda foi “Que leveza de traço!” Era tão orgânico, como se a arte fosse feita num traço só. O meu olhar ficava circulando cada curva, indo e voltando. Fiquei hipnotizado. Custava oitenta reais. Comprei gastando quase toda a minha bolsa-auxílio de estágio. Lá se foi o pão na chapa.

Eu não conhecia J. Carlos, mas a sua identidade visual é tão representativa da memória coletiva carioca que você logo sente como se o conhecesse a vida toda. Melindrosas, almofadinhas, burgueses, malandros, Pierrot, colombinas, são todas caricaturas familiares, e pode-se dizer que o J. Carlos é a matriz dessas caricaturas (inclusive, infelizmente, alguns estereótipos preconceituosos de negros).

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A obra do Jota, se me permite a intimidade, vai ser marcada pela transição. Ele nasceu 1884, em Botafogo, e quando atingiu a adolescência o Brasil deixava de ser uma monarquia para virar uma república. A época de seus primeiros trabalhos, por volta de 1910, coincidiu com o afrancesamento do Rio de Janeiro. As ruas eram alargadas, a Avenida Rio Branco foi construída, e a arquitetura, praças, postes e cultura procuravam simular a Belle Époque de Paris.

O próprio Carnaval mudou, recebeu influências modernas. As famílias brancas mais ricas desfilavam pela cidade dentro de carros, jogando confete, e iam a bailes à fantasia com moldes vienenses. Ao mesmo tempo, o carnaval de rua ganhava mais força, com o surgimento das marchinhas e do samba de escola, começando a atrair a atenção da classe média, que crescia com a industrialização.

E a mudança não é apenas cultural, mas gráfica. Antes do século XX era muito mais difícil imprimir em larga escala, ainda mais em cores. Em geral boa parte da produção de impressos era feita através de xilogravura (usando madeira), mas novas técnicas chegaram ao Brasil, como zincogravura, fotogravura, linotipos e máquinas especializadas. Isso permitiu o colorido chapado e marcante das ilustrações e charges de J. Carlos.

As influências de seu estilo são notadamente art nouveau e déco. Os traços elegantes e cheios de curvas, cores fortes e uma composição algo geométrica não deixam muita dúvida. Me lembram muito o visual do Little Nemo, quadrinho americano da mesma época, principalmente a expressão corporal, os personagens carnavalescos e a limpeza da arte.

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Também há certo parentesco com a obra de Gustav Klimt. E aqui não tanto o traço, é mais a composição. Como em algumas pinturas de Klimt, os personagens de J. Carlos se juntam numa forma maior. Parecem fazer parte de uma grande silhueta, e dentro dela há rostos e gestos. Além disso, em algumas ocasiões o traço simples e limpo do artista brasileiro vai conviver com roupas muito detalhadas cheias de espirais e desenhos menores, o que também remete às estampas de Klimt.

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De todos os trabalhos de J. Carlos, as capas para a revista para Para Todos… são as mais interessantes. Elas são quase psicodélicas — afinal, não faltava lança-perfume nesse tempo —, com cores mais fortes em fundo preto e formas às vezes geométricas, às vezes fluidas se espalhando por toda a ilustração. É legal que ele se preocupou em criar uma identidade visual para a revista, repetindo essas características e diferenciando de outras revistas com que colaborava.

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Toda vez que eu olho essas imagens sempre penso em como seria foda ver o traço de J. Carlos em desenho animado. Os desenhos são tão limpos e claros, e os personagens tão marcantes. Seriam irresistíveis na tela! E sabe quem pensou assim também? Walt Disney.

Na época, era comum Disney visitar os países da América Latina para promover estudos e parcerias. Fazia parte da política de Boa Vizinhança dos Estados Unidos e uma forma de marketing para os filmes. Pois bem, numa exposição parece que Disney se apaixonou pelos trabalhos de J. Carlos e o chamou pessoalmente para trabalhar em Hollywood, mas foi recusado.

Disney levou então o conceito de alguns desenhos de J. Carlos que mostravam um papagaio fumando, vestindo colarinhos e usando bengala. Seria o começo do Zé Carioca. Eu não encontrei esses desenhos na internet, não é impossível que tenham se perdido. Mas há algumas ilustrações de papagaio para nós termos uma ideia de como seria esse Zé Carioca original. Inclusive uma com um papagaio arrumando as malas para viajar, talvez uma referência ao convite.

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J. Carlos morreu em 1950, completando um ciclo de mudanças da história brasileira. Passaram-se duas guerras, a proclamação da República e o Estado Novo. E boa parte da imagem que temos dessa época, principalmente a parte glamourosa, foi ele que ajudou a formar. Uma oportunidade rara à maioria dos cartunistas e ilustradores atuais, agora relegados a um trecho de uma página no final do caderno de jornal, quando antes faziam a capa. E para mim há algo de negativo nisso.

A ilustração, com toda a sua simplificação, abre mais espaço para a interpretação do que a foto. O leitor sabe que um desenho não é real e age mais criticamente. Uma foto é frequentemente tomada como uma representação total da realidade, quem a vê faz uma interpretação acrítica. Seria interessante para uma sociedade que aceita tudo com tanta pressa a volta de revistas ilustradas que consigam prender o olhar do leitor por mais do que alguns segundos. No mínimo, seria uma oportunidade para artistas brasileiros terem mais espaço para experimentar.

Enquanto isso não acontece, a internet está cheia de belas ilustrações e charges do J. Carlos.  E se você quiser saber mais, há um documentário bem informativo no youtube. (clique aí!)

Só aviso que uma vez que se perde nas curvas de sua arte, é difícil sair.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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