‘Com a situação que encontramos hoje, tendemos a nos separar do outro’. Começar um texto com uma frase dessas pode parecer estranho, mas é onde encontramos o Brasil e toda a esfera que envolve a política atualmente.

Deixo uma pergunta para ver se consigo responder: A arte pode mudar a política?

Essa é uma dúvida que permeia muitas práticas artísticas. Não trato somente das artes visuais ou plásticas mas do teatro, do cinema, da dança. Linguagens que muito lutaram e marcaram a sua insatisfação perante o governo ou uma situação política. É interessante pontuar isso pois, historicamente o teatro sempre foi um veículo politizado e que criticou muitas práticas políticas. Se pegarmos na época da ditadura, peças foram feitas com esse intuito e muitos artistas presos e torturados por tal prática.

A pergunta é em como as artes visuais pode alterar e trazer a tona uma mudança a muito tempo discutida no teatro e na dança. Isso sempre foi tratado de maneira engajada. A arte visual é apresentada como elitizada, nunca marginal e sempre aferida para uma classe social específica. Se esse é o pensamento da maioria algo está errado. A arte visual sempre se colocou em dois caminhos políticos: um arte engajada e que critica o sistema político vigente ou uma arte que está a serviço do sistema político vigente.

Insertions into Ideological Circuits 2: Banknote Project 1970 Cildo Meireles born 1948 Presented by the artist 2006, accessioned 2008 http://www.tate.org.uk/art/work/T12522
Insertions into Ideological Circuits 2: Banknote Project 1970 Cildo Meireles born 1948 Presented by the artist 2006, accessioned 2008 http://www.tate.org.uk/art/work/T12522

Caldo Meireles – “Quem matou Herzog?”, 1970.

A grande diferença seria nesses dois modus operandi. Esse caráter dicotômico e por vezes estranho ao espectador que pode colocar as artes visuais no muro ou com uma linguagem que não se define em uma dimensão política mais assertiva. É como se comparássemos as esculturas encomendadas por ditadores e os stencils nas ruas criticando os políticos no governo.

Ambas são voltadas a uma postura cívica que o artista tomou ao criar o seu trabalho artístico. Muitos já passaram por essa situação ramificada como Pablo Picasso ao vender os seus quadros aos nazista. Não é confortável, mas infelizmente aconteceu e todos acabam ‘abaixando’ a cabeça nesse sentido. A política é uma disciplina muito complexa, trata de lados opostos com uma facilidade bíblica (como uma existência do bem e do mal) jogando o povo como se fossem peças de xadrez.

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Gil Vicente – série ‘Inimigos’, 2010.

Daí vem a nossa pergunta do início e sua possível resposta: Sim, a arte muda as pessoas, mas não muda a política.

É dessa mudança que devemos nos preocupar. Se continuarmos a pensar que a arte não é política, perdemos o real motivo de sua criação que é transformar o espectador. A ação da arte é representar o mundo e intervi-lo. Nesse caminho é que está a sua vontade de politizar o espectador colocando questões sobre a sua existência. É um comprometimento social com uma causa pública que interfere a todos. Assim, encontramos mais caminhos para nos questionarem, temos aí outros meios de comunicação (mídias, textos, imagens) que possam nos elucidar com outros discursos.

Nos fixarmos em um discurso polarizado e impositivo causa a impossibilidade da criação de novos caminhos para uma transformação política. Se você somente lê um tipo de autor, vê somente um tipo de programa ou come somente um tipo de comida acaba perdendo a possibilidade de ampliar a sua estrutura social e o seu capital cultural. Se coloca impossibilitado de enxergar no outro alguém que tem os mesmos problemas que o seu. Ao mudar isso, você para de olhar para o próprio umbigo e começa a olhar para frente, desviando das coisas com mais facilidade.

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Rubens Gerchman – “Lute”, 1967.

A arte política que trato aqui vem de uma leitura imagética que não entra somente pelos nossos ouvidos como uma verdade pura, nos encontra na dúvida a vontade de questionar o que está na nossa frente. Cria a posição de investigador social e não de acusador identificável. Um processo militante com a vida e o cotidiano social e artístico.

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Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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