Em específicos momentos, a Arte sempre deu destaque para contextos históricos, pessoas importantes e marcos em civilizações. Sempre com grandes questões que permeavam as pinturas de gênero e temas dos artistas. Não por uma questão de falta de motivos para a pintura, mas por que a Arte estava em um caminho muito singular para a época. Ela fazia parte da história de determinado local e ainda reverenciava regras pictóricas de civilizações antigas. Indo por esse caminho, podemos ver as pinturas do estilo Neoclássico evidenciar monumentos e mitos gregos.

Só que temos um porém que permeia isso tudo, será que era somente isso que encantava o homem?

Será que a Arte só retratava as inquietações de um homem intelectual e que aparentava elevar a sua vida aos momentos marcantes de outra civilização? Se pararmos para pensar não exatamente.

Tinham algumas coisas que passavam nos noticiários e que faziam parte da vida que eram mais interessantes, como a ciência e a culinária. Comer e descobrir algo novo eram as grandes questões do homem moderno. A fotografia tinha sido inventada e estava possibilitando a reinvenção de um mundo mimético, de um mundo mais real e impresso em um papel. Isso era mágico! Mas a tecnologia não era somente nos aparatos da câmara escura, a culinária avançava e mostrava que a comida que a vovó fazia era algo incrível e que podia chegar nas casas das pessoas.

 

 

Comer é maravilhoso!

Sentir algo novo que te incite a novas sensações no paladar traz a nós um prazer que somente a comida pode dar. O que você come pode mudar o seu humor e o seu dia. Se pensarmos, um pedaço de chocolate pode dar prazer a um dia chuvoso ou que não andou muito bem desde o início. Só para entender: esse prazer do homem pela comida fez com que alguns artistas do período Barroco transformassem comidas em obras de arte. A natureza-morta como conhecemos, nada mais é que comida em cima de uma mesa mas, detalhadamente pintada e colocada em uma composição que a coloca num status de obra de arte. Claro que descrevo aqui somente a comida, mas a pintura que era feita nesse período fazia com que a técnica ganhasse tanto sentido quanto o que estava sendo representado.

Pieter Claesz – Natureza-morta com prataria e lagosta, 1641.

Por essa época, a cozinha no Brasil ganhava bastante influência das culturas indígenas e das culturas africanas. O nosso costume de comer tapioca e arroz com feijão já era muito popular e nem era olhada pelo mundo da arte. Os artistas que começaram a se preocupar com o cotidiano e com os costumes acabaram vindo da França como Jean-Baptiste Debret. E sim, a França é o país que mais se popularizou na culinária mundial, foi lá que a culinária ganhou requinte e encantou a maioria dos chefes mundiais.

A França como exemplo para o Brasil não passa somente pela porta da cozinha, a moda e a arquitetura foram assimiladas à cultura brasileira, mas com alto requinte, para nenhuma socialite botar defeito. Era considerado chique falar francês ou conhecer a culinária francesa nessa época. Logo, se pensarmos, a intenção de pintar o cotidiano de um país que pouco se reconhecia como nação foi uma das ideias mais marcantes do trabalho de Debret. Marcar nas aquarelas o cotidiano e a culinária que eram muito evidentes em seu país no Brasil.

 

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Jean-Baptiste Debret – Negras vendedoras de angu, 1835

Assim, a cozinha brasileira de uns tempos para cá ganhou patamar de alta culinária. Isso vem dessas influências que tivemos, como coloquei no início, mas ainda teve uma que chegou e trouxe o glacê para o nosso bolo, a cozinha portuguesa. Bacalhau, doces e outras quitutes se tornariam pratos básicos para o dia-a-dia do brasileiro. Com o tempo, o doce que era feito pela vovó alcançou a confeitarias especializadas com goiabadas e compotas para serem levadas para casa.

Claro que na arte brasileira acabamos perdendo o caminho da cozinha e pouco representamos o que era mais comum aos nossos paladares. Diferente de outros países como a Espanha e a França em que a cozinha podia fazer parte dos temas nas pinturas. No Brasil, questões políticas se misturavam a culturas regionais como a nordestina ou a grupos tipicamente brasileiros como os povos indígenas.

Nesse caminho, Até podemos dizer que a cozinha chega próximo do artista ou da arte. Saindo das telas existiram alguns artistas que amavam comer. Tanto que os seus quadros e ideais representam esse amor. Um deles é o famoso Leonardo Da Vinci, vegetariano e um amante dos animais. Muito contrário e politizado ao que as pessoas achavam na sua época, Da Vinci não entendia por que o animal ainda podia ser visto como comida. Alguns relatos atribuídos ao artista dizem que sempre que encontrava um pássaro preso em uma gaiola ele soltava para que fosse livre. É dito por Giorgio Vasari, pintor e famoso por escrever a biografia de alguns artistas italianos que, o interesse de Da Vinci pelos animais é considerado um contraponto à sua pesquisa bélica. Nas próprias palavras de Da Vinci: “Quando estou cercado por tiranos ambiciosos, procuro formas de ataque e defesa com o objetivo de preservar o principal bem da natureza, a liberdade”.

Comer é uma ação artística e política. Ao escolhermos o que vamos comer tomamos decisões sobre o que pode nos dar prazer. Podendo ser a breve ou longo prazo. A maneira como dispomos a comida em nossos pratos são como pequenas naturezas-mortas sobre as mesas.

A arte foi feita para ser experimentada em todos os sentidos e a boca foi feita para comer.

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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