Há algumas semanas estava eu com um casal de amigxs músicxs, lá pra não sei que horas da madrugada discutindo a contraposição Arte x Entretenimento. Se é possível separar um do outro, se algum é menor ou mais fácil, qual tem mais valor, quem determina tal valor e por aí vai. Claro que, pelo contexto, você já deve ter percebido o estado alterado de consciência em que todo mundo se encontrava durante esse papo, né? Pois bem, isso não nos impediu de chegar a vários lugares (e nunca conclusões) sobre essa questão tão delicada quanto sem solução. Por isso acho que no post de hoje a gente podia tentar de alguma forma relembrar o que foi discutido nessa fatídica madrugada, pra ver se conseguimos chegar aos mesmos lugares novamente, mas dessa vez com um registro por escrito, pra depois não dizerem que a gente tá inventando, né? Vou tentar manter o assunto sempre no reino musical (afinal não sei falar de mais nada), mas essa conversa pode ser aplicada a literalmente qualquer assunto, desde fabricação de cerveja até UFC. Então se liga no breque engraçadinho e partiu papo de humanas!

 

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A primeira questão a se pensar é se realmente arte e entretenimento são duas coisas distintas, se é possível separar um do outro a ponto de decretar “Isto é 100% arte!” ou “100% entretenimento!”. O que eu acho? Acho que vou responder essa pergunta com outra: o que é entretenimento? (Melhor perguntar o que é entretenimento do que o que é arte, certo? Senão a gente não sai daqui nunca mais.) Segundo nossa enciclopédia colaborativa favorita, entretenimento é algo que prende a atenção e interesse de espectadores e que causa prazer aos mesmos. Ora se a gente fosse separar arte de entretenimento completamente, ela necessariamente teria que ser algo que não prendesse a atenção ou interesse de ninguém e além disso não causasse prazer nenhum! Fechou então, arte é uma parada completamente sacal que ninguém consegue experimentar por muito tempo e que não dá prazer nenhum. Tá certo isso, crianças?

Nããããããoooo tio André!!

Claro que não né gente. Basta observar o caso do maior símbolo da arte do planeta Terra. Ela mesma, nossa eterna Mona. Foi pintada a centenas de anos num quadrinho de nada, e até hoje milhares de turistas se estaponam na frente dela diariamnete pela chance de tirar uma fotinho que seja. Se considerarmos a completa separação entre arte e entretenimento como verdadeira, o quadro mais famoso do mundo não é mais arte, mas sim entretenimento puro. E quem é louco de dizer que a Mona Lisa não é arte né? Ninguém quer ser taxado de ignorante hoje em dia. Agora pra dar o mesmo exemplo, mas com música, ouça aí o Peer Gynt que você já tá careca de ouvir:

 

 

Pô essa peça só pode ser arte né? É antigona e tem uma orquestra tocando ainda. Mas poxa, ela também prendeu sua atenção e te deu algum prazer enquanto ouvia, certo? Então acho que a gente pode tirar daí que não dá pra separar arte de entretenimento de forma tão precisa e definitiva. Talvez seja melhor se a gente pensar em dois medidores diferentes pra cada obra. Dessa forma uma manifestação artística poderia ser mais arte ou mais entretenimento de acordo com esses medidores. Mas pensando bem, dá pra dizer que uma música é mais “Arte” que outra? Sem cair num discurso preconceituoso? Aí fica mais difícil, né…

 

 

Então vejamos bem. Essa versão moderna, toda espertinha, cheia de elementos eletrônicos é mais ou menos “arte” que a do vídeo anterior, tradicional e tocada pela Orquestra Sinfônica de Sydney? No momento em que tentamos comparar duas obras, transformando a palavra arte numa espécie de fator mensurável, caímos no preconceito. Querer mensurar o impulso artístico de outra pessoa é julgar o seu valor; o que por sua vez é um processo totalmente pessoal. Por mais que você ache a versão do Facebook mil vezes melhor porque ressignificou uma peça antiga e jogou num novo contexto, alguém no mundo vai se magoar com isso e retrucar que a versão original foi cuidadosamente criada pra ser executada por 100 pessoas ao mesmo tempo e ao vivo pra outras centenas de pessoas. Então não, gente. Nada de julgar o valor da arte alheia, hein! Essa atividade a gente deixa pra quem? Pros críticos especializados. E o que a gente acha deles? Que são uns idiotas.

Tem um episódio do Bob Esponja que ilustra muito bem essa relação entre o valor da arte e a opinião do crítico, que você pode assistir aqui se tiver tempo e entender inglês. Não consegui achar esse episódio sozinho em português de jeito nenhum!

De qualquer forma, é melhor a gente seguir com a discussão. E já que não dá muito certo colocar um medidor de arte nas coisas, será que com o medidor de entretenimento a gente teria mais sorte? Bom, pensando assim por alto sem muito esforço, eu diria que sim. Mas precisaríamos fazer alguns testes antes de afirmar com algum grau de certeza. Tá, já que estamos falando de medir o quanto uma obra prende a atenção e o interesse do espectador e causa prazer, acho que não dá pra fazer isso individualmente, porque de novo esbarramos na questão do valor pessoal. Então talvez dê pra medir isso pela quantidade de espectadores, sei lá? Deixa eu procurar uma coisa aqui pra te mostrar, rapidinho:

 

 

Não vou nem discutir se isso é arte ou não porque é Dinosaur Jr., que é uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos (então é claro que é arte porque eu que decido). Mas você diria que tem um grau de entretenimento aí? Acho que sim, né? Tem, uma galera ali em pé, assistindo, pulando e gritando enquanto os caras tocam as próprias músicas. Dá pra sacar que o pessoal tá se divertindo. Beleza, e agora:

 

 

Ei, sem preconceito, hein! A gente tá discutindo justamente isso, então se controla aí e concentra no ritmo se você achar essa letra muito babaca (apesar de eu achar que a letra dessa música também é importante pra entender a questão do entretenimento. Apesar de ser bem babaca sim). Continuando, não vamos nem falar sobre a quantidade de público presente nos dois shows porque nenhum dos dois exemplos corresponde à realidade do que os artistas em questão vivem (viviam?) diariamente. O que talvez seja mais interessante discutir agora é justamente quantas e quais pessoas são atingidas pelo trabalho de cada um. Digamos que a gente coloque 200 milhões de brasileirxs numa sala e ponha pra tocar Dinosaur Jr. e depois Cristiano Araújo. Quantas dessas pessoas sentiriam um prazer genuíno ouvindo ‘Feel the Pain’, e quantas se agarrariam umas as outras pra arrochar como se não houvesse amanhã ao som de ‘Hoje eu tô terrível’? Não precisa pensar muito, né? Claro que essa constatação não deve de forma alguma servir pra dizer que artista é melhor. Acho que é simplesmente uma questão de acessibilidade. Algumas músicas são feitas pra atingir milhões de pessoas, enquanto outras são extremamente específicas. A gente pode tentar pensar que a arte do Dinosaur Jr. vem de dentro pra fora, enquanto a do Cristiano Araújo, de fora pra dentro. Talvez isso seja determinismo demais pro meu gosto, mas é uma coisa a se pensar:

Você quer agradar a maior quantidade possível de pessoas ou só quer dizer suas coisas do seu jeito?

 

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“Ninguém me entende…”

 

 

Bom, vou te deixar com essa pulga aí atrás da orelha e dizer que daqui a 15 dias a gente continua esse papo, porque ainda temos uns assuntos pra cobrir. Mas acho que chegamos num lugar bacana pra refletir por um tempo. Talvez na próxima a gente chegue nuns lugares mais bonitos ainda!

Torçamos.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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